Festival do Rio 2025 | Dia 8
- Guilherme Cândido

- 10 de out.
- 6 min de leitura
A Própria Carne
(Idem, Brasil)

Num momento cinematográfico em que o Horror tende a ser mais sugerido do que explícito, com realizadores mais preocupados em codificar discursos do que engendrar arrepios, A Própria Carne representa um bem-vindo retrocesso, lembrando uma manufatura artesanal de propósitos simplificados, mas nunca simplórios. Em tempos mais simples, não era preciso explicar o significado por trás de um espectro, elucubrações sobre traumas, culpa e maldade. O que víamos era exatamente o que víamos e ponto, justificando-se através do propósito de causar desconforto.
Mais acostumado a trabalhar com histórias leves após despontar no coletivo cômico Porta dos Fundos, o cineasta Ian SBF propõe um exercício de gênero exibindo pleno domínio dos signos do terror. A atmosfera pesada, ressaltada não só pela trilha onipresente de Bruno Gouveia, como também pela fotografia sombria de Vinicius Brum, é o destaque de uma produção que busca escancarar o que normalmente é internalizado.
Luiz Carlos Persy, ícone da dublagem, vive um anfitrião de aura sinistra nesse típico horror de câmara. A voz familiar agora ganha o rosto expressivo de um intérprete eficaz em tornar menos estapafúrdias os esforços de um homem supostamente maligno. Persy evoca desespero, mas também diligência, pena que os roteiristas Deive Pazos e Alexandre Ottoni, dupla mais conhecida pela marca Jovem Nerd, não se mostra tão interessada em explorar seus tormentos.
Ambientada no auge da Guerra do Paraguai, a história acompanha um trio de soldados desertores em busca de um refúgio para tratar dos graves ferimentos de um deles, finalmente deparando-se com o arauto do caos supracitado.
George Sauma, o Tatalo da sitcom global Toma Lá, Dá Cá (2005-2007), é quem chama mais atenção por deixar para trás a verve humorística para retratar de forma visceral (e competente, diga-se de passagem) a agonia. Pierri Baitelli (da série Magnífica 70), ganhando de presente a oportunidade de explorar mais seus dotes dramáticos do que a pinta de galã, se sai bem dando peso aos diálogos talvez informais demais do roteiro. E se Jade Mascarenhas (O Homem de Ouro, também em exibição no Festival do Rio 2025) desperta uma curiosidade jamais saciada, é Jorge Guerreiro (do folhetim Justiça) quem acaba ocupando o centro da narrativa ao cumprir duplo expediente como o típico sobrevivente do gênero e também como pivô de uma discussão envolvendo racismo.
Aliás, o roteiro engatilha tantas pautas que fica difícil disparar todas no alvo. Pazos e Ottoni evidentemente têm muito a dizer, mas faltou um recorte mais preciso, menos disperso. Há muitos filmes dentro do filme, uns mais dramáticos e abstratos, outros mais físicos e proponentes. Todos interessantes, mas que frustram pela ausência de desenvolvimento. Potencial há de sobra, uma vez que a estrutura é construída sem intercorrências.
Estreantes nas telonas após o sucesso nas telas do computador, o Jovem Nerd cumpriu a missão mais difícil: fazer Cinema de gênero no Brasil.
NOTA 5,5
Morra, Amor
(Die My Love, EUA)

Que Jennifer Lawrence nasceu para interpretar personagens mentalmente desajustadas, todos sabemos, principalmente depois de vê-la em O Lado Bom da Vida (2015), pelo qual merecidamente conquistou o Oscar de Melhor Atriz. Mas o que ela faz em Morra, Amor, provavelmente surpreenderá até aqueles que já esperam por loucuras.
Sob a batuta de Lynne Ramsay, diretora do assombroso Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), Lawrence interpreta Grace, mulher que acaba de ter um bebê e se muda com o marido, Jackson (Robert Pattinson), para um típico casarão interiorano. O lugar, coincidentemente onde o rapaz nasceu e foi criado, guarda segredos sombrios, como o fato de o tio dele ter cometido suicídio justamente num dos aposentos do lar onde o casal planeja ver o filho crescer.
Entretanto, Morra, Amor, é menos sobre a relação marido e mulher e mais sobre Grace, que vê seu estado psicológico deteriorar à medida que sucumbe à depressão pós-parto.
Com tintas psicossexuais, o filme é o veículo perfeito para Lynne Ramsay potencializar o trabalho performático de Lawrence, funcionando quase como uma continuação de Mãe!, que a atriz protagonizou ao lado de Javier Bardem em 2017. Se no longa de Darren Aronofsky, o mundo enlouquecia, aqui é Grace quem acaba surtando. ou melhor, o mundo de Grace.
E Jennifer Lawrence não mede esforços para retratar a instabilidade crescente da mulher, tornando-se uma catástrofe ambulante do tipo que atrai nossa curiosidade mórbida. É mérito total da intérprete que o público sinta empatia e não revolta perante as ações extremas de Grace. Nos compadecemos da situação graças aos anseios frustrados da personagem, transmitidos por Lawrence através de uma expressividade que está não só no olhar, mas também na linguagem corporal.
À medida que suas atitudes se tornam cada vez mais difíceis de prever, o roteiro também assinado por Ramsay ao lado de Enda Walsh (Pequenas Coisas Como Essas) e Alice Birch (Lady Macbeth), explora todos os possíveis gatilhos para seu surto, criando situações em que a pressão da maternidade torna-se quase palpável, como na cena em que Grace desiste de fazer um papel socialmente aceitável diante da funcionária de uma loja de conveniência que insiste em puxar conversa sobre o bebê. Aliás, a repetição de momentos como esse não se tornar cansativo é uma proeza justamente por colocar o espectador na pele de Grace.
Nesse ponto, o design de som é fundamental, adotando a perspectiva da moça para nos fazer sentir sua ansiedade crescente. Seja pelos ruídos de uma mosca ou pelos latidos incessantes do cachorro adotado por Jackson, tudo parece feito sob medida para perturbar sua paz.
Falando em Jackson, como é bom ver a carreira pós-Crepúsculo de Robert Pattinson ser definida por papéis cada vez mais diferentes entre si. Aqui, seu personagem é diretamente responsável pela derrocada de Grace, sendo incapaz de dar o apoio que a esposa precisa. Desculpando-se frequentemente sem jamais cumprir as promessas de mudança, Jackson é um homem comum por fora e patético por dentro. Novamente, é seu intérprete que merece elogios por impedi-lo de soar repulsivo.
Um drama comovente disfarçado de thriller psicossexual, Morra, Amor é mais uma obra contundente na carreira admirável de Lynne Ramsey.
NOTA 7,5
Yes
(Ken, Israel)

Quando pensamos na situação do Oriente Médio como material para uma produção cinematográfica, especialmente os massacres em Gaza perpetrados pelo Estado de Israel, uns imaginarão um documentário-denúncia, outros um drama pungente, mas todos terão em mente um projeto que trata com seriedade absoluta os acontecimentos desencadeados em 7 de outubro. Isso significa que Yes passa muito longe de se encaixar no que entenderíamos ser uma abordagem sóbria de um tópico tão sensível. Pois “sóbria” é um adjetivo que definitivamente não se encaixa à filmografia do cineasta israelense Nadav Lapid.
Seu mais novo filme é ainda mais anárquico do que Sinônimos, que o alçou à fama ao levar o Leão de Ouro na Berlinale de 2019.
A trama acompanha a trajetória do músico Y. (vivido pelo estreante Ariel Bronz), desde seu relacionamento com a dançarina Yasmine (Efrat Dor, de O Zoológico de Varsóvia) com tem quem um bebê, até a encomenda de um novo hino nacional para Israel.
Dividida em capítulos, a narrativa começa com o pé na porta ao mostrar de perto como o casal central ganha a vida, isto é, animando festas dadas por membros da alta sociedade, o que inclui danças extravagantes ao pé e até dentro da piscina. Tudo para agradar quem pode pagar.
Mas Y. também tem suas próprias questões com o chamado Estado-Maior, especificamente um grito entalado na garganta sobre a vergonha que sente do próprio país na relação com a Palestina, lugar que ele acaba visitando para se inspirar, mas acaba passando por um processo no qual exorciza seus demônios internos.
Tudo isso, claro, captado pela câmera maníaca e intrusiva de Lapid, uma espécie de organismo que vive ao lado dos personagens, tanto que durante uma sequência tórrida, Y. e Yasmine chegam a esbarrar no equipamento. Da mesma forma, um personagem secundário fala diretamente em nossa direção, como se através das lentes fizéssemos parte daquela conversa.
Lapid é feliz extrapolando os limites do próprio roteiro, arbitrariamente introduzindo elementos surrealistas, quebrando a quarta parede, exibindo trechos de gravações reais e interrompendo o desenvolvimento da trama para apresentar interlúdios. Assim como aconteceu em seus filmes anteriores, a impressão é a de somente ele seria capaz de dirigir o que vemos na tela, na potência do que é mostrado.
Inimigo da sutileza e do politicamente correto, ele constrói uma sátira singular, do tipo que respeita a seriedade da pauta principal, mesmo adotando uma estratégia quase ofensiva para embasar o seu discurso. O que seria contraditório e até contraproducente em mãos menos seguras, com Lapid se torna uma obra peculiar: vibrante, indigesta, irresistível, estranha e esporadicamente repulsiva.
Sentimentos conflitantes que, no final das contas, mostram que o objetivo de Lapid, um artista provocador por natureza, foi alcançado com extremo sucesso.
NOTA 7,5








