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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #11: 007 Contra o Foguete da Morte (1979)

007 Contra o Foguete da Morte

(Moonraker, 1979)

A essa altura, a franquia 007 estava prestes a completar 17 anos e após algumas produções memoráveis como Moscou Contra 007 e 007 Contra Goldfinger e outras nem tanto como 007 Os Diamantes São Eternos e 007 Contra o Homem Com a Pistola de Ouro, chega o momento de lançar aquela que ficaria conhecida como o patinho feio entre as aventuras de do superespião britânico, 007 Contra o Foguete da Morte, ou “o pior filme de James Bond” de acordo com fãs e veículos de imprensa. Apesar de toda a repercussão negativa, porém, o filme faturou alto nas bilheterias e estabeleceu um recorde para a franquia que só viria a ser batido por 007 Contra GoldenEye.


007 O Espião Que Me Amava parecia ser um divisor de águas na Era Roger Moore, pois deu a entender que os produtores finalmente se deram conta de que aquele tipo de aventura, um filme realista de espionagem, era a que melhor se adequava a James Bond, independente de seu intérprete. O resultado agradou praticamente todos os envolvidos, incluindo Moore e permanece até hoje como o mais elogiado da segunda fase do espião. No entanto, é difícil de compreender os motivos que levaram a produção a desfazer tudo o que havia dado certo.

Se o filme anterior havia encerrado a tradição da série de pegar carona no que estava na moda (como o blaxploitation e os filmes de artes marciais), ela volta com tudo em Moonraker (no original), fazendo com os produtores mudassem de ideia em relação ao filme seguinte a 007 O Espião Que Me Amava (lembra dos créditos finais daquele filme anunciando que 007 Somente Para os Seus Olhos marcaria o retorno de Bond?), por conta do sucesso estrondoso de Star Wars, um fenômeno de bilheteria na época. Surge então a brilhante ideia de surfar no sucesso de George Lucas e colocar James Bond no espaço disparando armas de raio laser e pilotando espaçonaves.

007 Contra o Foguete da Morte acabou se tornando um marco negativo dentro da série, tornando-se o mergulho profundo e definitivo na fantasia que alguns tropeços anteriores já haviam ensaiado em dar (como 007 Contra o Homem Com a Pistola de Ouro). Foi graças a esse filme que o 007 de Roger Moore perdeu a credibilidade junto ao público e transformou o agente secreto em sinônimo de exagero. Não por acaso, muito do que acontece neste filme poderia facilmente ser encontrado numa das sátiras infames envolvendo o personagem, como Johnny English e Austin Powers, com este último, coincidentemente ou não, estrelando O Homem do Membro de Ouro, que parodiou o segundo filme de Moore como Bond, mas pegou emprestado toda a atmosfera de 007 Contra o Foguete da Morte.

Assim como os absurdos, tudo é superlativo neste filme. Para se ter uma ideia do nível de megalomania atingido pela produção, basta perceber que as filmagens aconteceram em quatro estúdios diferentes, dentro de sete países em três continentes distintos. Sem a participação do colaborador Richard Maibaum, que escreveu quase todos os filmes da série, coube a Christopher Wood tomar as rédeas criativas do projeto após o script de Tom Mankiewicz, autor de dois dos piores filmes da série, ser recusado num ilusório lapso de lucidez dos produtores.

Nem a música-tema ajudou, pois originalmente, a produção fez uma proposta a Frank Sinatra, que recusou imediatamente. Kate Bush foi outra a dizer não, mas a prova de que a bruxa estava mesmo à solta foi quando Johnny Mathis, o primeiro a finalmente aceitar, acabou não se encaixando e oferecendo uma canção abaixo do que os produtores buscavam. Desesperados, foram atrás de Shirley Bassey, intérprete de “Goldfinger” e “Diamonds are Forever” para salvar o cronograma. A insípida “Moonraker” foi aceita e embalou a abertura mais cara de toda a série, o que motivou o produtor Albert Broccoli a afirmar que o custo superou o orçamento inteiro de 007 Contra o Satânico Dr. No. O filme também marcou a despedida de Bernard Lee da franquia, fazendo de sua décima primeira aparição como “M” a sua última, antes de sucumbir a um câncer de estômago aos 73 anos durante a pré-produção de 007 Somente Para os Seus Olhos.

O excesso de bond girls também salta aos olhos, com James Bond provavelmente quebrando o recorde de cenas românticas com beldades. Como Holly Goodhead (esses nomes...), a texana Lois Chiles atrai os holofotes e aproveita relativamente bem a oportunidade de transformar sua personagem em mais do que um instrumento do roteiro para aumentar o número de conquistas amorosas de Bond, ao passo que o vilão vivido por Michael Lonsdale parece saído diretamente de um dos filmes da franquia satírica Austin Powers.

Empregando ótimos efeitos visuais para dar vazão aos absurdos do roteiro, o filme conta com alguns dos mais infames momentos dentro da franquia protagonizada por James Bond. Fantasioso em praticamente todos os aspectos, há um desapego notório para com a realidade, provocando gargalhadas involuntárias ao ilustrar a aparente imortalidade de Jaws (Richard Kiel tornou-se o único intérprete de um capanga a aparecer em mais de um filme), que já impressionava no filme anterior, mas que aqui ganha contornos ainda mais escalafobéticos com ele sobrevivendo à queda de um avião (e sem paraquedas!). Apontar o disparate da trama envolvendo a ida de Bond ao espaço tornou-se um clichê com o passar dos anos (até o roteirista Richard Maibaum chamou a história de ridícula), mas não deixa de ser assustador descobrir que houve quem investisse dinheiro numa aventura em que um mero espião fosse capaz de ir ao espaço para participar de uma cópia barata de Star Wars. Só consigo pensar na franquia Velozes e Furiosos como outra que tenha mudado tão drasticamente.

É claro que falar de 007 Contra o Foguete da Morte sem mencionar a participação do Rio de Janeiro seria um sacrilégio, ainda mais vindo de um carioca. Filmar na Cidade Maravilhosa não parecia ser uma má ideia, pelo contrário, pois as belezas naturais e os mundialmente famosos cartões postais se adequariam perfeitamente à tradição da franquia 007 de rodar o mundo visitando pontos turísticos. Só que a mera utilização do emblemático Pão de Açúcar e o aproveitamento do bondinho para uma famosa sequência de ação não bastaram e os produtores resolveram investir boa parte do filme em momentos passados no Rio.

Infelizmente, o filme promove mais uma daquelas representações rasas da cidade brasileira, apostando em estereótipos batidos (sim, há uma sequência durante o Carnaval) que flertam com a ignorância. Os conhecimentos limitados do espião britânico sobre a cultura carioca (“o que alguém que não sabe sambar tem para fazer no Rio?”, ele pergunta) aliam-se a uma visão errônea que o mundo convencionou-se a alimentar do Rio de Janeiro, algo esperado de uma produção pedestre como o fraco terror Turistas, mas não de uma superprodução consagrada. Há pessoas dançando nos lugares mais inusitados e durante circunstâncias improváveis, mas também há a tradicional ‘confusão geográfica’ que costuma acometer os estrangeiros que buscam referências brasileiras (as Cataratas do Iguaçu, pelo visto, ficam na Amazônia). Aliás, falando nas Cataratas, vale ressaltar que o produtor Albert Broccoli teve a ideia de levar Bond ao Brasil após visitar Foz do Iguaçu durante suas férias.

Quando não está tentando emular Star Wars (e não há do que reclamar além do estranhamento inevitável), a ação corresponde aos padrões da série, mesmo que descambe para o ridículo que virou lugar-comum neste capítulo (a sequência pré-créditos termina com uma apunhalada na Física). Destaque para as duas perseguições de barco, uma na Amazônia (e que quase se equipara àquela vista em Com 007 Viva e Deixe Morrer e outra em Veneza com uma gôndola turbinada carinhosamente apelidada por Roger Moore de “Bondola”. Essa sequência, inclusive, culmina numa breve, mas constrangedora passagem numa praça: com o barco criando rodas e percorrendo um ponto turístico da cidade italiana, a direção opta por focar na reação das pessoas e dos animais presentes (isso mesmo), fracassando ao extrair humor e beirando o inacreditável (repare na tomada tripla de um pombo).

Enquanto isso, o departamento de som deixa transparecer uma curiosidade sobre a série: a cena em que ouvimos a indefectível melodia de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ecoa o relacionamento dos produtores de 007 com Steven Spielberg, que concordou em ceder a música para o filme. Spielberg, por sua vez, estava em negociações com Albert Broccoli para assumir a direção de uma aventura de James Bond, mas tudo foi pelos ares quando seu grande amigo George Lucas, no topo da Indústria graças ao sucesso de Star Wars, apareceu em sua casa com o roteiro de Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida.

E por falar em direção, Lewis Gilbert, em seu terceiro trabalho na franquia, atribuiu as mudanças relacionadas a Jaws às cartas recorrentes dos fãs mirins da série pedindo para que o capanga ficasse “bonzinho”, pena que as formas encontradas para permitirem essa ‘virada de casaca’ serviram apenas para ridicularizarem o personagem, que inclusive ganha um improvável interesse amoroso durante o terceiro ato.

Reciclando elementos de sucesso dos filmes anteriores (perseguições de barco, veículos anfíbios, fugas com paraquedas...), 007 Contra o Foguete da Morte talvez ocupe um lugar especial na memória dos complacentes fãs brasileiros, mas isso não o impede de figurar entre os filmes mais distantes da essência de James Bond. Uma adição relativamente agradável de assistir e com ótimos efeitos visuais, mas que representou um considerável retrocesso, arranhando a credibilidade de uma marca que demoraria anos para se recuperar completamente.


NOTA 4


1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Mar 30, 2023

Gostei do final com o "capanga" e a loirinha de tranças , a foto que você colocou.

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