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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival do Rio 2022 | Dia 5

O Homem Mais Feliz do Mundo

(Najsrekjniot Chovek Na Svetot, 2022) | Bósnia


Após alguns minutos de projeção, fica claro que ao contrário do que o título indica, não veremos o tal “homem mais feliz do mundo”, pois a história, na verdade é protagonizada por Asja, uma sobrevivente da Guerra da Bósnia que passa muito longe de ter superado seus traumas. Afinal, o conflito pela independência Bósnia que ocorreu entre 1992 e 1995 resultou em mais de cem mil mortos, além de o dobro de feridos, como a própria Asja, que acabou sendo baleada dentro de sua própria casa.


Ambientado em Sarajevo, capital do país balcânico, o filme começa acompanhando a mulher em seu trajeto até um evento chamado “Toque de Felicidade”, que se revela um gigantesco encontro às escuras prometendo a seus participantes encontrar o par ideal.


É nesse momento que ela se depara com Zoran, um homem de idade semelhante, mas com uma personalidade diametralmente oposta, algo comprovado pelos jogos propostos pela organização do evento a fim de fazer o potencial casal se conhecer melhor. Embora o nervosismo seja normal numa situação como essa, a atitude de Zoran é suspeita, como se o motivo de sua inquietude fosse mais complexo. O que ele estaria escondendo? Mais intrigante ainda: o que ele está fazendo em um evento como esse? Enquanto os dois vão se conhecendo melhor, vão surgindo oportunidades para Asja desvendar Zoran um pouco mais até descobrir um segredo que a faz relembrar seu doloroso passado.


Mais do que um filme sobre a Guerra, O Homem Mais Feliz do Mundo é um filme que prega a paz, mesmo que para isso coloque seus personagens para superarem seus piores traumas da maneira mais dura possível. E como estamos falando de um conflito envolvendo todo um país, é de se imaginar que Asja não seja a única a possuir feridas abertas, pois há uma geração inteira atormentada pelos fantasmas daquela guerra, cujos horrores provocaram sequelas profundas em sua população.


Asja, em certo momento, estende a sessão de terapia improvisada com Zoran a todo o salão que recebe o “Toque de Felicidade”, buscando exorcizar seus demônios mais íntimos numa espécie de dinâmica de grupo fadada ao fracasso. Sentimentos delicados como raiva, ressentimento e a sempre perigosa ânsia por vingança se misturam num caldeirão volátil de emoções que é dirigido por Teona Strugar Mitevska com paciência enquanto desenvolve o drama principal paulatinamente, destacando o crescimento das tensões entre Asja e Zoran.


Ela, aliás é o grande nome da produção: vivida por uma Jelena Kordic Kuret que supera o desconforto inicial (responsável por momentos nervosos que flertam com o humor involuntário) à medida em que suas interações com Zoran esquentam. Seu alcance dramático é notável justamente por permití-la protagonizar passagens sutis e explosivas com a mesma eficiência, como os embates verborrágicos repletos de ironia durante um supostamente inofensivo questionário, até o momento em que finalmente liberta seu lado mais selvagem, deixando-se levar por sentimentos negativos. Por outro lado, por melhores que sejam esses momentos, Kuret brilha, de fato, durante o terceiro ato, especificamente na sequência de dança em que consegue extravasar.


Permitindo alguns momentos de leveza durante os dois primeiros atos, que contribuem para potencializar o impacto do terceiro, O Homem Mais Feliz do Mundo é o retrato fiel de uma nação ainda marcada pelos efeitos da Guerra, voltando-se à Arte para amenizar a dor de uma ferida que ainda parece longe de cicatrizar.


NOTA 7


 

A Porta ao Lado (Idem, 2022) | Brasil


O casamento pode ser entendido de várias maneiras. Alguns casais interpretam o compromisso como algo mais complexo do que a simples promessa de fidelidade, já outros dão de ombros, colocando o amor num pedestal inalcançável por sentimentos supérfluos, como aqueles que motivam uma traição, por exemplo.


Nesse contexto, o que seria uma traição? Monogamia ou poligamia? Oitavo longa-metragem da diretora e roteirista carioca Júlia Rezende, A Porta ao Lado promove orgulhosamente uma série de questionamentos, mas não demonstra a mesma volúpia em desenvolvê-los com profundidade. Para desenvolver seus argumentos, Rezende concebeu a história de dois casais vizinhos: enquanto Mari (Letícia Colin) e Rafa (Dan Ferreira) vivem num casamento tradicional, Isis (Bárbara Paz) e Fred (Túlio Starling) adotam um relacionamento aberto, ou seja, se autorizam a terem relações extraconjugais.


Dedicando todo o primeiro ato a estabelecer as diferenças sepulcrais entre os dois relacionamentos, a realizadora brinca com a visão de Mari e Rafa, que zombam dos vizinhos acusando-os de serem “metidos a moderninhos” (“quem pensa em viver como eles não tem conta para pagar!”, exclama Rafa). Entretanto, basta a convivência aumentar para os dois lados se contaminarem, com Mari mostrando-se frustrada pela estagnação de sua relação com Rafa e almejando a liberdade compartilhada por Isis e Fred, que por sua vez enfrentam uma crise a partir do momento em que ele decide fazer seu casamento evoluir.


O elenco, entrosadíssimo, supera o ar novelesco que impera nos conflitos da história, quase sempre descambando para discussões infrutíferas sobre desejos impossíveis de serem realizados. E embora a primeira sequência de sexo pareça ter saído diretamente de um softcore do saudoso Sexytime, as demais cenas tórridas dialogam com a ligação de determinados personagens com o prazer. Com isso, Júlia Rezende demonstra uma bem-vinda maturidade, investindo em reflexões que não se prendem a puritanismos.


Impressionando num elenco homogêneo e extremamente talentoso, Letícia Colin brilha como Mari, personagem cujo ponto de vista é adotado como principal pela narrativa. Segura, ela transita entre o drama e a comédia com a mesma eficiência, beneficiando-se da química irresistível com Dan Ferreira, confortável ao assumir o tipo de personalidade que faz sucesso em festas. Enquanto isso, a carismática Bárbara Paz rouba a cena como Isis, divertindo ao surgir como uma hippie moderna, mas sem deixar a peteca cair durante os embates mais densos com Túlio Starling, cuja naturalidade chama a atenção. Eficaz ao retratar a mentalidade juvenil de Fred, Starling é um talento que merece ser acompanhado.


Contando com um design de produção que contrapõe azul e vermelho em composições elegantes, A Porta ao Lado também merece elogios pelo som, tradicional ponto fraco das produções nacionais. Além disso, a montagem enxuta privilegia um ritmo ágil, muitas vezes com cortes secos, o que pode gerar estranheza em virtude da ausência de raccords, mas que não compromete o resultado. Tematicamente semelhante ao recente Águas Profundas na abordagem do relacionamento entre Isis e Fred, o filme talvez peque por não deixar margem ao subtexto enquanto soluciona seus conflitos.


A Porta ao Lado atesta a evolução de uma realizadora que jamais deixou de jogar luz sobre os relacionamentos, mesmo em seus filmes mais comerciais, quando precisou ceder a convenções para galgar posições no cenário nacional. Moderna e sofisticada, a história concebida por Júlia Rezende faz pensar e diverte na mesma medida, seguindo a tendência de sua filmografia iniciada pelo ótimo Como é Cruel Viver Assim.


NOTA 7



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