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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Napoleão" empolga na ação e se atrapalha como biografia


Ver entusiastas da Sétima Arte alimentando expectativas sobre Napoleão é testemunhar uma prova inquestionável do impacto cultural de Alien - O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides. Isso porque, apesar de quase cinco décadas de uma carreira que começou tardiamente (apenas aos 39 anos), podemos contar nos dedos as obras realmente dignas de nota assinadas pelo cineasta Ridley Scott. Para cada Chuva Negra, Thelma & Louise e Gladiador, temos dois ou três A Lenda, Até o Limite da Honra, Robin Hood (a versão com Russell Crowe), Prometheus, O Conselheiro do Crime e Êxodo: Deuses e Reis (detalhe: os quatro últimos foram produzidos em sequência). Isso antes de citar Alien: Covenant e Casa Gucci, tropeços recentes, mas que mesmo assim são relevados quando o “Protocolo Alien e Blade Runner” é ativado durante o debate. Não quer dizer, claro, que o britânico seja um mau diretor, longe disso, mas aguardar ansiosamente por um filme seu é algo que não me parece muito sensato.

O novo Napoleão vai ao encontro desse pensamento, pois, carregado de esperanças (graças também à presença do cultuado Joaquin Phoenix), é lançado pela Apple em parceria com a Columbia como se fosse um evento cinematográfico. E, verdade seja dita, embora tenha seu valor por ter contribuído para o Cinema há quarenta anos atrás, Ridley Scott passa longe do panteão dos grandes realizadores. Além dos altos e baixos de sua filmografia, o cineasta de 86 anos goza de uma petulância que chamou atenção em suas entrevistas recentes, especialmente naquela em que depreciou o Napoleão dirigido pelo parisiense Abel Gance em 1927 e que permanece como a melhor versão cinematográfica da história do lendário imperador francês.

Escrito por David Scarpa, do fraco A Última Fortaleza e parceiro de Scott em Todo o Dinheiro do Mundo, o roteiro não demonstra interesse nas origens de Napoleão Bonaparte, esnobando sua juventude ao iniciar a narrativa com o futuro general já na casa dos vinte anos de idade e prestes a encarar uma das 61 batalhas que travou ao longo da vida. A partir daí, é possível sentir a influência do diretor três vezes indicado ao Oscar, visto que o mesmo desapego à fidelidade histórica presente em obras como Cruzada e o supracitado Gladiador (que funcionou apesar disso), torna-se evidente. O filme passa batido por momentos-chave da carreira de Bonaparte (Phoenix) e escolhe se concentrar em sua volúvel relação com Josefina de Beauharnais (Vanessa Kirby) para tentar esboçar um retrato da intimidade do sujeito. A realidade, porém, é diferente, pois a produção pouco acrescentará àqueles que não estão familiarizados com a história de Napoleão.

Joaquin Phoenix, conhecido pela intensidade de suas performances, até tenta preencher as lacunas deixadas pelo script, como ao surgir ofegante antes de uma batalha importante, sugerindo o nervosismo de Napoleão, mas no geral, pesa a escolha equivocada por uma composição marcada por olhos cerrados, longos momentos de silêncio e falas ditas sem energia. Numa passagem, por exemplo, o então comandante é visto de pé, mas com os olhos fechados perante seu exército e alguém questiona se está dormindo. Coincidentemente, essa é a mesma dúvida que o vencedor do Oscar (por Coringa) desperta na maior parte do tempo.

Por falar em dúvida, sequências como a fuga desesperada do parlamento ou a prisão de um sujeito importante do governo representam um fracasso cômico de grandes proporções e contribuem para a caricatura que a narrativa inevitavelmente abraça, especialmente no primeiro ato. Na tentativa de atribuírem camadas ao protagonista, Scott e Scarpa (que fariam uma curiosa dupla sertaneja), pesam a mão e o transformam numa figura patética que nem as inúmeras e animalescas sequências de sexo conseguem amenizar, escancarando a intenção de exaltar a virilidade de alguém que é capaz de explodir em fúria ao descobrir a traição da esposa, mas se subjugar à mesma no momento seguinte.

Falando em Josefina, a ótima Vanessa Kirby, em alta como a viúva branca de Missão: Impossível e indicada ao Oscar por Pedaços de Uma Mulher, se perde numa personagem que mais parece um artifício de roteiro ambulante. Josefina, supostamente o grande amor de Napoleão, é concebida por David Scarpa como uma mulher inconstante e joga mais sombra do que luz sobre seu relacionamento com Bonaparte, gerando confusão a respeito dos reais sentimentos que habitam aquele casamento.

Em contrapartida, se dramaticamente a produção patina, tecnicamente desfila, com seus duzentos milhões de orçamento a serviço de efeitos visuais absolutamente estonteantes e que contribuem não apenas para a recriação da época, mas também para emprestarem credibilidade às intensas sequências de ação, essas sim comandadas com extrema segurança por Ridley Scott. As tomadas aéreas, que ilustram a magnitude dos conflitos e os planos abertos que captam os soldados se engalfinhando são complementados por um design de som eficiente e complexo, mas o longa-metragem merece elogios mesmo por não ceder ao impulso comercial de se enquadrar numa classificação indicativa mais abrangente.

Essa liberdade (fruto também do plano de ser lançado numa plataforma de streaming), permite a Napoleão soar crível ao mostrar, por exemplo, as consequências das batalhas. Não me refiro especificamente às imagens gráficas de pessoas e cavalos sendo desmembrados por tiros de canhões, mas sim pela presença de sangue quando alguém resolve usar a espada, diferente de tantos outros projetos (incluindo os de Scott) que escondem a violência para ampliarem o alcance do público.

No final das contas, Napoleão é muito mais eficiente como experiência cinematográfica, em virtude de suas espetaculares sequências de ação, do que como biografia de um dos mais importantes líderes da História, pois ainda que seja capaz de empolgar nos momentos mais explosivos, jamais passa da superfície ao retratar seu personagem central.


NOTA 5


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