Festival do Rio 2026 | Dia 1

Contos Paralelos
(Histoires Parallèles, França)
A vida imita a Arte ou a Arte imita a vida? A eterna discussão ganha proporções catastróficas no novo filme em francês do cineasta iraniano Asghar Farhadi. Depois de levar o Oscar duas vezes representando o próprio país, Farhadi arriscou no suspense europeu com o bom Todos Já Sabem, reunindo um elenco repleto de talentos latinos, como Javier Bardem Penélope Cruz e Ricardo Darín. E agora lança seu segundo projeto totalmente francês, capitaneado por mais uma constelação. Isabelle Huppert é Sylvie, uma escritora reclusa que vive de espionar os vizinhos por um telescópio cuidadosamente posicionado na janela. É da vizinhança desavisada que ela alimenta páginas e mais páginas datilografadasem sua máquina de escrever. Num belo dia, a sobrinha dela aparece com Adam (Adam Bessa), o ex-presidiário que se torna o mais novo encarregado de levar ordem ao caos doméstico da autora. E quando ela resolve descartar o material recém-concluído, é justamente o novo rapaz quem não hesita em tomar para si. O que ele não esperava era desenvolver uma obsessão pelas pessoas que serviram de inspiração, fazendo com que as extrapolações da Arte influenciem perigosamente o cotidiano banalizado daquele grupo. Mal sabem eles que o apartamento da frente passa longe de ambientar fortes emoções, apenas abrigando funcionários de uma pequena empresa de efeitos sonoros.

Co-escrito por Farhadi em parceria com o irmão, Saeed, o roteiro não é sútil ao estabelecer as conexões entre os personagens. A tal sobrinha tem a carteira roubada em pleno metrô e é um bom samaritano quem se oferece para recuperá-la. Quem? Sim, Adam. Sylvie tenta manter o anonimato, mas vez por outra esbarra com Nico (Vincent Cassel), o mixador de som da janela do prédio da frente. Fora o metrô parisiense, palco das coincidências mais explosivas da narrativa.

Os irmãos Farhadi acabam perdendo muito tempo encantados com a trama rocambolesca, cuja prolixidade faz a projeção se esticar até cerca de duas horas e vinte minutos. Demora-se muito para virar a chave do melodrama para o suspense e a trama só pega fogo de fato quando a imaginação fértil de Sylvie, apropriada por Adam, passa a influenciar na dinâmica antes pacata dos vizinhos. Nem a participação especial de Catherine Deneuve, responsável por apontar a falta de prestígio de Sylvie junto ao mercado literário, salva o filme de seus próprios rodeios.

Huppert, que constrói a mulher com instintos dignos de uma raposa, mantém a trama nos trilhos, adicionando ambiguidades morais que são absorvidos de forma orgânica pelo texto. Quando ela perde espaço para Adam, o filme só não despenca pois finalmente entra na fase mais aguda do enredo, que bebe de fontes como Janela Indiscreta e o Decálogo 6 de Krzysztof Kieślowski, que inclusive é formalmente creditado como inspiração.

Completam o elenco Vincent Cassel, Virginie Efira e Pierre Niney, numa união de novos e velhos talentos forjados no Cinema Francês. Cassel, cuja retrospecto o apontaria como principal candidato a vilão por aqui, surpreende ao deixar esse posto a Niney, o mocinho favorito da atualidade (fez O Conde de Monte Cristo há dois anos). Mas é Efira quem tem mais espaço para brilhar na segunda metade. A atriz vive um ano fantástico, já tendo sido premiada em Cannes por All of Sudden, novo filme de Ryūsuke Hamaguchi.
Contos Paralelos, que também competiu na croisette, é prejudicado por uma trama prolixa, mas conta com talentos suficientes atrás e a frente das câmeras para se manter à altura do prestígio que vem angariando nos festivais pelo mundo, incluindo este do Rio de Janeiro.
NOTA 7,5
Gigantes em Chamas
(Yak Mai, Tailândia)
O finado OdisseiaCast não oferecia à toa o chamado “Prêmio Apichatpong Weerasethakul de Filme Mala do Ano”. Com todo o respeito aos fãs do cineasta vencedor da Palma de Ouro por Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas em 2010, é claro. Dito isso, a produção tailandesa Gigantes em Chamas é fluentemente versado na linguagem de Weerasethakul, investindo em tomadas excessivamente longas e exibindo uma direção auto indulgente que faz com que a experiência de assistí-lo se equipare à de uma prova de resistência.

No filme escrito e dirigido por Phuttiphong Aroonpheng, uma aldeia localizada nas montanhas da Tailândia é infectada por uma névoa misteriosa que provoca graves lesões na pele e fazem o enfermo sentir como se estivesse pegando fogo. Para conter o surto, fiscais florestais resolvem incendiar vilarejos inteiros, convenientemente abrindo caminho para um parque nacional enquanto desabriga a comunidade. Ao saber que um homem solitário da região foi capturado, uma migrante que trabalha como babá em Bangkok abandona a vida na cidade e leva a filha para buscar o marido desaparecido.

Yak Mai, no original, chega ao Festival do Rio após estrear na mostra Orizzonti do Festival de Veneza e aproveita o folclore do país asiático para contar uma história com forte cunho ambientalista. Fazendo uso limitado das belas locações, a produção adota uma abordagem realista desde o início, mas sofre com o efeito colateral de uma montagem burocrática. Além disso, as quase duas horas de projeção soam inchadissimas graças à incapacidade de Aroonpheng discernir o que deve ou não cortar. Resultando numa experiência em que uma espiada no relógio a cada meia hora significa menos de dez minutos passados.

Como se não bastasse a natureza convencional do script, o realizador ainda aposta numa reviravolta pra lá de previsível, daquelas que telegrafamos assim que a primeira pista é lançada. Exibindo um ponto de ruptura agressivo em relação aos dois primeiros atos, o roteiro afasta a sobriedade morosa para abraçar um onirismo repetitivo que só chama atenção pelos planos criados pelo diretor de fotografia Emo Weemhoff e pelos figurinos responsáveis por dar vida a figuras da mitologia tailandesa. Já a trilha sonora é só mais um sintoma da irregularidade da narrativa, apostando em quatro abordagens diferentes (sons metálicos, cordas suaves, piano grave e o que parece ser proveniente de um xilofone).
Ainda é o primeiro dia do Festival do Rio 2026, mas já sinto como se tivesse passado pelo meu batismo de sangue (ou fogo).
NOTA 3,5
The Man I Love
(Idem, Estados Unidos)
Às vezes acho difícil de acreditar que Rami Malek possa ter admiradores. Talvez os desavisados espectadores de Mr. Robot ou algum fã do Queen menos cinéfilo. Mais indigesto ainda é lembrar que Malek é um "vencedor do Oscar", o que o credenciou a receber inúmeras oportunidades de carreira, a maior delas sendo o vilão principal de 007 - Sem Tempo Para Morrer (2021). O filme derradeiro de Daniel Craig como James Bond era para ser especial e memorável, mas os irmãos Broccoli (detentores dos direitos da franquia antes de cederem à Amazon MGM), seguindo a obsessão de levarem vencedores do Oscar para antagonizarem o espião mais famoso do mundo, caíram no conto do vigário. Rami Malek conseguiu a proeza de construir um dos vilões mais insossos de toda a vasta história de Bond no Cinema, mesmo atendendo pelo nome "Lyutsifer" Safin. Não, Malek nunca me enganou. E se ele não conseguiu comprometer de fato o último 007, dessa vez ele não apenas destrói, mas oblitera impiedosamente o novo filme de Ira Sachs. Que pode ter tropeçado recentemente com Passagens (2023) e Frankie (2019), mas seu talento já ficou claro no ótimo O Amor é Estranho (2014) e no bacana Melhores Amigos (2016). The Man I Love, exibido em competição no Festival de Cannes, tinha tudo para ser o retorno dele à boa forma, mas tinha um Rami Malek no meio do caminho.

Ambientado na década de 80, auge da epidemia de AIDS e sob o conservadorismo da Era Reagan, o filme acompanha Jimmy George (vivido pelo dito-cujo), um ator admirado no cenário underground de Nova York e muito querido por qualquer um que troque meia dúzia de palavras com ele. Em contrapartida, George é HIV positivo, tendo saído recentemente do hospital após passar três semanas internado. Os tempos sombrios parecem ter ficado para trás, pois assim que chega no apartamento que divide com o parceiro, Dennis (Tom Sturridge, o Sandman da Netflix), todos os vizinhos e amigos fazem questão de apontar a fase vivaz do sujeito. Um deles é o jovem Vincent (Luther Ford), recém-chegado no prédio e que imediatamente se interessa pelo ator, atraindo a atenção de Dennis, cuja preocupação é com o estado de saúde do companheiro. Nessa época, qualquer alteração fisiológica representava um risco de vida para os portadores de HIV.

Como é fácil de imaginar, Jimmy é o aquele tipo de personagem maior do que a vida. Expansivo, sorridente, alegre, carismático e tremendamente sedutor. Rami Malek pode gesticular à vontade, distribuir sorrisos e saltitar de felicidade, mas ainda possuirá o carisma de um pé de alface e o sex appeal de uma cômoda de seis gavetas. Se Malek parece possuído pelo Demônio da Canastrice, a culpa deve ser dividida com Ira Sachs, incapaz de domar o monstro. Pior do que vê-lo atuar é aturá-lo cantando, pois alguém da produção acreditou que essa era a chance de Rami Malek buscar o segundo Oscar. Ou algum agente sacana dele quis pregar uma peça.

A efervescência do lado gay novaiorquino é retratada com energia por Sachs, que inclusive constrói momentos verdadeiramente tocantes, como a reunião entre amigos que termina com cada um escolhendo uma música para cantar. Nesse ponto, destaque para participação especial de Rebecca Hall ao lado de Ebon Moss-Bachrach, que por sua vez arranca fortes gargalhadas mais tarde ao tirar o filho de perto de Jimmy. Sachs é bom o bastante para tornar o calor humano palpável e até os conflitos novelescos protagonizados por Sturridge são encenados com alguma dignidade. Mas a produção, ao confiar todo o peso da narrativa sobre os ombros de Rami Malek, vê tudo desmoronar copiosamente. E a dignidade vai pelos ares.

É difícil dizer se Sachs realmente acreditou no potencial de Malek ou se foi mão de obra contratada para dirigir um veículo feito para tentar iludir mais uma vez a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. O que é fácil de constatar é que Rami Malek precisa urgentemente repensar sua carreira. Ou que alguém faça isso por ele. Por favor.
NOTA 4
Um Homem do Seu Tempo
(Notre Salut, Bélgica)
Depois de passar por Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro e saiu com o prêmio de Melhor Roteiro, Um Homem do Seu Tempo desembarca no Festival do Rio com salas inicialmente lotadas, embora o que vi na sessão em que estava foi um esvaziamento gradual e perene. A produção francesa se desenvolve direta, mas lentamente por pesados 155 minutos, nos quais o verdadeiro e talvez único inquestionável a frente das câmeras é o protagonista Swann Arlaud, mais facilmente lembrado como o advogado da personagem de Sandra Hüller em Anatomia de Uma Queda. Já atrás das câmeras chama atenção a coragem de Emmanuel Marre ao levar às telas um projeto baseado nas cartas trocadas por seus bisavós.

A trama é ambientada em plena década de 40, quando a França era ocupada pelos nazistas e via o país se dividir enquanto descobria o que fazer com os judeus. No meio do caos político, estava Henri Marre (Arlaud), sujeito de boa aparência e lábia erudita do tipo que domina discussões em festas e eventos sofisticados. Com tamanha desenvoltura e tantas ideias (ele chegou a escrever um livro), como pode Henri estar desempregado?

Essa é uma dúvida sanada aos poucos por Swann Arlaud, que interpreta o protagonista com uma mistura absolutamente perfeita de sociopatia com fragilidade. Dessa forma, quando o vemos ser rejeitado e refutado tantas vezes, ao invés de defender o próprio ego e correr o risco de provocar nossa antipatia, ele projeta uma vulnerabilidade quase submissa, levando o espectador (e seus pares em cena) a sentir nada além de pena. A esposa de Henri dá bons spoilers sobre quem é aquele homem engomado e cheio de pose, com cartas "sincericidas" (em relação ao marido). Ela simplesmente o massacra impiedosamente e dá todos os subterfúgios ao espectador para entender os motivos que levaram a família à bancarrota.

Marre, por outro lado, faz tudo menos gravar Um Homem do Seu Tempo como um filme de época convencional. Usando apenas uma câmera e condicionando a imagem à trepidação da handycam e a zooms pontuais dignos de um documentário, ele foge de qualquer convenção de linguística para construir seu próprio retrato. Como ao manter o quadro no rosto de Henri durante uma visita a Paris (evitar a abertura da imagem economiza em reconstituição histórica) ou ao traçar paralelos curiosos com Sofia Coppola, por exemplo, ao optar por canções incidentais anacrônicas. Uma delas, inclusive, embala uma sequência bizarra envolvendo uma dança coreografada de improviso, arrancando gargalhadas inesperadas.

Não é o único alívio cômico, mas a leveza das doses homeopáticas de humor é insuficiente perante a densidade das situações envolvidas e que escalam para um final que se estabelece como a antítese de tudo idealizado por Henri. Na verdade ele passa por tantas humilhações que a única justificativa plausível para continuar perseverando é o fato de não acreditar em uma palavra sequer do que diz.

No fim, Henri pode ter sido apenas um homem tentando sobreviver numa época tão difícil que o fato de quase sempre ter escolhido o lado errado da história chega bem perto de ganhar nossa compreensão.
NOTA 7,5









