Festival do Rio 2025 | Dia 5
- Guilherme Cândido

- 7 de out.
- 6 min de leitura
O Olhar Misterioso do Flamingo
(La Misteriosa Mirada del Flamenco, Chile)

Durante a década de 80 um vírus misterioso assolou o mundo, dizimando especialmente homossexuais. Se países desenvolvidos, com cientistas renomados debruçando-se sobre o caso tinham dificuldades para desvendar o que mais tarde se chamou AIDS, o que dizer de uma cidadezinha no interior desértico do Chile e que justamente serve de palco para o filme escrito e dirigido pelo estreante Diego Céspedes. Vencedor do Grande Prêmio da Mostra Un Certain Regard em Cannes o filme opera em alta octanagem, no atrito entre extremos, onde seres humanos são capazes de amar e odiar na mesma medida e um vasto território é habitado por pouquíssimas pessoas.
Muitas, inclusive, vivendo sob o mesmo teto oferecido pela Mama Jiboia (Paula Dinamarca, sublime), mulher trans que abriga um pequeno grupo de travestis e acolhe Lídia (Tamara Cortés, uma revelação), que aos doze anos sofre bullying dos meninos locais em função de daquela que chama de mãe e é conhecida como Flamingo (Matias Catalán, cuja presença ecoa até quando está ausente), parte do grupo. Alegre e extremamente leal, trata-se de uma comuna unida, tanto que não hesita em defender a menina, impondo um "temível" contato visual aos delinquentes. Esse momento “olho no olho” é emblemático por dois motivos: primeiro para ilustrar a desinformação que corria solta na época e levava as pessoas a acreditarem que o mero ato de olhar para um homossexual já seria o bastante para contrair “a peste”. Segundo, pois simboliza um raro momento em que aquela parcela tão marginalizada da população finalmente é vista, mesmo que forçosamente.
A despeito do terreno arenoso e infrutífero, na casa de Mama Jiboia (todas possuem nomes referentes a criaturas da natureza), sobram felicidade e afeto em gestos que se contrapõem à animosidade perpetrada pelos demais habitantes, cujo preconceito é enraizado na ignorância, de praxe. E Céspedes, como já dito, utiliza esse contraste para alimentar outros, construindo uma trama que ora pende para o realismo fantástico (a sequência do “contágio”), ora para o ultra-realismo (o assassinato à sangue frio). Até mesmo uma criança, tradicionalmente um símbolo de inocência e pureza, está sujeita a carregar ressentimento e provocar violência, enquanto um adulto, com pré-conceitos já cristalizados no inconsciente, é capaz de mudar ao descobrir que o Amor é livre em todos os sentidos.
Vale ressaltar que a produção evita perpetuar convenções e arquétipos, e mesmo que se renda à brutalidade para ilustrar a conexão de Flamingo com o ex-namorado mineiro, jamais perde de vista a empatia e até mesmo o lúdico, substituindo a tragédia por meio de toques fantasiosos. Até a atmosfera pesada se rende ocasionalmente à leveza do grupo em seu mosaico extravagante e caloroso, sobretudo quando há um embate com a quadrilha de jagunços liderada por um sujeito chamado, veja a ironia, “Clemente”.
Uma estreia e tanto para Diego Céspedes tanto do ponto de vista artístico, mostrando confiança e habilidade suficientes para conceber uma experiência singular, diferente de tudo o que tem sido lançado nos cinemas neste e em anos anteriores, como na forma de um manifesto LGBTQIAPN+, num momento tão retrógrado de nossa sociedade que O Olhar Misterioso do Flamingo, mesmo passando-se em 1982, parece contemporâneo.
NOTA 8
Minha Amiga Eva
(Mi Amiga Eva, Espanha)

Perto de completar cinquenta anos, a espanhola Eva (Nora Navas) viaja para Roma a trabalho, deixando o marido e o casal de filhos adolescentes em Barcelona. Na capital italiana, ela encontra mais do que colegas de profissão em reuniões presumivelmente monótonas, pois logo no primeiro dia acessa por engano o quarto de Victor (Rodrigo de La Serna), sem saber que o homem de meia idade passará a ser uma presença recorrente em sua vida, reverberando desde já. O encontro casual com o roteirista argentino tira do prumo uma vida até então estável, pois apresentou possibilidades que Eva sequer imaginou desejar. O casamento que antes era firme, desmorona e a percepção de felicidade, questionada.
O diretor catalão Cesc Gay sabe mesclar drama e comédia, algo que ficou cristalino quando nos presenteou com o magnífico Truman (2015), mas em seu mais novo trabalho, premiado no Festival de San Sebastián, ele se permite lidar mais com uma leveza relativamente depressiva do que com a necessidade de contrapor uma realidade implacável. Afinal, o que falta à nossa heroína não é material. É algo intangível, mas não inalcançável e, por isso, tão digno de ser perseguido.
A talentosa Nora Navas (do brilhante Dor & Glória, de Pedro Almodóvar), ajuda e muito nessa tarefa ao construir Eva como uma mulher simpática e agradável, mas com um olhar inquestionavelmente tristonho. De La Serna (o Palermo da série La Casa de Papel) exibe a mesma competência, ao evitar a tentação de apresentar Victor como a idealização do homem destinado a libertar uma mulher das garras da infelicidade. Ao invés de encarnar o príncipe no cavalo branco, ele personifica a chave-mestra das portas do castelo da donzela, que por sua vez passa longe de ser indefesa.
Gay não arma jogos de sedução e nem trama pela proximidade do potencial casal, pelo contrário. Excetuando-se algumas coincidências bem convenientes ao roteiro escrito por ele ao lado de Eduard Sola (Através da Minha Janela: Além-Mar, Original Netflix), o realizador interessa-se sobretudo pelas peripécias do destino, que prega peças àqueles que não se curvam à sua inevitabilidade. Eva, por exemplo, é daquelas pessoas que costumam pensar mais de uma vez antes de tomar uma decisão, atitude fatal em histórias, como essa, que se apoiam na casualidade. Tal qual uma oportunidade não costuma avisar antes de bater à nossa porta, é preciso reconhecê-la imediatamente para poder deixá-la entrar. Em outras palavras, a protagonista não quer apenas a felicidade em estado puro, ela quer que o destino a espere se dar conta disso.
O resultado, mesmo envolvente e tecnicamente esmerado (principalmente o trabalho de câmera) soa como se Cesc Gay quisesse colocar seu chapéu onde não alcança, manuseando temas complexos com ferramentas simplórias, como ao limitar sua narrativa a um modelo cômico dependente de coadjuvantes em duplo expediente, ora cumprindo funções acessórias ao texto, ora exercendo o puro alívio cômico. Se Truman nos ganhava pela simplicidade (além, claro, pela presença divina de Ricardo Darín), Minha Amiga Eva quase nos perde por complicar uma trama descomplicada por natureza.
NOTA 6,5
Licença Paternidade
(Paternal Leave, Alemanha/Itália)

No centro de Paternal Leave, filme rodado na Itália pela estreante em longas Alissa Jung, mas quase todo falado em inglês, está a relação entre um pai e uma filha que nunca se conheceram. No entanto é a amizade inesperada que floresce entre a menina e um adolescente local que acaba trazendo o calor humano que emana durante toda a projeção como um espectro amigável.
Dois jovens machucados por uma figura paterna. Uma que ele gostaria de não ter, e outra que ela busca entender porque nunca teve. É com o pai que ela busca fazer uma entrevista, mas as melhores respostas ela obtém de Edoardo (Arturo Gabbriellini, da extraordinária minissérie We Are Who We Are), a quem sequer precisou perguntar. De forma menos sutil, desenvolve-se uma conexão entre duas figuras errantes em busca de acertar as contas. Com o passado, com o futuro, consigo mesmo.
Luca Marinelli (The Old Guard) astro do Cinema italiano, é talhado tanto para esse tipo de papel quanto para muitos outros. Como poucos, ele evoca melancolia apenas com o olhar, o que já foi essencial em papéis atormentados e agora surge como elemento suficiente para estabelecer Paolo como um homem que busca construir um futuro sobre a própria ruína. Mas Leona (Juli Grabenhenrich, pela primeira vez no Cinema) está lá justamente para se certificar de que a sujeira não será varrida para debaixo do tapete.
A fricção entre os personagens gera tração suficiente para manter a narrativa em movimento, mas, reitero, a combustão parte mesmo é do companheirismo sincero e culposo de duas almas perdidas na própria busca por identidade. Nesse aspecto, a tragédia é espelhada por agressões físicas e verbais, esta última ganhando uma camada extra graças à barreira da linguagem. O mesmo idioma que separa Leo de Paolo na hora do expurgo decisivo, quando permitem que o coração finalmente se esvazie de tanta culpa e ressentimento, é o que une os amigos, até então fluentes apenas no dialeto da incompreensão da vida.
Como ervas daninhas, rusgas frívolas também brotam da trama poética e triste costurada por Jung, como o ciúme e o revanchismo, consequentes da ânsia juvenil pelo confronto. No meio-termo o pano de fundo cinzento e gélido de Emilia-Romagna, região do norte italiano que serve de lar para flamingos, aves tão importantes para ilustrar o discurso articulado pela realizadora sobre paternidade, claro, mas também no que diz respeito à sobrevivência.
Estruturado em vaivéns narrativos que mimetizam as ondas do mar, outro ponto de convergência natimorto entre pai e filha, Licença Paternidade não busca respostas definitivas ou sequer epifanias profundas, prosperando na melancolia poética (ou poesia melancólica) da incerteza, a única garantia que temos enquanto mestres do nosso próprio destino.
NOTA 7








