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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"O Predador" descaracteriza franquia com trama sem foco e humor excessivo

Quando o primeiro Predador estreou, nos longínquos anos 80, o Cinema Hollywoodiano de Ação vivia uma época dominada por astros anabolizados e violência extrema. Não por acaso, Arnold Schwarzenegger (protagonista ‘terráqueo’ de O Predador) era, ao lado de Sylvester Stallone, o maior astro das telonas, com películas regadas a testosterona, como Conan, O Exterminador do Futuro e Comando Para Matar. Por isso, quando lembramos do Predador, fica difícil não associá-lo àquela carnificina viril.


Porém, o novo capítulo da franquia iniciada em 1987 é uma tentativa de reinventar o monstro alienígena, com uma história que não cansa de pregar ‘evolução’, mesmo quando frases icônicas ou sequências inteiras são referenciadas. Essa indecisão entre o clássico e o moderno parece ter atormentado a mente do roteirista/diretor Shane Black, que jamais encontra um caminho plenamente satisfatório.


O Predador já inicia sua projeção atirando o espectador no meio de uma perseguição espacial, onde uma nave alienígena acaba caindo na Terra trazendo consigo a criatura que dá nome à produção. Entretanto, ela não parece tão interessada em caçar dessa vez, como poderíamos supor e logo percebemos que sua intenção é ligeiramente mais… deixa para lá, você descobrirá.


Me limitarei a dizer que os planos do Predador acabam despertando a atenção de seus compatriotas que logo enviam uma nave para a Terra. Já no núcleo terráqueo, Quinn McKenna (Boyd Holbrook de Logan e da série Narcos) é o único a entrar em contato com o alienígena, o que o coloca na mira de uma misteriosa agência americana liderada por Traeger (Sterling K. Brown, de Pantera Negra) que vem monitorando as visitas dos Predadores desde 1987.


O fato de levar em conta as ‘visitas’ anteriores dos predadores é uma forma de Shane Black matar dois coelhos com apenas uma cajadada, pois não só serve como uma homenagem à franquia como indica que, ao contrário dos filmes anteriores, esse filme levará a história adiante, inclusive sugerindo uma espécie de ‘upgrade’ por parte dos alienígenas. E é aí que começam os problemas.


Inicialmente dando aquela piscadinha para os fãs através de tiradas famosas como “Get to the Chopper” e uma versão modificada do “Ugly Motherfucker”, Black não hesita em apelar para a nostalgia, empregando até mesmo o tema clássico de Alan Silvestri e que aqui parece um pouco deslocado. O fato é que Black parece tentar acalmar o fã antes de atirá-lo numa armadilha, como se o primeiro ato fosse um pedido adiantado de desculpas.


A partir daí, o humor passa a ser mais frequente, atendendo a um pedido que na verdade nunca foi feito, ocupando um espaço que nunca existiu, atirando piadas que quase sempre saem pela culatra, com o forçado Keegan Michael-Key (Keanu: Cadê o meu Gato?) assumindo o intragável posto de alívio cômico numa trama já sufocada por tentativas de provocar o riso. Há bons momentos, é verdade, quando sentimos a presença do típico humor negro de Shane Black, emergindo como um braço decepado fazendo sinal de positivo ou alguém gritando enquanto é atirado de uma vidraça.


Black, que fez uma breve participação como ator no longa original, assume as rédeas de uma série que há tempos busca seu público perdido. Sua veia autoral é sentida, além da supracitada parcela humorística, na boa interação dos personagens (sua especialidade) destacando-se a dupla Boyd Holbrook e Trevante Rhodes (Moonlight), cuja química surpreende ainda mais quando nos damos conta de que é a primeira vez que dividem a cena.


Holbrook/Rhodes lembra vagamente Riggs/Murtaugh (Máquina Mortífera, também de Shane Black), elevando o nível do desorientado segundo ato. Perto da dupla, o restante do elenco parece tão deslocado quanto o humor do filme, o que fica patente quando observamos a performance tenebrosa de Thomas Jane (O Justiceiro), um ator que já não consegue disfarçar sua decadência.


E mesmo que O Predador apresente algumas sequências de ação decentes, é notável a falta de imaginação de Black e sua equipe, ambientando os set-pieces quase sempre em locações escuras e usufruindo de efeitos visuais, no mínimo, irregulares (repare no confronto alienígena do segundo ato). Além disso, embora violentíssimos, os combates soam como lutas sintéticas (não nos importamos com o destino dos envolvidos), onde a coreografia nada especial acaba sendo o elemento mais atrativo desses momentos.


Isso tudo, consequentemente, nos leva até o caótico terceiro ato, quando Shane Black mostra ter desistido de qualquer sinal de coerência ou organização, mergulhando o espectador numa bagunça generalizada enquanto nem mesmo os personagens parecem saber direito o que está acontecendo. Tudo isso para possibilitar uma última homenagem ao longa original: a caçada final na floresta. Mas é tudo tão repentino, tão corrido, que quando nos damos conta já acabou, e Black, o maestro dessa orquestra desafinada sequer consegue imprimir suspense, ou provocar aquela empolgação.


Ou seja, lá no fundo de O Predador há algumas boas ideias, o problema é que não houve o mínimo grau de habilidade para explorá-las, resultando numa narrativa esburacada que é repentinamente atirada numa espiral de loucura e incompreensão. A última cena, por sinal, é a cereja desse bolo desconjuntado.


NOTA 4,5



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