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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Escatologia de "Jexi - Um Celular Sem Filtro" ofusca discurso promissor

Dupla responsável por sucessos como Se Beber, Não Case! e Perfeita é a Mãe!, Jon Lucas e Scott Moore ficaram marcados pelo humor desbocado e o uso ostensivo de música pop para pontuar gags, mas sobretudo também por discursos hedonistas. Defendendo o “curtir a vida” como lema, Lucas e Moore construíram uma filmografia sólida, com apenas dois tropeços inquestionáveis justamente quando ainda não haviam mergulhado de cabeça nessa abordagem filosófica.


Desta vez, porém, a dupla se arrisca em outras searas, utilizando a geração millennial para provocar uma reflexão mais ampla, criticando a vertente incel (celibatários involuntários) no processo. A recente dependência tecnológica é abordada para refletir uma juventude incapaz de se manter longe do celular por alguns minutos. É a triste máxima de quem passa mais tempo olhando para a própria palma da mão do que para os olhos de outra pessoa.

Enquanto beneficiam-se do leque de piadas aberto por esse prisma (e que geralmente incorrem no pastelão), Lucas e Moore escolhem Adam Devine (A Escolha Perfeita) como a representação física dessa figura, concebida pelo ator estadunidense com a previsível inaptidão social tão recorrente nessa faixa da sociedade. Por outro lado, a face sonhadora e por vezes inocente de seu protagonista ajuda a conquistar o espectador.


Lucas e Moore começam a se perder quando decidem alargar o escopo, tecendo comentários redundantes sobre o amor e a falta de conexão entre as pessoas, escorregando feio ao apresentar soluções óbvias para um problema muito menos simples do que aparenta. Além disso, a estrutura esquemática e engessada por convenções (principalmente a que envolve toda a subtrama romântica) falha ao depender demais de um intérprete limitado como Adam Devine, cujo primeiro ato marcado pela simpatia descamba para um desenvolvimento carregado de escatologia, onde a mão pesada dos diretores/roteiristas é sentida e refletida na composição do ator, que falha miseravelmente no humor físico exigido pela obra.


Nem mesmo o talentoso elenco de apoio consegue salvar a narrativa, que ainda tem Michael Peña (Homem-Formiga) completamente caricato na pele do chefe do protagonista. Com Alexandra Shipp (X-Men – Apocalipse) sendo pouco mais do que um interesse romântico e Wanda Sykes (Perfeita é a Mãe!) em momentos deslocados, o roteiro acaba proporcionando bons momentos através da irreverente dublagem de Rose Byrne (Vizinhos), que rouba a cena como a voz do celular.


Decepcionando ao transitar bruscamente entre temas através de clichês surrados utilizados para reverberarem discursos batidos, Jexi – Um Celular Sem Filtro finalmente implode ao tentar misturar-se entre a comédia romântica e o drama edificante de autodescobrimento, soando no final das contas como uma tentativa rasteira de parodiar “Ela”, obra-prima de Spike Jonze, a quem devo infinitas desculpas pela comparação.


NOTA 4


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