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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival Varilux 2023 | "Meu Novo Brinquedo" oferece escapismo e humor fácil


Há algo de interessante no centro de Meu Novo Brinquedo, comédia que desembarca no Brasil através do Festival Varilux de Cinema Francês. Na história, remake de O Brinquedo, sucesso da década de 70 protagonizado pelo astro Pierre Richard, um empresário escandalosamente rico sofre com a perda da esposa e acaba mergulhando de cabeça no trabalho. Um escape compreensível e até justo, não fosse pelo fato de que o homem possui um filho de 11 anos. Sem a presença do pai no momento mais difícil da vida, cabe ao menino ficar aos cuidados da extensa equipe de funcionários dele. A fim de manterem o emprego, os pobres homens e mulheres fazem todas as vontades do futuro herdeiro, até mesmo quando lhe dá na telha adquirir um novo e peculiar brinquedo: um ser humano.

Numa época em que as pessoas estão perdendo espaço para máquinas e inteligências artificiais e o dinheiro exerce uma influência maior do que nunca, Le Nouveau Jouet (no original)pavimenta um caminho de questionamentos, explorando o traiçoeiro, embora nada novo, terreno da luta de classes, escancarando o abismo que separa a minoria abastada da plebe majoritária. Afinal de contas, o tal ser humano desejado pela criança se desdobra em bicos para sustentar a esposa grávida e está soterrado por dívidas, motivos pelos quais ele não hesita em aceitar servir de brinquedo, mesmo que isso signifique deixar o bairro humilde (mas caloroso) em que vive, para habitar (mesmo que de forma temporária) a opulenta (mas fria) mansão do viúvo e seu rebento.

Meu Novo Brinquedo, no entanto, apenas constrói a estrada, recusando-se a percorrê-la e está tudo bem. James Huth, cineasta e roteirista nascido na Inglaterra, mas radicado na França, se inspira no clássico de Francis Veber, nome por trás de comédias rasgadas como o divertidíssimo Dupla Confusão e o mediano O Closet para oferecer o tipo de entretenimento inofensivo que é maioria nos nossos tempos. Ironicamente, Huth faz o caminho inverso de Veber, realizador de visão global que teve muitas de suas obras adaptadas por outros Cinemas, especialmente o hollywoodiano (o sucesso Gaiola das Loucas, com Robin Williams e Gene Hackman, é fruto de uma bem-sucedida trilogia dirigida pelo midas francês), optando por seguir as tendências de um mercado sempre aberto ao escapismo vazio.

O parisiense Jamel Debbouze, presente em produções emblemáticas como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Asterix e Obelix: Missão Cleópatra (e que também participou do processo de adaptação deste Meu Novo Brinquedo), encarna o tragicômico protagonista como um sujeito que tira forças de seu otimismo inabalável para seguir na luta pelo pão de cada dia. Essa faceta, no entanto, só interessa à narrativa quando se faz necessário algum momento de respiro entre uma gag e outra. No restante do tempo, Debbouze limita-se ao arquétipo de peixe fora d’água para tentar arrancar risadas e estabelecer uma dinâmica com o endurecido Alexandre, que por sua vez é vivido por Simon Faliu exatamente como a criança mimada que esperamos ver. A história não tem paciência para desenvolver os arcos dramáticos de seus personagens e ao não respeitar o tempo necessário para que as nuances se tornem críveis, expõe a natureza mecânica das encenações.

Nem Daniel Auteuil, astro veterano das telonas francesas e que colaborou com Francis Veber no já citado O Closet, consegue disfarçar a artificialidade do texto, como fica evidente nas mudanças que envolvem seu papel, o pai de Alexandre. Preso na faceta de milionário enrijecido pelo ambiente corporativo, seu trabalho é relativamente fácil quando divide a cena com Debbouze, mas a partir do momento em que o texto demanda transições, Auteuil fica refém de convenções para despertar a humanidade que, inquestionavelmente, é o que rege o longa-metragem.

Além da obrigatória lição final, com altas doses de sacarose, o roteiro, verdade seja dita, até tenta incluir pitadas do que parece ser uma alfinetada nos poderosos, mas o esforço, embora comovente, não passa da superfície, pois se contenta com os chavões. E para não pesar a mão no drama, é até compreensível que o texto não se aprofunde no conflito entre Sami e seus vizinhos, mas as formas encontradas para sublinhar a consciência social da produção não fogem do trivial.

Isso tudo, claro, não significa que Meu Novo Brinquedo é uma obra desinteressante e sem valor. Sua falta de ambição certamente afastará a parcela mais exigente do público, mas não deverá ser um empecilho para conquistar os entusiastas de histórias leves e descompromissadas. Senão nos cinemas, certamente numa plataforma de streaming, habitat natural dos produtos de fácil consumo.


NOTA 5,5


1 comentario


Jnei Cândido
Jnei Cândido
19 nov 2023

Parabéns pela crítica.

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