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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival do Rio 2018 | Dia 1

Agora sim a maratona do Festival do Rio 2018 começou.


E o primeiro dia teve o representante da Noruega no Oscar – Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega; o filme que pode render à Nicole Kidman seu segundo Oscar – O Peso do Passado e o novo filme da cineasta libanesa Nadine Labaki – Cafernaum.


Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega (Utøya 22 July) | Noruega


Em 22 de Julho de 2011, a Noruega viveu um dos episódios mais trágicos de sua história, quando dois atentados terroristas estarreceram sua população. O primeiro aconteceu na capital, Oslo, com uma bomba sendo detonada no prédio da sede do governo. O outro representou um verdadeiro massacre na pequena ilha de Utøya, resultando em 77 mortos, 99 feridos gravemente e uma geração inteira traumatizada para sempre. Esse ataque, por sinal, é o foco deste filme, o representante norueguês na corrida por uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.


Logo depois de exibir filmagens reais do ataque à Oslo, a produção corta (pela última vez) para o cenário principal da história, uma pequena ilha que está recebendo uma colônia de férias, repleta de jovens ávidos por diversão, descontração e alguns momentos longe de adultos. É nesse cenário que surge um maníaco identificado como ‘um supremacista de extrema-direita’, disparando contra qualquer um que ousar correr. Nesse caos absoluto acompanhamos a jovem Kaja (Andrea Berntzer) que se divide entre as tarefas de escapar da mira do atirador e procurar sua irmã mais nova.


Beneficiando-se de uma estrutura que afaga o coração do espectador com um clima amistoso que domina os primeiros minutos de projeção e logo nos atira no caos absoluto, o roteiro é bem sucedido ao estabelecer desde já cada personagem e sua importância para a história, mesmo que o ritmo frenético e a tensão crescente só nos estimule a torcer para que tudo acabe logo.


Essa atmosfera tensa é construída não só através da câmera única que segue Kaja e os demais personagens, mas principalmente por transformar-se numa espécie de câmera-personagem, já que corre junto com os jovens, cai, se esconde e até espia entre as árvores. Esse artifício, além de provocar adrenalina e manter o ritmo acelerado, é fundamental para nos inserir na história, numa experiência imersiva como poucos longas foram capazes de oferecer. Assim, sentimos o mesmo horror vivenciado por Kaja e seus compatriotas.


Utilizando o design de som de forma inteligente, podemos até não saber e muito menos ver o psicopata, mas sentimos sua presença através dos tiros, já que o volume dos ruídos acompanha a distância a que foram disparados. Sendo assim, por mais assustador que possa parecer a cadência aleatória de tiros, não há pavor maior do que escutá-los como se estivessem ao seu lado, e essa sensação é palpável.


Infelizmente, o filme comete alguns equívocos no caminho, como ao levar sua protagonista a cantar (isso mesmo) num momento onde claramente não há clima para isso. Aliás, o roteiro não demonstra a menor competência para ilustrar as conversas durante a narrativa, apelando para alívios cômicos artificiais (numa situação como essa, há motivo para rir?) e diálogos que em nada agregam ao filme (geralmente aqueles envolvendo Magnus). Felizmente, há algumas sutilezas que aumentam a carga dramática, como o subtexto envolvendo um jovem muçulmano com medo de ser afetado caso o atirador também seja um, e um momento de partir o coração envolvendo uma mãe ligando para alguém já abatido pelo atirador.


Tão impactante quanto seu próprio relato é a reflexão de que nem todos os atentados são de autoria da Al Qaeda, pois às vezes o problema pode vir de quem menos se espera: de dentro do próprio país. Pode ser aquele vizinho estranho ou o conhecido com ideias radicais. Afinal, há perigo maior do que aquele representado por quem convive conosco?


NOTA 8,5


 

O Peso do Passado (Destroyer) | Estados Unidos


Vencedora do Oscar de Melhor Atriz por As Horas (em 2003) a australiana Nicole Kidman nunca escondeu sua fome por projetos ambiciosos. Foi capaz de estrelar projetos de qualidade duvidosa como os entediantes Austrália e A Bússola de Ouro e quase implodiu a própria carreira com a chacota cinematográfica Batman Eternamente, mas também associou-se a grandes nomes do cinema independente como o controverso cineasta Lars Von Trier e o britânico Stephen Daldry, dos ótimos Dogville e As Horas, respectivamente.


Dito isso, seria leviano dizer que a atriz ressurgiu com a minissérie Big Little Lies, já que os papéis marcados pela entrega absoluta nunca deixaram de ser uma constante, mesmo que os projetos não acompanhassem essa qualidade (vide Obsessão e Reencontrando a Felicidade). Essa entrega absoluta pode ser testemunhada em O Peso do Passado (ou Destroyer, no original), onde Kidman interpreta uma policial veterana marcada por erros e traumas do passado.


Surgindo em cena com uma maquiagem que lhe adiciona algumas décadas de vida, ela é Erin Bell, uma detetive que parece atraída pela autodestruição. Praticamente morando na delegacia e só conseguindo dormir através de desmaios (literais), Bell poderia perfeitamente ser a protagonista de um noir, mas a direção de Karyn Kusama (O Convite) parece mais interessada em emular o clima da série True Detective, da HBO.


Pesado graças à trilha sempre sombria e melancólica e por uma fotografia que filtra quase todas as cores, O Peso do Passado confunde-se o tempo todo com o seriado de Nic Pizzolato, com Erin fazendo as vezes de Rust Cohle. Entretanto, além da atmosfera densa e desagradável, é mesmo a performance de Kidman que acaba roubando a cena.


Investindo num tom de voz rouco e num jeito de andar trôpego, a atriz australiana traz peso dramático e evoca todo o sentimento de frustração que a personagem nutre. Não por acaso, a câmera está sempre buscando seus olhares expressivos, como se tentasse encontrar algo que refutasse a clara degradação daquele corpo vítima de anos de infiltração numa gangue.


Decepcionando ocasionalmente ao aproximar-se das tramas típicas de um enlatado policial da TV, O Peso do Passado cai não apenas diante das convenções e dos diálogos expositivos (“eu infiltrei vocês e acabou dando merda”), como ainda vê sua montagem acompanhar essa queda, investindo numa estratégia óbvia que apela, até mesmo, para a imagem dos personagens sempre que são citados, apostando numa tola estrutura que tenta ilustrar o pensamento de Erin. Além disso, a relação dela com a filha também não consegue ultrapassar os limites do convencional, falhando na proposta de humanizar a policial ou adicionar uma camada à sua triste vida.


Recuperando o fôlego com a determinação imparável de sua estrela maior, O Peso do Passado nunca deixa de entreter, propiciando um competente thriller policial potencializado por algumas boas reviravoltas e a já citada entrega de Nicole Kidman. Se não deve liderar a corrida a Melhor Filme, ao menos coloca Kidman no páreo por sua segunda estatueta.


NOTA 7


 

Caos (Capharnaüm) | Líbano


Estamos no Líbano. O ano é 2018. Em um tribunal, vemos um casal na faixa dos cinquenta anos de um lado e uma criança algemada do outro. Um menino contra seus pais. O motivo? Ter sido colocado no mundo. Não bastasse essa premissa forte, o novo filme da cineasta libanesa Nadine Labaki (do bom Caramelo) revela-se uma verdadeira montanha-russa de emoções, com subidas e descidas cada vez mais intensas.


O tal garoto é Zain, que aos 12 anos trabalha numa mercearia e ajuda em casa com seus irmãos mais novos e sua irmã Sahar, um ano mais nova e que inspira cuidados por estar “desabrochando”. Vivendo num bairro pobre e sem perspectiva, Zain toma a decisão de iniciar os estudos, mas é imediatamente repreendido pelo pai. “Ele ganha mais trabalhando, aprender algumas palavras não adiantará de nada”, diz o homem em certo momento. Para piorar, a mãe só manifesta interesse pela ajuda de custo que viria a ser dada pelo governo. E mais: num belo dia, Zain descobre que seus pais estão negociando o casamento de Sahar, que renderá algumas galinhas e algum prestígio com o dono da mercearia local. Sim, a situação se agrava ainda mais, com Zain fugindo de casa à procura de condições melhores, não encontrando muito além de miséria e solidão pelo caminho.


Como é possível perceber, Nadine Labaki não economiza as lágrimas do espectador, ao mergulhar Zain num profundo caos. A cineasta, acostumada a alfinetar os costumes de seu país, volta sua câmera afiada para as condições de vida de seu próprio povo, que não se incomoda de ter suas crianças trabalhando e famílias crescendo desproporcionalmente ao seu sustento.


Por falar em criança, Zain Al Rafeea é o destaque inquestionável do projeto, revelando-se um verdadeiro achado, uma pérola do Cinema recente: extremamente expressivo e exibindo uma naturalidade que deixa veteranos no chinelo, Al Rafeea carrega todo o filme sem o menor sinal de intimidação ou hesitação, ganhando força com os diálogos poderosos do roteiro. E vê-lo lamentar o casamento da irmã ao argumentar que “ela é só uma criança” é tão doloroso quanto a constatação de que ele há muito tempo perdeu o direito de ser uma.


Emocionando com pequenos gestos que incluem uma preocupação legítima em ajudar a irmã a esconder os sinais de sua primeira menstruação, Zain também é capaz de provocar fortes emoções apenas através da expressão facial, o que não deixa de ser impressionante. E o que dizer do bolo (ou dois terços de um) que é roubado para a singela comemoração de um aniversário?


Construindo um ritmo que acompanha a trajetória do menino rumo ao fundo do poço, a produção é inteligente ao exibir uma estrutura que se divide entre o grande flashback da história principal e breves sequências do presente (no tribunal), rendendo aplausos a Nadine Labaki pelo invejável domínio da narrativa. Para chegar a esta constatação, basta notar que a cada vez que a narrativa parece se perder, surge uma informação no tempo presente que automaticamente indica outra pista para uma possível correção de curso.


Afastando qualquer traço de leviandade ao dar voz a todos os lados da história, Capharnaüm é a estrondosa confirmação de Nadine Labaki como uma das grandes cineastas contemporâneas, chegando à maturidade em seu terceiro filme. Verdade seja dita, só pela descoberta de Zain Al Rafeea, Labaki já merece todos os prêmios possíveis.


NOTA 9,5



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