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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Máfia da Dor" apenas replica o que deu certo em obras infinitamente superiores


Há décadas os Estados Unidos vêm enfrentando uma tremenda batalha na chamada Crise dos Opioides, uma epidemia de abuso e dependência que só tem aumentado ao longo dos anos. Os opioides (como oxicodona, hidrocodona e fentanil) são medicamentos eficazes no alívio da dor, mas seu uso indevido e a crescente disponibilidade levaram a um crescimento exorbitante das taxas de overdose e mortes relacionadas à famigerada substância no país norte-americano, cujo governo já implementou diversas estratégias para reverter a situação, incluindo regulamentações mais rígidas sobre a prescrição de opioides, a expansão de tratamentos para dependentes e até campanhas de conscientização público. Apesar de todo esse esforço, a crise tem se mostrado um desafio maior do que o esperado para a saúde pública de lá, pois só em 2021 mais de cem mil estadunidenses morreram por overdose de fentanil e congêneres, um aumento de 279% em relação a 2016, por exemplo. Como já dizia o médico e escritor búlgaro Mikhail Bulgákov (1891-1940), a pessoa que acaba viciada “deixa de existir. Fica desconectada. Torna-se um cadáver que se move, se deprime e sofre. Não deseja nada nem pensa em nada que não seja morfina”.

Trata-se de um drama que já foi abordado em diversos projetos no Cinema, como o excelente Querido Menino (com Steve Carell e Timothée Chalamet) e o bom O Retorno de Ben (Com Julia Roberts e Lucas Hedges), mas foi na TV que recentemente o tema ganhou um estudo mais aprofundado, através da premiada minissérie Dopesick, estrelada por Michael Keaton (que venceu o Emmy de Melhor Ator pelo projeto). Diante de um assunto tão vastamente (e bem) explorado, o que Máfia da Dor poderia trazer de novidade? Essa é uma resposta que a Netflix busca oferecer por meio de uma abordagem mais extravagante e com grandes estrelas, mas nem isso se revela exatamente uma estratégia original.

Baseado nos eventos reais narrados no livro de Evan Hughes, Pain Hustlers (no original) acompanha a ascensão e a queda de Liza Drake (Emily Blunt), mulher que trabalhava como stripper para dar uma vida minimamente digna à filha (Chloe Coleman) até conhecer o executivo Pete Brenner (Chris Evans), que lhe abre as portas para a lucrativa e inescrupulosa Indústria Farmacêutica. Sem qualquer relação com a área, Liza se torna a aposta de Brenner para tirar do buraco a pequena corporação Zanna, presidida pelo excêntrico médico Dr. Neel (Andy Garcia). A iniciativa de Brenner passa longe de ser um tiro no escuro, pois ele mesmo presenciou o jogo de cintura da mulher. Não demora muito até os dois prosperarem e fazerem da Zanna uma das maiores empresas dos Estados Unidos. No entanto, a ganância toma conta do Dr. Neel e o que era para ser um esquema relativamente controlado, descamba para atitudes impulsivas e que passam a custar vidas. Diante desse novo e sombrio cenário, como será que Liza Drake consegue dormir, sabendo que é uma das responsáveis pelo agravamento da Crise dos Opioides?

Esquemático, o roteiro é assinado pelo estreante Wells Tower, que não demonstra a menor intenção de diferenciar sua história de obras infinitamente superiores, como O Lobo de Wall Street e A Grande Aposta. Tower investe nas mesmas convenções e tenta se aproximar do mesmo humor dos projetos dirigidos por Martin Scorsese e Adam McKay, respectivamente, mas só empalidece diante das comparações. Ao seu favor, joga o elenco, encabeçado por uma Emily Blunt determinada a embutir algum grau de complexidade em Liza Drake, uma figura cujo arco dramático genérico é redimido por uma performance comprometida e multifacetada. Já Chris Evans, embora carismático como sempre, não é tão bem-sucedido como a colega de cena, visto que desaparece em meio a um papel sem muito espaço para crescimento. Andy Garcia, que está vivendo uma fase prolífica em sua carreira, é o único que consegue jogar com Blunt, ao ilustrar as motivações do Dr. Neel, mas sem deixar de mostrar a admiração que sente por Drake.

Por mais que os atores deem conta do recado, nada salva a produção de provocar um efeito intermitente de déjà vu no espectador, que pode até ser fisgado pelo ritmo dinâmico e pela trilha sonora pulsante composta por James Newton Howard (indicado ao Oscar pela nona vez com Notícias do Mundo) em parceria com o arranjador Michael Dean Parsons (da série Invasão Secreta), mas que acabará percebendo, mais cedo ou mais tarde, estar diante de um passatempo tão derivativo quanto esquecível.

O que talvez seja exatamente o desejo da Netflix, que como produtora atua do mesmo jeito com que rege seus negócios. Já que Máfia da Dor é apenas mais um projeto feito sob medida para engrossar seu catálogo e a mera presença de astros como Chris Evans e Emily Blunt já é suficiente para atrair a atenção de seus assinantes. O fato de ter ido buscar o cineasta britânico David Yates para tocar a produção, uma escolha, no mínimo, inusitada, só corrobora essa tese. Afinal, antes de ficar conhecido como o diretor dos últimos sete capítulos da franquia Harry Potter (incluindo os derivados Animais Fantásticos), Yates só havia dirigido produções políticas, marcadas pela verborragia e longe da comédia. Vê-lo tentar emular o estilo de Adam McKay chega a ser comovente, mas não será dessa vez que ele poderá incorporar o adjetivo “versátil” ao seu currículo.

Por fim, Máfia da Dor se esgarça para conseguir apenas replicar o que já deu certo em outras produções, mas seu maior feito é impedir o assinante de cair no sono durante suas quase duas horas de duração. O que por si só já deve motivar os executivos da Netflix a estourarem garrafas de champanhe.


NOTA 5,5

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