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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Projeto James Bond #17: 007 Contra GoldenEye (1995)

007 Contra GoldenEye

(GoldenEye, 1995)


Confesso que sempre nutri um carinho muito grande por 007 Contra GoldenEye, o primeiro filme da franquia que vi e que também gerou meu jogo de tiro favorito, aquele que era capaz de me prender por horas a frente do Nintendo 64. Quando iniciei esta maratona, aguardei ansiosamente pelo momento em que seria capturado pela nostalgia ao revê-lo. Admito, porém, que essa revisão me fez perceber que trata-se de um capítulo especial por seu valor extra-filme, tendo sido o grande responsável por introduzir o universo de James Bond à minha geração (e custei a aceitar um intérprete que não fosse Pierce Brosnan), mas que não chega a exceder os padrões da franquia.


Após o fracasso de bilheteria do filme anterior, quando a reformulação encabeçada por Timothy Dalton foi abruptamente interrompida pelos produtores, preocupados com a resposta do público, a franquia acaba dando um passo para trás, resgatando os elementos clássicos das primeiras aventuras a fim de se desculpar com os fãs que rejeitaram 007 Licença Para Matar. Assim, 007 Contra GoldenEye se revela um dos filmes mais reacionários da série, buscando referenciar a todo momento a fórmula concebida por Richard Maibaum e seus colegas roteiristas.

O próprio Pierce Brosnan, agora livre de seu compromisso com a série Jogo Duplo, finalmente conseguiu assumir o papel que buscou por tanto tempo e o hiato em que 007 entrou após a saída de Timothy Dalton (e uma longa disputa nos tribunais) serviu para que o irlandês ganhasse experiência com filmes de ação como O Defensor Implacável e Trem da Morte. Quando ele foi anunciado como o quinto ator a interpretar James Bond, os fãs sabiam exatamente o que esperar.

O resultado foi uma performance que mesclou a entrega física de Timothy Dalton com leves traços do despojamento de Roger Moore, contribuindo para uma imagem mais tradicional de James Bond, recuperando o bom humor que foi desprezado por Dalton. Melhor intérprete desde Sean Connery, Brosnan nunca foi o culpado pelo fato de os filmes que estrelou jamais atingirem o potencial almejado pelos produtores. Apesar de consolidar-se na cultura popular e marcar uma geração de novos fãs, faltou ao irlandês um grande filme para simbolizar sua era. Tendo a considerar o capítulo seguinte como seu melhor, mas isso está longe de ser um consenso entre os fãs.

GoldenEye tinha tudo para ser esse filme, especialmente por ser o primeiro a estrear após a Guerra Fria, algo que o roteiro absorve bem e ganha impacto na presença excepcional de Judi Dench, estreando como a que viria a ser a melhor M, superando até mesmo Bernard Lee, o pioneiro. É Dench quem recebe as melhores falas do script, modificando sensivelmente o relacionamento antes cordial entre M e James Bond. Ao invés de uma acrobacia ou uma sequência explosiva, a melhor cena de 007 Contra GoldenEye é justamente quando M e Bond resolvem lavar roupa suja. Ao perceber que o agente nutre uma certa antipatia por seus métodos, a chefe do Serviço Secreto Britânico não hesita em desmontar os valores que por anos foram representados pelo personagem: “Você é um dinossauro sexista e misógino cujo charme juvenil desperdiçado comigo obviamente funcionou com a moça que enviei para te avaliar”, diz ela encarando-o furiosamente. Esse diálogo resume perfeitamente a posição que James Bond ocupa nesta nova fase, pois com o fim da Guerra Fria, revela-se um anacronismo ambulante com sérias dificuldades para se adaptar à modernidade.

Essa reveladora autocrítica por parte da produção se estende a outros pontos do roteiro, como ao reconhecer o excesso de veículos explodidos por Bond através de uma provocação feita por Natalya Simonova. No entanto, a montagem rústica prejudica a ação em alguns momentos, não apenas pelo excesso de cortes e sombras em algumas lutas, como também na apresentação e na conclusão de set-pieces. Repare, por exemplo, como James Bond resolve ficar parado ao perceber que alguém está descendo de corda por um helicóptero, como se aguardasse ser golpeado. Ou na forma apressada com que seu relacionamento amoroso com Natalya é conduzido.

Natalya, por sua vez, é vivida com algum charme pela polonesa Izabella Scorupco, mas sem o carisma necessário para estabelecê-la como uma bond girl memorável. Já a holandesa Famke Janssen agarra com unhas e dentes a oportunidade oferecida pela série. Não à toa, Xenia foi o papel que lançou sua carreira mundialmente: Compondo a agente soviética como uma adversária provocadora, ela exala sensualidade sem jamais deixar de convencer como a mulher letal que é. Utilizando seu charme para baixar a guarda de seus inimigos antes de atacar, Xenia é um dos destaques de GoldenEye e só não entra no hall da fama das bond girls por ter um final tão decepcionante, sendo defenestrada do filme numa sequência completamente deslocada e que não faz jus à força da personagem.

Já Sean Bean, que chegou a ser cotado para o papel de James Bond, faz de Alec Trevelyan um oponente à altura do protagonista, especialmente por compartilhar traços de sua personalidade. Apesar de retomar a tradição megalomaníaca de seus antecessores, o vilão ganha motivações que fazem a série marcar posição na contemporaneidade, com o MacGuffin da vez, o dispositivo chamado GoldenEye, servindo para atacar todos os objetos que funcionam à base de eletricidade. A própria postura vingativa de Trevelyan espelha a motivação inicial de Bond, mas sem a determinação vista no filme anterior.

Tecnicamente, porém, a produção abusa da pirotecnia para não romper completamente com a abordagem explosiva do filme anterior, trazendo James Bond mandando a furtividade pelos ares ao não hesitar em metralhar inimigos. Com uma sequência pré-creditos absolutamente espetacular, GoldenEye ainda se dá o luxo de possuir uma das melhores canções-tema da série, com a voz de Tina Turner acompanhada de uma melodia que remete aos clássicos temas dos anos 60. Em contrapartida, Eric Serra se mostra uma escolha equivocada, oferecendo a pior trilha sonora de um filme estrelado por James Bond e manchando o legado de John Barry e Monty Norman.

007 Contra GoldenEye foi concebido como uma retomada do modelo antigo da série, o que pode decepcionar aqueles satisfeitos com os novos rumos tomados por 007 Marcado Para a Morte, mas que é responsável por pavimentar o caminho do sucesso da fase de Daniel Craig, que consolidou 007 como uma franquia que acompanha as evoluções do mundo e da sociedade.


NOTA 7


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