Festival do Rio 2025 | Dia 10
- Guilherme Cândido

- 12 de out.
- 7 min de leitura
Virtuosas
(Idem, Brasil)

O “Goes to Cannes” é uma vitrine de filmes em pós-produção com potencial internacional e, neste ano, reuniu 25 longas-metragens no maior festival de Cinema do planeta. Virtuosas foi justamente um dos cinco projetos brasileiros escolhidos por meio do edital da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), com curadoria do Festival do Rio, que este ano representou o Brasil, país de honra do Marché du Film. Falando no Festival do Rio, a produção é a primeira rodada inteiramente em Santa Catarina a integrar a mostra competitiva.
Dirigido por Cíntia Domit Bittar e escrito por ela ao lado de Fernando De Capua, o longa-metragem pega carona nas críticas do ótimo Medusa (2021) ao crescimento de grupos de culto ao cristianismo e constrói seu próprio relato de uma realidade cada vez mais comum: o dos coachs evangélicos, especificamente aqueles voltados às mulheres. Bruna Linzmeyer (também de Medusa) interpreta Virgínia Heinzen uma espécie de celebridade do universo evangélico que resolve sortear três ingressos para o retiro VIP que irá liderar. Supostamente um momento de fortalecimento da Fé e da comunhão entre cristãos, o evento acaba sendo tomada pelo terror e pelo desespero quando uma lenda urbana ganha vida.
Tirar sarro dessa parcela dogmática e hipócrita é tão fácil que já tivemos acesso a várias produções que fazem isso (Divino Amor, de Gabriel Mascaro, é minha favorita). Com a piada já pronta, o material é vasto, mas Bittar é inteligente ao fazer um recorte específico, o que a possibilita ampliar seus alvos. A questão, em outra demonstração de sagacidade da realizadora, não é debochar da Fé alheia, mas criticar a manipulação por parte de supostos líderes religiosos que enriquecem às custas dos fiéis.
O texto é tão inspirado, que as gargalhados são quase ininterruptas até o terror tomar o filme de assalto. O ultraconservadorismo, o fundamentalismo e a demagogia servem de munição a Bittar, que vai na contramão do Cinema Brasileiro ao focar nas vítimas endinheiradas ao invés dos mais pobres, normalmente presas fáceis dos mercadores da Fé.
Linzmeyer, como já era de se esperar de alguém talentoso, domina a tela com a composição grandiloquente, mas não exagerada de Virgínia, ainda que Maria Galant (A Nuvem Rosa) também tenha seus momentos para brilhar.
A transição para o horror é o ponto fraco de uma direção até então irrepreensível de Cíntia Domit Bittar, que descamba para a violência sem qualquer cerimônia. O desequilíbrio no tom fica ainda mais patente quando o humor, uma das forças do texto, desaparece gradativamente à medida que nos aproximamos do desfecho.
Já é uma baita estreia para Bittar, uma realizadora com recursos suficientes para colocar sua visão criativa em prática, corroborando um discurso que, infelizmente, está cada vez mais perto de deixar de ser ficcional.
NOTA 7
Homo Argentum
(Idem, Argentina)

Apesar de conquistar o posto de filme mais visto na Argentina desde a retomada pós-pandemia, com mais de 1,7 milhão de espectadores, Homo Argentum coleciona polêmicas desde seu lançamento, a começar pelos elogio feitos por Javier Milei, presidente argentino, que fez questão de utilizá-lo como exemplo em seu discurso contra a “agenda hipócrita dos progressistas” e classificando-o como um ataque à “cultura woke”. Ironicamente, não faz muito tempo desde que Milei promoveu uma redução expressiva da verba destinada ao INCAA, Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual, instituição governamental responsável pelo financiamento da produção cinematográfica argentina. Lembrando que nossos hermanos ostentam oito indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional, tendo vencido em duas oportunidades, em 1986 com o bom A História Oficial e em 2010 com o excepcional O Segredo dos Seus Olhos, protagonizado pelo gênio Ricardo Darín.
Já a recepção por parte da imprensa tem sido tremendamente desfavorável, apontando que a produção reforça estereótipos e apresenta uma visão exclusivamente portenha (o morador de Buenos Aires), escanteando a realidade das províncias e distorcendo a percepção acerca da classe trabalhadora. Independentemente da posição política, a verdade é que Homo Argentum é mesmo muito ruim.
Escrito e dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat, inacreditavelmente a mesma dupla por trás dos estupendos O Cidadão Ilustre (2016) e Concorrência Oficial (2021) a narrativa é composta por dezesseis histórias que, separadas, parecem mais com esquetes exibidas no extinto Zorra Total (1999-2015) e juntas, uma bagunça desconexa que, de fato, reforça estereótipos. Nem mesmo o humor, de altos e baixos, ameniza o sofrimento de ver um artista multifacetado como Guillermo Francella emprestar sua credibilidade a uma coleção de caricaturas grosseiras.
A única “pequena história” (como a sinopse oficial se refere aos embaraços vistos na tela) que realmente funciona é justamente a primeira, trazendo Francella na pele de um milionário, que se pergunta porque um país com indivíduos tão bons não funciona coletivamente, fugindo após provocar dois atropelamentos, numa sátira construída com fortes doses de acidez e que é direto ao criticar tanto o individualismo quanto a hipocrisia do argentino médio, ao menos na visão de Cohn e Duprat.
De resto, piadas de cunho sexual (olha o Zorra Total aí), uma reprovável alusão a trabalhadores informais argentinos enganando turistas (brasileiros, no caso) e uma esquete envolvendo italianos roubando um portenho, que desperdiça o potencial de sua premissa, aproveitando dados históricos da imigração italiana ao país sul-americano.
Mesmo nos piores momentos (e acredite, não é fácil eleger apenas um), Francella está sempre se esforçando para manter o mínimo de dignidade possível, divertindo com visuais extravagantes e impressionando com performances que se diferenciam sem dificuldades. Repare como ele chega a falar com voz rouca na hora de interpretar um cineasta (numa esquete sem graça, mas que quase é salva por uma brincadeira com os tradicionais discursos socialmente responsáveis que dão o tom das grandes premiações) ou como adota uma postura curvada para encarnar um personagem específico.
Com tantos talentos envolvidos atrás e a frente das câmeras, a frustação consegue ser maior do que a incredulidade e nesse ponto me vejo na obrigação de concordar com meus colegas argentinos.
NOTA 3
Hamnet – A Vida Antes de Hamlet
(Hamnet, Reino Unido)

É um pecado ver a talentosíssima Chloé Zhao desperdiçar seu tempo a frente de projetos dos quais sequer tem pleno controle criativo. Após levar o Oscar por Nomadland em 2020, na famigerada cerimônia impactada pela Pandemia, a chinesa foi cooptada pela Marvel para dirigir logo no ano seguinte o infame Eternos, aventura que, vamos admitir, até possuía potencial na teoria, mas se revelou um tremendo fracasso em vários sentidos, principalmente criativo. Quase meia década depois, finalmente temos Zhao de volta e devemos agradecer à escritora Maggie O’Farrell por resgatar a cineasta tal qual Orfeu fez com Eurídice, pois foi a norte-irlandesa, autora do romance original, quem convenceu a diretora vencedora do Oscar a embarcar no projeto.
O roteiro, assinado por ambas, dramatiza a ligação entre a morte do filho de William Shakespeare e a criação de sua peça mais famosa, cujo título já é uma referência trágica por excelência, mas que a cartela que abre a projeção faz questão de explicar (“Hamnet e Hamlet são nomes intercambiáveis”). Curiosamente, Hamnet – A Vida Antes de Hamlet é mais sobre Agnes (Jessie Buckley, indicada ao Oscar por A Filha Perdida) do que sobre seu marido, William Shakespeare (Paul Mescal, indicado ao Oscar por Aftersun), que, aliás, só é assim chamado com quase duas horas de projeção, atendendo por Will até lá.
Ambientada entre os séculos XVI e XVII, essa abordagem se mostra promissora logo no início, afastando modelos batidos. Dessa forma, Will é tratado como uma mera peça da engrenagem familiar, cumprindo a função de marido provedor enquanto Agnes cuida da casa e dos filhos. O que diferencia a visão de Zhao e O’Farrell de tantas outras é o fato de a câmera permanecer com a matriarca no interior inglês mesmo depois de o dramaturgo se afastar para trabalhar em Londres.
Se por um lado é bom não vermos, mais uma vez, a trajetória de Shakespeare rumo ao sucesso, por outro, sua ausência é tão sentida que nem mesmo seu retorno repentino (no dia da tragédia), compensa a vacância emocional. A sorte da produção é poder contar com uma Jessie Buckley, um talento por si só, em estado de graça, absorvendo sozinha e com desenvoltura toda a carga emocional da narrativa. Poderíamos afirmar que a irlandesa carrega o projeto nas costas, mas se sentimos falta de Will, é porque Paul Mescal é bom o bastante para deixar sua marca tão precocemente.
Se Buckley canaliza o sofrimento em termos mais viscerais, Mescal tem a responsabilidade de mostrar um homem que agoniza por dentro. Não por acaso, é através da Arte que ele finalmente expressa toda a sua dor, num belo exemplo de como algo tão belo pode sair de um momento tão duro. Esse discurso, diga-se, é o que de melhor Hamnet tem a oferecer, argumentando a cura pela Arte com uma eloquência digna de prêmios, ao mesmo tempo que joga luz sobre o processo criativo por trás de uma das obras mais famosas da Literatura Mundial.
É claro que, por se tratar de um filme dirigido por Chloé Zhao, o longa também oferece cenas deslumbrantes, nas quais a paixão da chinesa pela natureza (o que é comprovado por sua filmografia) permite planos verdadeiramente pictóricos, como por exemplo ao ressaltar a conexão de Agnes com uma floresta, complementando o vermelho forte de seu figurino com o verde quase brilhante das folhas de uma árvore. O design de produção é outro ponto positivo, sendo crucial para criar a atmosfera claustrofóbica durante um parto particularmente tenso.
Pena que os minutos finais, que tinham tudo para encabeçarem listas dos melhores momentos de 2025, são atrapalhados por um didatismo até então inédito na narrativa, com uma personagem verbalizando o que vemos e explicando um simbolismo óbvio. Um tropeço decepcionante, mas não suficiente para invalidar este aguardado retorno de Chloé Zhao à boa forma.
NOTA 8








