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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival do Rio 2022 | Dia 10 (Último)

Cidadãos Preocupados (Ezrah Mudag, 2022) | Israel


Ben e Raz vivem juntos num apartamento que sugere uma situação econômica confortável. Eles começam o dia regando as inúmeras plantas que enchem um dos cômodos do lugar e logo partem para a cozinha, onde preparam uma bebida à base de vegetais que reitera o comprometimento com um estilo de vida saudável. Além disso, eles vão à academia regularmente e demonstram uma preocupação ambiental notável, ilustrada pela iniciativa de Ben em plantar, ele mesmo, uma árvore na calçada de sua rua.


Orgulhoso de sua atitude, ele observa a planta com um olhar de admiração quase infantil, até que alguém aparece para se apoiar em seu frágil tronco, envergando o projeto de árvore. Desesperado, Ben até tenta conversar com o homem, um afrodescendente de idade compatível com a do protagonista, pedindo educadamente para que ele não se apoiar na planta. Embora o pedido seja momentaneamente atendido, logo o sujeito volta a se recostar, enfurecendo Ben, que não encontra uma alternativa senão chamar a polícia. O absurdo desse momento atinge o clímax com a chegada de um oficial caucasiano. Sob o olhar distante de Ben, ao pé da janela de seu lar, a situação escala, irrompendo em violência quando, subitamente, o policial ataca brutalmente o denunciado, potencialmente matando-o. Chocado e sem reação inicial, Ben é tomado pela chamada “culpa branca”, enquanto não tira da cabeça o fato de ter provocado a morte daquela pessoa.


Um dos méritos de Cidadãos Preocupados, terceiro longa-metragem do cineasta israelense Idan Haguel, e que fica claro durante o primeiro ato é não problematizar o relacionamento homossexual de Ben e Raz, bem aceito em todos os ambientes frequentados pelo par, que inclusive planeja, em curto prazo, ter um bebê via barriga de aluguel. Não lhe parece interessante, em pleno 2022, trazer um debate sobre uniões homo afetivas. O foco do roteiro também de autoria de Haguel é a tensão provocada pelo ato impulsivo de Ben, que além do efeito dominó de proporções trágicas que cria, revela os verdadeiros pensamentos do sujeito enquanto trata de questões mais complexas, como xenofobia, racismo e hipocrisia.


O problema mais óbvio decorre da opção de Haguel por dar voz somente ao lado branco e abastado da história, negando-se a ouvir os marginalizados representados pelos refugiados eritreus. Há até uma sequência que se passa na casa da vítima, com seus parentes se espremendo num pequeno apartamento, mas esta é planejada como um subterfúgio para servir dramaticamente a Ben, o salvador branco concebido sem maiores cuidados pelo roteiro.


A sorte da produção é contar com um ator talentoso como Shlomi Bertonov que faz de Ben um sujeito repleto de contradições, sempre sugerindo uma complexidade maior do que aparenta. A passagem numa academia, com Ben tomando partido num flagrante de racismo, é filmada com crueza por Haguel, mas interpretada de forma contraditória por Bertonov, que por trás dos gestos e das falas firmes, é incapaz de esconder o desconforto estampado em seu rosto, trazendo uma camada ainda mais profunda ao atormentado protagonista, sufocado pela ideia de se redimir através de atitudes que vão na contramão de seus pensamentos.


Sobra a Haguel, por outro lado, uma habilidade de tomar partido através de diálogos pouco sutis que versam sobre questões contemporâneas, como ao mostrar uma mulher reclamando que Paris “não é mais a mesma”, pois tornou-se “uma sucursal da Al-Qaeda”, referindo-se ao crescimento da população muçulmana com o mesmo tom de reprovação com que aborda a chegada cada vez mais frequente de refugiados à Tel Aviv. Esse confronto de ideias, aos poucos mina o equilíbrio psicológico de Ben, que finalmente explode na terapia de casal, onde deveria debater com Raz sobre o filho que estão prestes a ter. Raz (Ariel Wolf), esse sim um progressista nato, não entende como Ben, um gay assumido, pode ser contra uma minoria, não hesitando em expressar sua indignação quando o companheiro finalmente expõe os motivos que o levam a não querer criar uma criança naquele bairro.


É uma pena que, quando finalmente despe o protagonista de seu disfarce social, Cidadãos Preocupados demonstra estar satisfeito demais para seguir em frente, limitando-se a uma sequência trazendo Raz e Ben exorcizando os demônios deste último enquanto buscam evidências suficientes para denunciarem a polícia local, novamente remetendo ao conceito do salvador branco que Idan Haguel claramente não compreende, encerrando a projeção de forma agridoce ao colocar seu filme, uma última vez, para perseguir o próprio rabo.


NOTA 6


 

Os Banshees de Inisherin (The Banshees of Inisherin, 2022) | Irlanda


A julgar pelo significado por trás dos “banshees” do título (criaturas da mitologia celta capazes de preverem a morte), o novo filme de Martin McDonagh, uma comédia de humor negro com doses cavalares de ironia, dá a entender que abraçará a tragédia em algum momento, consumando o flerte quase natural que predomina nos diálogos da produção. Na história, escrita e dirigida por McDonagh, Pádraic (Colin Farrell, em uma de suas atuações mais disciplinadas) é um sujeito de coração bom e olhar puro, mas que sofre pelo rompimento unilateral e repentino da amizade intensa que tinha com Colm (Brendan Gleeson, em tons equilibrados de resignação e melancolia). Tentando entender o que teria feito para motivar atitude tão drástica por parte do agora ex-amigo, Pádraic conduz um estudo particular e minucioso entre os poucos habitantes da gélida e isolada ilha de Inisherin, na costa da Irlanda dos anos 20.


O veredito, encarado pelo homem como o diagnóstico de uma doença terminal, reforça a ideia de que suas intenções cândidas não apagam o fato de ser um sujeito de prosa repetitiva e por vezes desinteressante (há quem aponte a insistência em falar sobre as fezes de seu pônei), o que o leva a perder a cabeça. Sempre agindo de modo a soar simpático e bondoso, como poderia ser chamado de chato? Pior, “estúpido”, roubando o adjetivo do jovem Dominic (Barry Keoghan, perfeito no papel), visto como o delinquente da ilha. O que não entra na mente limitada de Pádraic é que não se vive só de boas intenções, ainda mais num lugar pequeno e descolado do mundo, onde tudo se repete e todos se conhecem.


Embora muitos na minha sessão tenham gargalhado fartamente, Os Banshees de Inisherin não é um filme de riso rasgado, ainda que a graça seja intermitente. Em seus diálogos que invariavelmente descambam para o absurdo (daí o humor), o filme exibe uma atmosfera que conecta o espectador ao universo diegético através do inusitado, com problemas encarados de formas cada vez mais estapafúrdias, vide a solução encontrada por Colm para impedir as investidas de Pádraic.


O que Colm quer é exatamente o oposto do que o antigo melhor amigo é capaz de oferecer. Chegando a um grau de consciência da passagem do tempo que inviabiliza sua capacidade de enxergar os pequenos prazeres da vida (contidos majoritariamente no inofensivo ato de jogar conversa fora ou passar o tempo tomando umas e outras), o homem, bem mais velho que o intransigente parceiro de bebedeiras, é encarnado por um Brendan Gleeson hábil ao transmitir no olhar o cansaço de uma vida frustrada por não gerar um legado. “O tempo que perco com você, poderia estar usando para compor uma música”, ele justifica antes de apontar que a obra de Mozart é muito mais lembrada do que sua atitude, acusada de ser “antipática”.


Uma das virtudes do roteiro jocoso de McDonagh reside na ausência de um passado para todos os elementos que compõe a história. Por eliminação, sempre através dos imprevisíveis personagens, somos informados do que não aconteceu, algo ilustrado com perfeição na hilária cena do confessionário em que Colm rechaça uma insinuação homossexual por parte do padre, devolvendo na mesma moeda e enfurecendo o sacerdote irremediavelmente. Sim, o humor feroz de McDonagh não poupa ninguém, nem o público, que só pode imaginar o contexto no qual Inisherin está inserida.


Só através do bom design de som ficamos sabendo que uma guerra está em curso, com explosões e tiros ocupando a paisagem sonora em segundo plano (em todos os sentidos), pois ao diretor/roteirista, pouco interessa o aprofundamento de uma ligação entre o conflito armado e os habitantes da comunidade. Interesse mesmo, só na alienação por parte de pessoas satisfeitas com o microcosmo que habita, (retro)alimentando fofocas e intrigas com a mesma desfaçatez com que se referem à guerra. Os polos se invertem, havendo uma banalização do extraordinário e amenidades gerando escândalo (o que poderia ser mais chocante do que o fim de uma amizade fraternal?).


A vila, construída com ares primitivos, beneficiando-se de um horizonte bucólico ilustrado pelos campos verdejantes da costa irlandesa, possui apenas um pub e uma igreja, obrigando a população a borrar a fronteira que separa os dois ambientes, conectados fortemente pelo caráter ritualístico que envolve os hábitos locais. O ressentimento que sublinha o desgaste da amizade entre os protagonistas é pequeno diante da solidão melancólica que os habitantes insistem em esconder. Pois, Inisherin, com seu tempo permanentemente nublado, é a representação geográfica da solidão, ecoada por um estilo de comunicação limitado a celeumas que só ganham tamanho quando mantidas em segredo.


Reunindo a dupla matadora (literalmente) do subestimado Na Mira do Chefe, Martin McDonagh faz um retrato irônico da depressão e da solidão, tocando em tropos fortes (abuso sexual, relação entre Arte e Vida, legado) com uma firmeza que acaba por não se sustentar, carecendo da eloquência exibida em sua obra-prima, o divisivo Três Anúncios Para um Crime, que soube lidar melhor com o seu tema justamente por prezar pela objetividade narrativa.


Determinado a debochar de tudo e de todos, McDonagh deixa ideias pelo caminho, atirando-as no mesmo vazio temido por Colm, como a aleatória Sra. McCormick (o mais perto que o roteiro chega de uma Banshee, cuja aura misteriosa é tratada com o mesmo desleixo travestido de irreverência), mas que consegue a proeza de esticar uma premissa assumidamente ridícula ao ponto de gerar uma obra com quase duas horas de um existencialismo pautado pelo desespero.


NOTA 8





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