'Ladrões' combina violência e bom humor em trama com estilo de Guy Ritchie
- Guilherme Cândido

- 27 de ago.
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Hank pode não ter uma vida perfeita, mas tem uma namorada amorosa e é querido no bar onde faz expediente duplo, como bartender e como espectador dos jogos dos Giants, time pelo qual torce fervorosamente. Além dos pesadelos recorrentes envolvendo o acidente que encerrou precocemente sua promissora carreira no beisebol, poucas coisas atormentavam a vida do rapaz, até um vizinho resolver bater na porta e pedir para cuidar de seu gato de estimação (vivido pelo mesmo Tonic do recente Cemitério Maldito). Um favor singelo e aparentemente banal dispara uma cadeia de eventos bizarros, trazendo violência para um cotidiano até então sem fortes emoções.
Isso porque, no roteiro escrito por Charlie Huston (baseado em seu próprio romance), todos passam a querer algo de Hank. Sua namorada quer que ele pare de beber, sua mãe quer que ele ligue com mais frequência e estranhos começam a bater na sua porta exigindo uma coisa relacionada ao tal vizinho sumido (o MacGuffin da vez). Justamente em função de sua fama de bom menino, Hank fica ainda mais intrigado por não ter a menor ideia de como entregar o que assassinos judeus, vigaristas porto-riquenhos, mafiosos russos e até a polícia tanto querem dele.

Alçado à fama por Tarantino em Era Uma Vez em… Hollywood (2019) e cheio de prestígio após ser indicado ao Oscar por Elvis (2022), Austin Butler vem de trabalhos com diretores autorais como Jeff Nichols (Clube dos Vândalos) e Denis Villeneuve (Duna: Parte Dois). Darren Aronofsky, de obras-primas como Réquiem Para um Sonho (2000) e Cisne Negro (2010) - pelo qual também recebeu uma nomeação ao prêmio da Academia - é mais um que entra na invejável lista de Butler, embora Ladrões seja diferente de tudo que já dirigiu. Especificamente, Caught Stealing (no original) mais parece um filme de Guy Ritchie.

Estão lá os azarões metidos em problemas com o submundo do crime, os coadjuvantes espalhafatosos, longos diálogos repletos de palavrões e a montagem acelerada tentando acompanhar o ritmo frenético da direção. Essa fórmula gerou bons frutos, como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch - Porcos e Diamantes (2000) e é replicada com algum sucesso por Aronofsky e Huston, que também fazem bom proveito do ótimo elenco reunido.

Acostumado a narrativas mais cerebrais, cadenciadas e visualmente carregadas, o novaiorquino aposta numa linguagem mais dinâmica, leve e estilizada, surpreendendo quem esperava mais uma obra na linha do problemático A Baleia (2022). É bom ver um artista sair da zona de conforto, ainda mais alguém talentoso como Aronofsky, que se mostra capaz de provocar gargalhadas e comandar sequências de ação com a mesma competência com que sacudiu nossos neurônios em Fonte da Vida (2006) e nos emocionou em O Lutador (2008)

Ocasionalmente, Aronofsky claudica ao forçar um equilíbrio entre o tom naturalmente cômico do texto e uma atmosfera típica dos filmes de gângsters ambientados em Nova York. É quase possível ver o cineasta tentando se apegar a algum elemento realista enquanto o roteiro embarca no cartunesco. Quando roteirista e cineasta caminham em direções opostas, a colisão torna-se inevitável. É o que explica o uso da violência, cujo choque ao menos serve para impedir o protagonista (e o espectador) de baixar a guarda, deixando claro que, por mais tresloucado que seja o desenrolar da história, há consequências.

Os irmãos judeus vividos por Liev Schreiber (Asteroid City) e Vincent D’Onofrio (Lift: Roubo nas Alturas), aliás, são um ponto fora da curva na galeria heterogênea de personagens concebidos por Huston, ao passo que Regina King adiciona boas nuances à policial que interpreta. E se Zoë Kravitz (em mais um acerto após brilhar na excepcional série O Estúdio) carrega o peso de encarnar o porto seguro do azarado Hank, é Matt Smith (Morbius) quem mais chama atenção ao surgir brevemente como o punk britânico que desencadeia toda a espiral de desgraça que toma conta da vida do protagonista.

Que por sua vez confirma a ótima fase de Austin Butler. Nas mãos de um intérprete menos hábil, Hank Thompson poderia se tornar um jovem mimado e desinteressante, mas o californiano não só consegue transmitir o bom-mocismo do bartender (por meio de olhares sinceros e expressões de espanto diante de imagens chocantes), como adiciona um ar de perigo que torna o personagem imprevisível. Essa dúvida a respeito das ações de Hank, faz com que o espectador se permita questioná-lo, viabilizando a possibilidade de uma reviravolta, o que gera ainda mais expectativa em relação ao desfecho.

Fotografado e montado por seus parceiros habituais (Matthew Libatique e Andrew Weisblum, respectivamente), Aronofsky mantém o filme sob rédeas longas o bastante para que o caos impere e produza a tão almejada sensação de arbitrariedade, deixando a audiência acreditar estar à mercê do aleatório quando, na verdade, tudo está calculadamente sob controle. A produção ainda se beneficia de uma trilha sonora matadora, incluindo hits que se misturam organicamente aos acordes incidentais do compositor Rob Simonsen (de Deadpool & Wolverine e do recente Elio), por mais divergentes que possam parecer. Aliás, não lembro de um compilado tão díspar, fazendo da despadronização, seu padrão, ao enfileirar Scorpions, Madonna e Barry Manilow, para citar apenas alguns exemplos. Além disso, o designer de produção Mark Friedberg (Coringa) é eficaz ao exibir uma Nova York imunda, abarrotada de sacos de lixo, refletindo o mundo sujo no qual Hank, um homem de caráter ilibado, tenta se manter limpo.

Anárquico sem ludibriar o espectador e agradável por não subestimá-lo mesmo quando a lógica parece ter ido pelos ares, Ladrões não só recupera a credibilidade perdida com A Baleia (2022), como revela um novo e auspicioso caminho para a carreira de Darren Aronofsky.
NOTA 8









