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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Nem Matthew McConaughey salva "White Boy Rick" de seu protagonista

Membro de uma família de classe média, Rick Wershe Jr., ainda jovem, viu sua mãe deixar o lar após não suportar mais as agressões do marido, Rick Wershe Sr., um contraventor que vivia de pequenas vendas de produtos falsificados (armas, no caso). Porém, White Boy Rick, novo filme do diretor britânico Yann Demange (71: Esquecido em Belfast), mostra que Rick Jr. teve uma vida muito mais movimentada, tornando-se aos 14 anos o mais jovem informante do FBI de todos os tempos, pegando prisão perpétua aos 17 anos depois de ser condenado por tráfico de drogas, batendo um novo recorde 30 anos mais tarde: o de criminoso não-violento que mais tempo passou na cadeia. E o mais curioso é que tudo isso realmente aconteceu.


Focando na trajetória de Rick Jr. (Richie Merritt), a produção mostra a origem de sua carreira como traficante de drogas, sua relação com o FBI e a convivência com seu pai, Rick Sr. (Matthew McConaughey) com quem nutria um relacionamento repleto de altos e baixos. Para piorar, sua irmã Dawn (Bel Powley) foge de casa com o namorado viciado em crack, deixando os dois Rick’s à mercê do mundo.


Com essa história em mãos, coube a Yann Demange a tarefa de encontrar o intérprete perfeito para Rick Jr. Uma tarefa crucial, diga-se de passagem, já que o escolhido deveria ser um garoto com carisma e talento na mesma medida, com peso para encarar um personagem forte e centralizar o filme inteiro. Infelizmente, Demange e os produtores de elenco escolheram o fraco Richie Merritt: em seu primeiro trabalho como ator, Merritt começa sua carreira com o pé esquerdo, escancarando limitações técnicas desde o início. Com um biotipo fora dos padrões Hollywoodianos, o estadunidense de 17 anos poderia ter investido numa composição mais natural, mas opta por um caminho equivocado. Com falhas primárias que incluem frases ditas sem segurança, olhares inexpressivos e um jeito de andar artificial, Merritt é o primeiro sintoma da derrocada de White Boy Rick.


E o roteiro, escrito a seis mãos, não colabora, jogando frases de efeito e um arco dramático complexo para o inexperiente ator. Demange parece ter sido engolido pela própria confiança no rapaz, já que essa é a única explicação para a utilização excessiva de frases retóricas (aquelas em que um personagem diz algo para finalizar uma conversa e sai de cena repentinamente). Esses momentos não só colocam Merritt na fogueira como enfraquecem o personagem e a própria produção, num efeito cascata que se repete a cada deslize do menino.


Quando o ator ganha a incumbência de soltar uma dessas frases retóricas (“e a tua filha é uma drogada!”), o filme ganha contornos embaraçosos, onde fica evidente que o novato não domina sequer o tom de voz do personagem, chegando ao ápice sempre que percebemos aquela dicção mecânica que costuma impregnar projetos amadores.


Enquanto isso, os roteiristas são incapazes de darem o exemplo, concebendo diálogos risíveis (“- Você não parece bem, – Vá se foder você também”) e enrolando-se com os subtextos. Note como o trio atira para todos os lados, soltando comentários sobre preconceito racial nos tribunais (“pena de branco e pena de preto”), maioridade penal e a influência dos pais na formação do caráter dos filhos.


E como é triste ver um elenco de apoio tão talentoso ser desperdiçado, a começar pelo sempre competente Matthew McConaughey (Interestelar) que, exibindo um visual ligeiramente extravagante, tem pouco o que explorar além de focar na personalidade de Rick Sr. O pai de White Boy Rick é um sujeito esperançoso, que procura agir com benevolência, além de dedicar-se 100% ao seu filho, a quem considera seu melhor amigo. Mas o tratamento infantil que recebe dos seus pais, reflexo também de sua dependência financeira, acaba impactando no relacionamento com seus filhos.


Com menos tempo de tela ainda, Bruce Dern (Os Oito Odiados) surge completamente subaproveitado como o pai do personagem de McConaughey, ao passo que RJ Cyler (Power Rangers) mais uma vez aceita um personagem aquém de seu talento. Já Jennifer Jason Leigh (Aniquilação) até consegue extrair leite de pedra, ao trazer um pouco de complexidade a um personagem unidimensional.


Acertando em cheio apenas em suas poucas cenas de ação (especialidade de Yann Demange), White Boy Rick surpreende com uma sequência impactante durante o segundo ato, quando alguém repentinamente atira em outro personagem, num exemplo eficaz de como trabalhar o suspense e como entregar uma surpresa satisfatória, além de mostrar as qualidades do ótimo design de som.


Apelando a convenções para finalizar a história, White Boy Rick tem toda a cara do clássico ‘Oscar Bait’, mirando em possíveis indicações da Academia. O tiro, porém, sai pela culatra e acerta em cheio a cara da produção.


NOTA 5

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