Festival do Rio 2026 | Dia 5

As Crianças Estão Bem
(Les Enfants Vont Bien, França)

Confesso conhecer pouco do trabalho de Camille Cottin, atriz francesa que vi pela primeira vez em Stillwatter - Em Busca da Verdade, subestimado thriller norte-americano gravado na França com Matt Damon. Depois disso, uns dois ou três filmes hollywoodianos incluindo o bom A Noite das Bruxas. Apesar de ser um apaixonado pelo Cinema Francês e me considerar um espectador assíduo, sequer me lembro de tê-la ouvido em sua língua materna. Para aqueles como eu, As Crianças Vão Bem é uma contundente vitrine das habilidades da europeia de 48 anos.

Na trama, ela interpreta Jeanne, perita de uma corretora de seguros que não demonstra a menor vontade de ser mãe, tanto que foi justamente esse o motivo de ter acabado um relacionamento de 12 anos com Nicole (a também cineasta canadense Monia Chokri, em performance extremamente calorosa). Solitária por natureza e afastada da família, ela recebe repentinamente uma visita de Suzanne (Juliette Armanet), irmã com quem não falava há tempos. A grata surpresa esconde intenções escusas, pois tão logo a moça chega, rapidamente se vai, deixando dois filhos pequenos, uma mala com itens essenciais das crianças e um bilhete de despedida. Como alguém que também não planeja ter filhos, nem posso imaginar como pode ser aterrorizante acordar na situação de Jeanne. A partir daí, o espectador divide com a protagonista a agonia pela incerteza acerca de Suzanne. Ela vai ou não voltar? O suspense aos poucos vira um drama difícil de resistir.

A atuação de Cottin é segura e reserva uma sinceridade ora explosiva, ora reprimida, do tipo que é expressa no olhar, mas não em palavras. Mas são justamente os intérpretes mirins que acabam por tomar o filme de assalto. Manoã Varvat e Nina Birman chegam a protagonizar o momento mais marcante de toda a narrativa, quando nos partem o coração ao atenderem uma ligação silenciosa da mãe. Poucas vezes vi duas crianças com tanta química em cena e dotadas de tamanha intensidade orgânica.

Parte dos créditos devemos ao jovem diretor Nathan Ambrosioni, que aos 25 anos desenvolve com paciência digna de um veterano uma parábola adulta sobre a forma como encaramos os desafios impostos pela vida. Às vezes, por mais que planejemos, somos surpreendidos com peripécias do destino. Podemos lutar contra elas ou aprender com elas. Jeanna opta pelo primeiro, mas não demora a assimilar o segundo, aproveitando para se conhecer melhor. E Ambrosioni, que acumula a função de roteirista, impõe uma verdadeira via crucis à mulher, que no processo se descobre mais forte e preparada do que imagina.

É o tipo de filme naturalista que o Cinema Europeu se especializou em produzir e na França é uma espécie de queridinho do público. Se adequaria mais a um Festival Varilux de Cinema Francês do que ao Festival do Rio, que recentemente teve obras mais arrojadas como Titane e Alpha (ambas de Julia Ducournau), mas tampouco parece o tipo de sessão que se esvaziará. Quem resolver se aventurar, vai encontrar uma história envolvente e muito bem encenada. Nada superlativo, mas o bastante para deixar bem alimentado o cinéfilo carioca.
NOTA 6,5
Se Eu Partir, Vão Sentir Minha Falta?
(If I Go, Will They Miss Me, EUA)

Exibido no Festival de Sundance, onde foi indicado ao prêmio NEXT, Se Eu Partir, Vão Sentir Minha Falta? é uma versão expandida do curta-metragem homônimo escrito e dirigido por Walter Thompson-Hernandez e narra a luta diária de uma família para sobreviver num bairro de classe trabalhadora em Los Angeles. Partindo de uma premissa que considera um rompante de violência o evento catalisador de uma mudança no curso da vida de Anthony, ou Big Ant para os mais chegados (J. Alphonse Nicholson, o pai de John Stewart na série Lanternas), o filme não demora muito a deixar claro que é a perspectiva do filho dele, Lil Ant (Bodhi Dell), a ser adotada pela narrativa.

O pequeno Anthony é um pré adolescente sonhador, do tipo que vive olhando para cima, se imaginando dentro dos aviões que rasgam o céu da metrópole da Costa Oeste dos Estados Unidos. A obsessão com aeronaves é evidente não apenas pela decoração de seu quarto, mas também através dos desenhos que faz e denunciam um talento incomum para a Arte. Ele vive com o pai, um casal de irmãos e a mãe Lozita (Danielle Brooks, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo remake de A Cor Púrpura), força motriz da família e âncora emocional da história.

Thompson-Hernández é muito cuidadoso ao desenvolvê-la com paciência, adotando uma cadência lenta que favorece o tom poético do texto. Em meio a muitas metáforas e algumas sequências surreais, prevalece um choque entre fantasia e realidade, com a primeira servindo para amenizar a dureza da segunda, que inevitavelmente vai vencer a batalha em algum momento, como Lil Ant descobre da pior maneira, num momento de desilusão com o pai, ainda atormentado pelos rumos que a vida tomou. Pois o filme também é sobre trauma, ressentimento e a forma como a culpa pode definir o resto de nossa existência se permitirmos.

A trilha sonora de Malcolm Parson (do igualmente sensível, mas formulaico Palmer) sublinha a sensibilidade do script e favorece o clima de calmaria esporadicamente atacado pelos lembretes de como o mundo real pode e deve ser cruel. Sem apelar para acordes escalafobéticos ou guiar as emoções do espectador, o estilo de Parson caí como uma luva para a abordagem lírica e livre de Thompson-Hernández.

Dentre as várias atuações dignas de nota do elenco, Nicholson aproveita o tempo de tela que não teve na série da HBO, e mostra que tem carisma e talento o bastante para merecer um papel de destaque futuramente, ao passo que Brooks não dá a menor chance de ser superada pelos colegas. Ela é a alma do filme e projeta no próprio filme a importância que tem dentro da família, seja pela moralidade ou mesmo por conta do calor humano. Impossível não desejar um abraço de Lozita ao final do filme.

Falando nisso, os finais acumulados atrapalham a conclusão já atabalhoada do roteiro, que impedem o filme de amarrar pontas com a sutileza que imperou nos noventa minutos anteriores, mas não impedem Se Eu Partir, Vão Sentir Minha Falta? se posicionar como um corajoso, singelo e belíssimo exercício poético de Walter Thompson-Hernández, um cineasta cujos próximos passos merecem ser acompanhados com atenção.
NOTA 8
Revolta de Sangue/O Rebelde/A Revolta
(The Uprising, Inglaterra)

Para quem é mais conhecido por filmes de ação ambientados nos tempos atuais, tais como a franquia de sucesso Jason Bourne, Paul Greengrass nos surpreende novamente. “Novamente”, pois o diretor britânico já havia feito um filme de época seis anos atrás para a Netflix, o bom Notícias do Mundo, com Tom Hanks. Dessa vez, ela retrocede ainda mais no tempo, especificamente 1831, quando a população da Inglaterra resolveu se voltar contra os impostos abusivos praticados pelo reino do Príncipe João (substituindo o nobre Ricardo Coração de Leão, que estava nas Cruzadas). Quem lidera esse levante conhecido como A Revolta dos Camponeses é um homem simples que só aceita ser chamado de lavrador.

Essa premissa dá boas dicas, mas nenhuma é tão boa quanto aquela introduzida às pressas pelo departamento de marketing. The Uprising, no original, recebeu o nada discreto subtítulo “Rise of Robin Hood”. Bom, pelo menos o pessoal de lá se decidiu, pois o das distribuidoras brasileiras já informaram três títulos diferentes: A Rebelião, O Rebelde e, o mais recente, Revolta de Sangue. Se vão demonstrar a mesma insegurança no público, ainda precisaremos aguardar para descobrir, só não sabemos até quando. A produção está sendo exibida no Festival do Rio, mas ainda não tem uma data oficial para estrear no circuito brasileiro.

Andrew Garfield é quem vive o protagonista e adota o mesmo visual desgrenhado de seu personagem em Silêncio, soberba produção também de época dirigida por Martin Scorsese. O ator duas vezes indicado ao Oscar projeta gravidade nas atitudes do Lavrador, mas o olhar de coitado, condizente com o período de luto enfrentado pelo personagem, atrapalha a transição para a fase mais enérgica da história. Lhe cai melhor o papel de homem comum do que o de líder enfurecido capaz de degolar funcionários do governo.

A violência, um tanto quanto incomum na filmografia de Paul Greengrass, é adequadamente alçada à brutalidade, evitando um erro comum desse tipo de produção, que omite a sanguinolência da época para tentar se adequar a uma classificação indicativa mais abrangente em termos de público. A estética suja, com personagens maltrapilhos e lama por toda parte é igualmente bem-vinda, mas o diretor de fotografia Pål Ulvik Rokseth (do fraquíssimo A Última Casa) exagera na escuridão da imagem, tornando várias sequências incompreensíveis.

Greengrass, conhecido pelo estilo à base da câmera tremida, nos poupa de um resultado ainda caótico e se reveza com Rokseth na tarefa de atrapalhar nosso entendimento do que está acontecendo. A ideia de manter a câmera próxima dos personagens em determinados momentos ajuda na imersão e amplifica a intensidade, mas as diversas batalhas que acontecem pediam por tomadas mais abertas ou, no mínimo, menos hiperativas.

A provável exigência do estúdio em mastigar o final para o espectador leva Greengrass a incluir uma sequência de ação próxima dos créditos finais que força uma catarse fora de esquadro, diminuindo a credibilidade de uma história que até então merecia aplausos por ilustrar o poder do povo. E qualquer produção que incentive a população a se rebelar em prol dos próprios direitos, já é digna de nota.
NOTA 6



