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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Logan marca despedida violenta e melancólica de Hugh Jackman

É difícil admitir, mas uma das poucas certezas que temos é a de que tudo tem (ou terá) seu fim. Às vezes, há sinais que indicam a proximidade do término de algo, mas também há vezes em que algo acaba sem aviso prévio, de supetão mesmo. Assim como uma vida pode demorar meses para ser gerada, também pode ter seu fim determinado por um mísero instante. E é numa situação como esta que a dor tende a ser maior, pois é amplificada pela falta de preparo.


Foram 17 anos interpretando aquele que viria a ficar marcado como o divisor de águas de sua carreira. Seu maior e mais célebre papel. Um personagem que começou como coadjuvante e terminou como o carro-chefe não apenas de sua franquia, mas de seu octogenário estúdio. Sim, caro leitor, terminou. Porque hoje, oito filmes depois, Hugh Jackman fez sua última aparição como o icônico mutante Wolverine. Apesar de escrever isso com inevitável melancolia, sinto-me aliviado e acima de tudo feliz por testemunhar uma despedida em alto nível. Logan merecia.


Retornando após comandar o medíocre Wolverine: Imortal, o diretor James Mangold dessa vez também assina o roteiro ao lado de Scott Frank (também do filme anterior) e de Michael Green (do famigerado Lanterna Verde) apresentando-nos a um filme tematicamente impactante, acompanhando Wolverine numa etapa diferente de sua vida. Aqui, ele é somente Logan, um homem que não esconde as cicatrizes das inúmeras batalhas que travou e que tenta viver uma vida normal, num futuro onde o mundo já não abriga mais os mutantes de antigamente. Cuidando de um idoso Charles Xavier (Patrick Stewart) e trabalhando como motorista de limusine, ele se vê obrigado a ajudar Laura (Dafne Keen, em seu primeiro filme), uma misteriosa menina que está sendo procurada pelo ameaçador Pierce (Boyd Holbrook, da série Narcos). Só que os tempos mudaram, será que Wolverine dá conta do recado?


O título da produção não foi escolhido por acaso, pois desta vez, vemos muito mais Logan do que Wolverine, num ousado esforço dos roteiristas de humanizar o mutante. Nesse sentido, Charles desempenha papel fundamental, pois cabe a ele lembrar a Logan do herói que já foi outrora, que por trás daquela persona dura, há bondade e compaixão. E Patrick Stewart não decepciona, oferecendo uma performance multifacetada e que explora bem toda a fragilidade daquele senhor que quase nos faz esquecer de que um dia já foi o grande Professor X.


Encarnando Wolverine com a segurança habitual, Hugh Jackman tem a inédita oportunidade de mergulhar nos sentimentos do mutante, retratando-o como uma pessoa visivelmente exausta e impiedosamente afetada (ou maltratada) pelo tempo. Com dificuldades até mesmo para usar suas garras (note os sangramentos e o “defeito” de uma das lâminas), Logan não suporta mais o fardo que se tornou viver, e vê-lo carregar uma bala de adamantium é tão chocante quanto triste.


A novata Dafne Keen, por sua vez, promete ter um futuro brilhante, a julgar pelo talento e, principalmente, pela intensidade que exibe em cena. Acredite, não deve ser fácil transformar uma simples menina numa figura temida por verdadeiros brutamontes. Por outro lado, Keen também demonstra sensibilidade em instantes mais intimistas, o que acaba servindo para que não nos afastemos demais daquela personagem que, no final das contas, é apenas uma criança.


Igualmente eficaz é a direção de James Mangold, que volta a mostrar competência na condução das sequências de ação, evitando os cortes frenéticos tão comuns em filmes do gênero (Michael Bay, que o diga). Além disso, Logan também acerta ao trazer de volta o compositor Marco Beltrami, que opta por deixar de lado os acordes grandiosos do filme anterior, para poder investir numa trilha sonora mais suave e que evoca toda a sensibilidade demandada pela narrativa que, por sinal, é permeada por uma atmosfera tão melancólica que acaba distanciando a produção ainda mais dos outros filmes de super-herói.


E encarar Logan como um se fosse um “genérico” “filme de super-herói”, é um equívoco que pode comprometer a experiência daquele que espera um longa-metragem pautado por sequências de ação e com ritmo acelerado. Cadência e sensibilidade são apenas alguns adjetivos para indicar que trata-se de um legítimo drama centrado em seus personagens. Mas é preciso também reconhecer alguns deslizes por parte do roteiro, como ao retratar determinando elemento fundamental da criação do (anti) herói como algo negativo.


E para manter este texto livre de spoilers, me limitarei a escrever que, nesse contexto, o tempo parece ter sido esquecido pelos roteiristas. Além disso, é uma pena que o filme, depois de passar todo o primeiro ato longe de diálogos expositivos, acabe se entregando a estes ao empregar um artificial vídeo exibido num celular para fornecer informações.


Extremamente violento e carregado de palavrões, Logan, em contrapartida, também surpreende ao adotar um grau incomum de realismo, que é destacado pela árida fotografia de John Mathieson (O Agente da U.N.C.L.E.)


Ao acender as luzes, caro leitor, Logan permite o prazer de dizer que o Carcaju finalmente ganhou um bom filme.


Um filme triste e chocante, mas, definitivamente, à sua altura.


NOTA 8



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