Festival do Rio 2025 | Abertura: Depois da Caçada
- Guilherme Cândido

- 4 de out.
- 3 min de leitura

No espaçoso e finamente decorado apartamento de Alma (Julia Roberts) e Frederick (Michael Stuhlbarg), está acontecendo uma espécie de confraternização entre docentes, discentes e membros do corpo administrativo da prestigiada Universidade de Yale. Ela é uma influente professora de Filosofia; enquanto ele, um psiquiatra bem-sucedido. O clima é amigável, especialmente entre a anfitriã e Hank (Andrew Garfield), professor adjunto divertindo-se em debates com os alunos presentes. Um deles é a promissora Maggie (Ayo Edebiri), cuja tese de Doutorado é coberta de elogios por quem quer que leia. Como era de se esperar de um círculo tão exclusivo e erudito, conflitos geracionais e paralelos com grandes pensadores se intercalam com doses cavalares de álcool. Até aí, nada fora do normal. Mas no dia seguinte Alma é surpreendida pela visita de Maggie, com quem mantém um relacionamento de mentoria. A jovem está prestes a contar que foi assediada por Hank, o que desencadeará o caos não apenas no campus, mas na vida de todos os envolvidos.
Vindo do cineasta responsável pelo eletrizante e excitante (em todos os sentidos) Rivais, essa premissa tinha tudo para se transformar em mais uma obra-prima. Infelizmente, o resultado fica muito abaixo.

Escrito pela estreante Nora Garrett, o roteiro propõe uma série de discussões sobre pautas modernas, como a cultura do cancelamento, as políticas de inclusão, os pontos fracos da geração Z, privilégios e até racismo. Como é possível notar, são tantos temas que se torna praticamente impossível desenvolver todos. Quando finalmente nos acomodamos durante uma discussão, Garrett já parte para a próxima, muitas vezes sem retomadas.

Enquanto tateamos à procura de conclusões, sobram performances espetaculares, principalmente de Julia Roberts, estrela que de tempos em tempos recupera o amor pela atuação e resolve nos brindar com um trabalho à altura de seu talento. Foi assim com Álbum de Família (2013), por exemplo, que inclusive lhe rendeu sua última indicação ao Oscar. Como Alma, ela tem a oportunidade de explorar uma personagem com uma lista de defeitos mais proeminente do que a de virtudes. Nesse ponto, é preciso dar os devidos créditos à Nora Garrett pelos diálogos afiadíssimos que criou e que são consumidos como um banquete pela eterna estrela de Uma Linda Mulher (1990). Com Andrew Garfield (Até o Último Homem), ela possui as melhores trocas, seja em função da inesperada química em cena, ou pela argumentação sofisticada de seus personagens. Embora encarne com segurança o dúbio Hank, Garfield perde espaço no segundo ato e acaba superado pelo sempre excepcional Michael Stuhlbarg, que assim como fez em Me Chame Pelo Seu Nome (também de Guadagnino), tem ao menos dois monólogos dignos de aplausos de pé.

Falando em Luca Guadagnino, um cineasta que admiro desde o clássico instantâneo supracitado, foi com imensa decepção que constatei a mão pesada com que guia narrativa. Ao contrário do que fez em Rivais (2024), cuja força é proveniente justamente de sua condução marcante, Depois da Caçada traz a direção mais pavonesca de sua carreira. Parece que o italiano decidiu emular os delírios escalafobéticos de Alejandro González Iñárritu (Birdman, Bardo), fazendo questão de sempre deixar claro que há um diretor presente. Sempre chamando atenção para si, ele adota recursos visuais que às vezes mais distraem do que agregam à narrativa. A instabilidade do quadro em certos momentos (alternando dolly in e dolly out), é eficaz, mas para cada acerto como esse há planos-detalhes em mãos, quadros que cortam rostos pela metade, zooms dignos de novelas mexicanas, até culminarem no instante inacreditável que encerra a projeção trazendo o próprio cineasta gritando “corta!” (sim, isso mesmo).

Outra intervenção, mas dessa vez positiva, é a trilha sonora composta por Trent Reznor e Atticus Ross. Quem se encantou pela trilha dançante de Rivais (que jamais cansarei de condenar a esnobada que recebeu da Academia), se surpreenderá com melodias mais suaves dessa vez, num ponto de virada semelhante ao momento em que Hans Zimmer revelou Discombobulate (tema de Sherlock Holmes) ao mundo. O piano, diga-se de passagem, se encaixa com a proposta melodramática da produção.

Que no final das contas até consegue envolver o espectador com suas intrigas e provocações, mas que, não fosse por seu elenco altamente qualificado, teria sucumbido.
NOTA 5









