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Festival do Rio 2026 | Dia 7

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 4 horas
10 min de leitura

A Gradiva

(La Gradiva, França)

Um grupo de estudantes franceses do último ano do ensino médio embarcam de trem rumo à Nápoles, numa daquelas viagens de campo que costumam deixar as turmas em polvorosa. Sob a rédea curta da professora Mercier, os adolescentes passam por lugares históricos incluindo as ruínas de Pompeia. Entre aulas ao ar livre, visitas a museus e a comunhão de um bate-papo entre as camas dos dormitórios compartilhados, nada parece acontecer enquanto tudo acontece ao mesmo tempo. Poucos autores captam com tanta naturalidade e verossimilhança esse período tão turbulento pelo qual todos nós passamos. Marine Atlan faz de sua câmera uma mera observadora, como se nos desse o privilégio de participar de vidas acontecendo bem diante dos nossos olhos.

São quase duas horas e vinte minutos de projeção que passam voando, não “apesar” das escolhas de Atlan, mas sim por conta justamente delas. A paciência com que a trama e as subtramas são desenvolvidas, dando tempo de tela para cada aluno se tornar uma figura multidimensional, é espelhada pelos planos longos que privilegiam a naturalidade dos diálogos e momentos de pura contemplação da Arte, seja por meio da natureza, da arquitetura ou das próprias esculturas que canalizam a história trágica das vítimas do Vesúvio.

Assim como surpreende o fato de A Gradiva ser o primeiro longa-metragem de Atlan, diretora de fotografia com larga experiência no Cinema Independente, o elenco é recheado de debutantes talentosíssimos. Não estamos lidando com aspirantes a Marlon Brando, mas a intérpretes que são fascinantes justamente pela imperfeição de suas composições, o que traz ainda mais honestidade a papeis de reconhecimento imediato. É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tantas camadas sendo apresentadas, que imaginamos ser o tipo de trabalho para profissionais veteranos, mas estes jovens prodígios dissecam seus personagens sem jamais deixar de projetar fascínio.

Vejamos, por exemplo, o caso de Toni (Colas Quignard), o típico garoto-problema que atrai todos os holofotes da classe para si. No entanto, ele está nessa viagem não apenas para cumprir o cronograma educacional, mas também para se conectar às raízes de sua família materna. E o fato de sequer falar italiano ou se interessar pela cultura local, dizem muito sobre sua desconexão para com o mundo. Além disso, Toni já inicia o filme bisbilhotando a cabine do melhor amigo James (Mitia Capellier-Audat), que aproveita o longo percurso para fazer jus à sua fama de mulherengo. Por outro lado, James passa muito longe de representar o estereótipo do galã mulherengo. É simpático, mas sempre deixa escapar um sorriso ambíguo. Ótimo aluno, embora não pareça se esforçar. E apesar da fama, seus interesses sexuais se resumem à pura exploração. Nem a amizade entre os dois é simples. Afinal, Toni é gay assumido e claramente sente algo por James, que mesmo aparentando fluidez, jamais se conectam dessa maneira.

As meninas também são meticulosamente trabalhadas pelo roteiro co-escrito por Marine Atlan em parceria com Anne Brouillet. Mas para não dar spoilers, deixarei para comentar apenas sobre a professora Mercier (Antonia Brusi) que tem espaço de sobra para se revelar uma profissional que dribla o cansaço dos vinte anos de sala de aula para manter os alunos na linha. Também não é por acaso que o momento escolhido para finalmente adentramos na mente dela, seja fruto de um mero desencontro linguístico, jogando conversa fora com o motorista do ônibus de excursão.

Infelizmente, o apego da produção com a verossimilhança resulta num volume excessivo de sequências ilustrando as aulas de Mercier. Até quem já deixou a escola há bastante tempo vai se lembrar dos tempos em que o relógio parecia se recusar a trabalhar. Os bocejos se tornam inevitáveis enquanto o filme estaciona. Como também vemos professora e classe reunidos durante refeições, seria fácil contornar esse efeito colateral simplesmente alternando entre os dois momentos. Até porque, o ambiente descontraído do jantar facilita o nascimento de debates sobre política e filosofia, por exemplo, o que dá mais uma camada aos personagens.

É o tipo de produção que Hollywood e sua obsessão por fórmulas e pelo espetáculo jamais seria capaz de oferecer. A celebração que toma conta do terceiro ato, uma tradição em filmes sobre o amadurecimento de estudantes (“coming of age”), ganha tom de catarse ao invés do alívio hedonista difundido pelos estadunidenses. A câmera permanece fiel aos personagens, acompanhando-os em movimentos ritmados por canções pop (pois não há trilha sonora incidental), e mantém a história com os dois pés fincados no intimismo.

Embora seja possível vislumbrar o caminho tomado pela narrativa para um determinado personagem (o que não chega a ser um problema), é indesculpável o que Atlan e Brouillet fazem com os minutos finais, negando ao espectador justamente aquilo que demonstraram tanta segurança em administrar: tempo para assimilar o impacto de um acontecimento. A pressa para encerrar a história gera uma narração improvisada que trai não apenas a naturalidade das duas horas anteriores, mas o pacto tácito de sinceridade firmado com o público.


Até esse instante fatídico, A Gradiva se posicionava como um dos melhores coming of age da memória recente, mas agora deverá se contentar com o título de um dos mais sinceros, fiéis, agridoces e irresistivelmente imperfeitos dos últimos anos, alçando Marine Atlan imediatamente como um novo talento a ser acompanhado.


NOTA 8,5



A Margem do Rio

(Idem, Brasil)

Depois de passar pelo Festival de Locarno, onde conquistou o Prêmio Especial do Júri (o segundo mais importante), A Margem do Rio chega à mostra carioca num timing invejável, assim como costuma acontecer anualmente no Festival do Rio. Numa época de polarização política e efervescência social, é importante termos artistas como Enock Carvalho e Matheus Farias apontando para a influência das igrejas evangélicas, cujos pastores utilizam os templos como verdadeiros currais eleitorais, elegendo-se às custas dos fieis. Mas a produção ambientada em Recife vai muito além desse retrato dolorosamente fiel da nossa realidade e acompanha Izaquiel (Caique Copque), um jovem auxiliar de serviços gerais que passa as noites se aventurando pelos manguezais da capital pernambucana em busca de encontros amorosos. O rio Capibaribe, em especial, justifica o título ao se transformar num verdadeiro motel a céu aberto, abrigando dezenas de homens à procura de sexo sem abrir mão do anonimato. Um deles é Jeremias (Ítalo Martins) um misterioso pescador que fisga o protagonista de imediato.

Carvalho e Farias, que dividem direção e roteiro, usam a paisagem sociopolítica do lugar (que poderia ser qualquer outro dentro do Brasil, dada a previsibilidade de nossa situação) apenas como pano de fundo, já que aproveitam o magnetismo do par principal para transformar a narrativa num thriller erótico com toques generosos de suspense. As sequências tórridas de sexo são encenadas de forma crua, mas passam longe de resvalarem na vulgaridade.

Em paralelo, a dupla faz questão de antagonizar a proliferação dessas seitas neopentecostais com a comunidade queer, criando um conflito a partir do embate entre o conservadorismo dos ambientes religiosos e a união de gays e trans que trazem calor humano à narrativa. Da mesma forma, o uso do folclore recifense estabelece uma camada adicional ao suspense sustentado na atmosfera, permitindo que a já rica trama absorva traços de realismo fantástico. A fotografia de Luciana Baseggio reflete essa pluralidade temática misturando tons oníricos e hiper-realistas, consequentemente compondo enquadramentos emblemáticos, ao mesmo tempo que contribui para o desenvolvimento narrativo.

Por outro lado, a história soa dispersa em alguns momentos ao transitar por núcleos e subtramas de forma nem sempre equilibrada. O final, por exemplo, é abrupto ao impor uma virada dramática que evidencia a mão pesada de Carvalho e Farias, que ao menos conseguem contornar esse problema através da excepcional sequência que fecha a história, amarrando pontas que sequer sabíamos estarem soltas de forma elegante.

Caique Copque veste confortavelmente o papel de protagonista, guiando o espectador com simpatia e sinceridade, o que agrega complexidade e facilita a identificação com o espectador. Já Ítalo Martins, faz muito com menos tempo de tela, exibindo presença de cena e nos convencendo dos motivos que levaram Izaquiel e se conectar tão profundamente com Jeremias. A piada envolvendo uma suposta aversão a camisas é a cereja do bolo. Entre os coadjuvantes, destaque para o onipresente Carlos Francisco (acumulando o quarto lançamento só esse ano), aqui fazendo as vezes de pai rígido e conservador e Robério Diógenes, encarnando mais um vilão, só que sem o bom humor apresentado em O Agente Secreto.


Contando também com um design de som primoroso que ecoa os acordes pesados da trilha sonora, A Margem do Rio é mais um bom filme que, assim como aconteceu com Funk, tende a receber uma boa vontade maior graças ao fato de guardar o melhor momento para os últimos segundos de projeção.


NOTA 7,5



Um Longo Inverno

(A Long Winter, Reino Unido/Canadá)

Velho conhecido do Festival do Rio, o cineasta irlandês Andrew Haigh, mais conhecido por romances queer, como Fim de Semana (2011) e Todos Nós Desconhecidos (2023) retorna com um drama familiar de desenvolvimento cadenciado, ou “slow burn”, como dizem os estadunidenses. A trama se passa numa fazenda localizada na região fria e montanhosa do Colorado. Lá vivem os irmãos Mike (Fred Hechinger, de Kraven: O Caçador) e Tommy (Kit Connor da série Heartstopper e o novo Ciclope da Marvel), o pai de família Lester (Ebon Moss-Bachrach, da série The Bear e do novo Quarteto Fantástico) e a matriarca Louise (Caitriona Balfe, da série Outlander e de Belfast), que passam os dias revezando as tarefas demandadas pela fazenda que mantém.


Apesar do clima gelado, o cotidiano é caloroso, regado a refeições em família, noites dançantes e conversas fraternais ao pé da cama. Numa delas, Tommy não esconde sonhar com o dia que sairá de casa, enquanto Mike, mais conformado, tenta convencê-lo a ficar. Não consegue e a partida do caçula inevitavelmente impacta na dinâmica familiar, reabrindo feridas antigas. Como a relação de Louise com o álcool, obrigando Lester a adotar medidas severas para mantê-la sóbria.


Haigh faz bom trabalho ao construir a engrenagem narrativa, principalmente durante o primeiro ato, quando se sai melhor ao ilustrar as relações interpessoais. Após o primeiro plot point, porém, a ansiedade provocada por um acontecimento-chave faz com que a cadência da direção se reverta numa morosidade narrativa enervante. O roteiro, escrito por Haigh a partir do conto homônimo de Colm Tóibín atira para todos os lados. Primeiro a clássica combinação coming of age com despertar queer, depois embute uma batalha contra o alcoolismo e aí estabelece uma situação que inverte a lógica das famílias durante a guerra, quando as mulheres tinha de se desdobrar em casa para suprir a ausência do marido.


Sem a menor habilidade na cozinha, Lester e Mike resolvem contratar alguém para manter os afazeres domésticos em dia. É quando entra em cena Jimmy D'Pharaoh Woon-A-Tai (do bom Tempo de Guerra), que imediatamente é provocado pelo homem mais velho da casa por se sair bem em tarefas "de mulher". A misoginia é amenizada quando lembramos da época em que o filme se passa, diga-se de passagem. Pena que os sinais sobre a sexualidade do rapaz (cujos motivos para ter sido expulso de casa ficam apenas a cargo de nossa imaginação), que vão ao encontro do arco de Mike, jamais são desenvolvidos e ficam só na promessa.


Depois de tantos papéis como coadjuvante, Fred Heichinger finalmente tem a oportunidade de mostrar seu talento como protagonista, conferindo uma gentileza quase cândida à Mike. Na verdade, todo o elenco merece elogios e é justamente a força das atuações que acaba compensando a frieza excessiva de um longa-metragem contido demais não só no ritmo, mas principalmente na abordagem do drama.


NOTA 7



Hope - O Primeiro Impacto

(Hopeu, Coreia do Sul)

O cineasta sul-coreano Na Hong-jin construiu uma filmografia eclética ao longo de dezoito anos de carreira, se consideramos sua estreia a frente dos longas-metragem. E se suas obras costumam conquistar a crítica, de bilheteria este mais novo trabalho, Hopeu (no original), também vai muito bem, obrigado. Apesar de ostentar o título de filme mais caro da história do país asiático (estima-se que o orçamento tenha ficado entre 30 e 35 milhões de dólares com outras fontes afirmando ter atingido os 46 milhões), Hope - O Primeiro Impacto, como ficou a versão brasileira do título oficial, faturou quase 50 milhões globalmente, posicionando-se como a maior estreia nos Estados Unidos desde Parasita.


A produção justifica todos esses números ao fazer de seu considerável tempo de execução (cravadas 2 horas e 40 minutos), um espetáculo pop pulsante feito à moda antiga que mistura ação e comédia com uma ou outra pitada de horror.


Na Hong-jin também é responsável pelo roteiro que narra os acontecimentos incomuns na pacata cidade de Hope, no interior da Coreia do Sul e bem longe da capital Seul. Lá, um delegado (Hwang Jung-min, em mais uma parceria com o diretor) investiga o aparecimento de animais de grande porte mortos. Não para servirem de alimento, o que torna tudo mais estranho. Mal sabe ele que o mistério envolve uma criatura misteriosa.


O tal delegado é o principal responsável por transformar o primeiro ato numa grande galhofa. Despreparado, ele se atrapalha com a própria arma e sequer pensa numa estratégia para agir. E a população parece reconhecer isso, não fazendo muita questão de respeitá-lo, mas Jung-min é inteligente ao não transformá-lo num completo imbecil, demonstrando alguma habilidade (não coragem) na hora de entrar em ação.


Hope é um clássico filme de criatura e a possibilidade de entrar também para o subgênero dos alieginenas, deixa claro as inspirações em Steven Spielberg e Roland Emmerich. Ao fazer isso, ó roteiro deixa seus plot points à mostra e torna o desenvolvimento previsível, mas a experiência nunca perde o entretenimento de vista, mesmo que o repertório do diretor limite-se a perseguições, explosões e troços de arvore se quebrando.


Hong-jin sabe muito bem onde posicionar sua câmera para injetar energia sem sacrificar a compreensão das cenas, que ainda se beneficiam de bons efeitos visuais, numa mistura de trucagens práticas e digitais. O humor, sul-coreano até demais, nem sempre funciona, pois depende de insultos e gritaria, mas uma sequência envolvendo o testemunho de um idoso entra para a lista dos momentos mais hilários deste Festival do Rio 2026.


A longa duração só é sentida mesmo no segundo ato, mas precisamente quando o frenesi inicial se assenta para o público respirar e a história mostrar suas credenciais (onde as inspirações entram). A perseguição final também se estende mais do que deveria e o desgaste evidente atrapalha o ritmo alucinante até então conduzido com maestria.


Trazendo uma ponta do casal hollywoodiano Michael Fassbender e Alícia Vikanker (como dubladores) e participação generosa da estrela sul-coreana Jung Ho-yeon, destaque na finalizada série Round 6 da Netflix, Hope tenderá a dividir opiniões em seus minutos finais, quando resolve deixar a conclusão em aberto. Para um filme tão longo, adiar o desfecho talvez não tenha sido a mais sensata das atitudes, embora a bilheteria global represente o contrário.


NOTA 7













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