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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Honor Society" homenageia filmes adolescentes dos anos 80


À primeira vista, Honor Society parece um filme adolescente comum: é centrado num relacionamento entre uma colegial popular e um nerd socialmente inapto e se cerca de estereótipos clássicos (o atleta, a esquisitona, o diretor atrapalhado) e contemporâneos (o gay fã de musicais e aquele que ainda não saiu do armário). Da mesma forma, Honor é uma estudante para lá de convencional: possui amigas fiéis com quem fofoca sobre os meandros escolares, marca presença nas redes sociais e mantém distância de seus pais. Por outro lado, bastam alguns minutos de projeção para percebermos que Honor Society e sua protagonista são muito mais do que aparentam.


Afinal, sua faceta pública é mera fachada, sustentada com o intuito de colocar em prática um planejamento que a possibilite realizar seu grande sonho: estudar em Harvard. Sua obsessão em entrar para a prestigiada faculdade é tão grande, que ela passou anos arquitetando um plano para alcançar esse objetivo. Para isso, ela se submete a convenções sociais e estuda cuidadosamente cada característica do jovem contemporâneo, como o tradicional culto a famosos (“eles são os deuses da nossa Sociedade, então, ou eu os venero, ou sou excluída”, ela diz em certo momento) e o competitivo mundo narcisista das redes sociais (“minhas fotos só estão no meu perfil para que me invejem”).

Assim como sua (anti)heroína, Honor Society também esconde pretensões maiores, pois utiliza cada elemento (narrativo ou não), para fazer com que o espectador embarque numa jornada aparentemente familiar, baixando a guarda para receber em cheio os golpes desferidos pelo roteiro, mesmo que eles não sejam tão poderosos como julgam ser. A produção pega emprestado, por exemplo, a protagonista de Eleição (1999) e a utiliza para quebrar a quarta parede como o Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado (1986) enquanto presta tributo a obras como Três é Demais (1998) e Superbad – É Hoje (2007).

A premissa, simples, coloca Honor em rota de colisão com outros três candidatos a uma bolsa de estudos para ingressar em Harvard, motivando a moça a arregaçar as mangas para sabotar cada um deles. O roteiro, então, aos poucos começa a subverter nossas expectativas, virando do avesso (quase) todos os tropos que despretensiosamente espalhou pela narrativa, possibilitando algumas surpresas que enriquecem a experiência do espectador. Que deve ficar atento a alguns truques como, por exemplo, ao apresentar Honor, pois a narração que a estabelece como uma figura fria, calculista e extremamente perspicaz é feita por ela mesma. Além disso, é ela também quem faz questão de rotular cada personagem coadjuvante, definindo-os de maneira nem sempre lisonjeira, o que corrobora sua imagem como uma anti-heroína.

Interpretada por Angourice Rice com um cinismo até então inédito em sua carreira, Honor jamais deixa de nos convencer de sua determinação, o que serve ironicamente para comprovar sua força junto ao público, levado a embarcar no que está acompanhando justamente pelo fato de a moça ser a única fonte de informações. Acostumada a encarnar personagens doces e humildes, como a protagonista do fascinante Todo Dia ou a impetuosa Daisy de Dois Caras Legais, Rice talvez seja mais lembrada por suas pequenas participações como Betsy nas mais recentes aventuras do Homem-Aranha de Tom Holland. Aqui, ela é finalmente desafiada a deixar sua zona de conforto, saindo-se admiravelmente bem, especialmente por contrastar a ácida verborragia de Honor com sua aparência frágil e delicada.

Entretanto, se inicialmente as quebras da quarta parede cumprem a tarefa de refletir o ego da moça e alimentar a ideia de que controla seu próprio destino, aos poucos o recurso vai dando sinais de esgotamento ao ser utilizado para explicar praticamente tudo o que acontece, soando redundante ou até mesmo irritante por verbalizar aquilo que estamos testemunhando. O ritmo frenético do primeiro ato, que lança mão de transições inusitadas para manter o dinamismo da história infelizmente não é mantido e Honor Society passa a depender demais da química (existente) entre Honor e Michael.

E é Gaten Matarazzo, mais conhecido como o Dustin de Stranger Things, o encarregado de viver um dos rivais da protagonista. Comprovando o carisma exibido na série da Netflix, Matarazzo é outro que agarra com unhas e dentes a oportunidade de ir além do que costuma entregar. Transmitindo a mesma aura almofadada do desbocado aliado de Eleven, Matarazzo compõe Michael como um garoto que é mais do que um simples nerd. Apesar de ser encarado por todos à sua volta como um sujeito inteligente, algo refletido por suas notas, e ser atormentado por valentões, ele passa longe de possuir o jeito desastrado que costuma caracterizar essa classe de personagem, optando por uma personalidade mais segura.

Mais interessante do que ansiar pelo resultado do plano de Honor é acompanhar o desenvolvimento da trama, pois em seus esforços para tirar seus concorrentes do caminho, ela aprende que as pessoas são muito mais do que aparentam. Nesse ponto, a protagonista que começa como um estandarte da anarquia, disposta a fazer qualquer coisa para conseguir o que quer, torna-se mais maleável, deixando de tomar atitudes mais drásticas. Embora ela bravateie ser capaz de atrocidades para eliminar seus colegas, acaba por simplesmente desviá-los para caminhos que, se de fato não contribuem para os estudos, também não os destrói emocionalmente.

E embora essa recusa em mostrar Honor sucumbindo ao Lado Negro da Força, possa soar um ato de covardia por parte do roteirista David A. Goodman (das séries Uma Família da Pesada e The Orville), ele prefere construir um arco diferente para a moça, ao obrigá-la a trilhar um caminho de redenção mesmo que inconscientemente. Com isso, a moça que antes se gabava pela “vilania” ao enxergar apenas seu plano à sua frente, descobre que seu entorno é diferente do que imaginava. E é exatamente por isso que as surpresas que eclodem no terceiro ato ganham um impacto maior. Mesmo não sendo tão imprevisíveis como parecem.

Contando com a luxuosa participação especial do sempre ótimo Christopher Mintz-Plasse, o eterno McLovin de Superbad (dessa vez como o diretor da escola!), Honor Society é uma bela homenagem aos filmes adolescentes de John Hughes, sendo muito mais interessante pela desconstrução que promove (em vários níveis) do que pelas surpresas em si.


NOTA 7


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