top of page
  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'Vidas Passadas' faz ensaio maduro e realista de um relacionamento


É difícil encontrar, nos anos mais recentes, o caso de uma estreia tão marcante na direção de um longa-metragem como a de Celine Song neste Vidas Passadas. O roteiro, também de sua autoria, tem forte apelo biográfico, pois narra a história de vida de uma aspirante a dramaturga, desde a infância na Coréia do Sul, sua terra-natal, passando pela imigração no Canadá até culminar em Nova York, onde finalmente alcança o sucesso pelo qual tanto batalhou. O filme de Celine Song reconhece convenções do gênero e presta reverência a clássicos como Antes do Amanhecer e Moonlight, mas diferente de obras menos ambiciosas, não cai na armadilha de se prender a conflitos bobos, intrigas e outras abstrações. Os saltos temporais não acontecem como meras elipses. O que impede o ritmo de ser esmagado pelo vaivém narrativo é a escolha por interrupções em momentos-chave. Quando finalmente ficamos confortáveis perante uma situação, o filme abruptamente salta 12 anos no tempo, fazendo com que o espectador compartilhe com a protagonista a sensação de que o tempo voou sem que fosse possível se dar conta.


24 anos antes (“Se você deixa algo para trás, ganha algo também”)


Logo após o prólogo, em que alguém de fora do quadro observa e tece comentários sobre um trio de desconhecidos, o filme volta 24 anos no tempo para apresentar Na Young e sua rotina no país asiático. É lá que ela conhece Jung Hae Sung, colega de classe que ela nem imagina que ocupará um espaço importante em sua vida. Não demora muito até que os dois se descubram apaixonados, mesmo que estejam longe de entenderem esse conceito. Enquanto ele se permite ao menos sentir, ela é mais pragmática. Não por acaso, ela já possui certeza absoluta de que quer ser escritora (e vencer o Nobel de Literatura).

Song demonstra sensibilidade ao acompanhar Na Young, enxergando beleza no prosaico. Repetições como a ida para a escola e o retorno para casa são capturadas como se fossem momentos a serem recordados para sempre pela jovem protagonista. Além da fotografia pictórica, com planos plásticos como aquele que escancara a beleza cosmopolita da cidade sul-coreana são um bônus desse primeiro capítulo focado em mostrar a fagulha que incendiou a amizade entre Na Young e Jung Hae Sung. Amizade ou In-Nun? Pois o roteiro nos apresenta a um conceito maior que a amizade, mas diferente de amor. O que talvez nós ocidentais entendamos como destino ou acaso, os sul-coreanos definem como o jeito encontrado pelo universo de reunir almas fortemente conectadas em vidas passadas.


Passados 12 anos (“Por quê eu iria a Nova York?”)


É justamente quando sua família resolve imigrar para o Canadá que Na Young se dá conta da importância de Jung Hae Sung, por mais que ela se recuse a demonstrar isso. Aliás, ela se esforça em vender para si a ideia de que considera positiva uma mudança de continente (“a Coréia do Sul nunca venceu um Nobel”), algo que chateia Jung Hae Sung, esse sim mais aberto para demonstrações de afeto. A despedida entre os dois ao voltarem da escola é outro momento construído de forma emblemática por Song, o que comprova uma elegante e emocionante rima visual que acontece mais à frente. Ela deixou de ser Na Young para se tornar Nora, agora uma escritora de sucesso vivendo em Nova York. Ele, ainda na capital sul-coreana, está cursando engenharia e não hesita em procurar a velha amiga no Facebook, obtendo resposta apenas muito tempo depois. Aliás, a fotografia faz questão de construir paralelos entre as paisagens nova-iorquinas e o cenário cosmopolita de Seul.

Mais uma vez o roteiro é hábil ao evocar a ligação entre os dois através de sutilezas. Uma pergunta simples como a que abre esse capítulo, ganha um tom revelador justamente por ser utilizada como resposta. Para Na Young, é lógico presumir que os dois devem ficar juntos novamente. Pragmática, ela faz a pergunta da forma mais casual possível, deixando o convite quase imperceptível, o que talvez tenha inspirado uma resposta igualmente simples, mas tremendamente reveladora da parte de Hae Sung, justamente aquela que abre esse parágrafo.

Desenvolvendo a relação dos amigos de uma forma semelhante ao de Jesse e Céline em Antes do Amanhecer de Richard Linklater, Celine Song traduz a banalidade de sua história, que poderia soar desinteressante nas mãos de alguém menos hábil, em complexidade ao examinar o relacionamento dos amigos. Mas a realizadora não incorre em pedantismo ou na artificialidade, especialmente quando joga o destino na equação. Ao invés de abordar esse conceito como uma desculpa para invocar o romantismo, ela adiciona uma camada à difícil tarefa de classificar a relação entre Na Young e Hae Sung.


12 Anos Depois (“Algumas jornadas custam a sua vida toda”)


É curioso perceber como o filme ilustra a mudança de pensamento de sua protagonista de formas que encantam justamente pela simplicidade. Se durante a infância, Na Young demonstra uma verdadeira obsessão pelo Prêmio Nobel, conforme vai amadurecendo, sua ambição vai sofrendo mudanças, já que o Tony se torna seu último objetivo, logo depois de ter demonstrado desejo em conquistar um Pulitzer. Ela se tornou uma dramaturga, afinal.

Mas Song também não se furta de estudar a personalidade da protagonista e colocar sua identidade sob um prisma. “Você sonha apenas em coreano, não em inglês”, ela ouve de outro personagem num determinado momento. Em relação à vocação de Celine Song para a concepção de frases marcantes, eu poderia citar mais uma dezena delas, mas não o farei para preservar sua experiência. Ela também reconhece as diferenças entre coreanos nativos e imigrantes coreanos, algo que enriquece a narrativa por posicionar a produção.

Com performances honestas e escapando do maniqueísmo que costuma prejudicar as comédias românticas, por exemplo, Celine Song converte Vidas Passadas num estudo complexo e verossímil das relações humanas, evitando a armadilha de antagonizar pessoas pelo simples fato destas estarem em lados opostos naquele momento da vida. Nesse ponto, John Magaro (do singelo, mas excepcional First Cow - A Primeira Vaca da América) merece elogios por fazer do marido de Na Young um sujeito que mal consegue esconder suas emoções, mas que demonstra maturidade e empatia suficientes para lidar com um conflito que se apresenta. Já Greta Lee confere carisma e peso dramático a Nora/Na Young, ganhando pontos pela habilidade em transmitir o peso que carrega por toda uma vida que poderia ter tido ao lado do amigo, mas que não teve graças a escolhas que ela seguramente fez.

Vidas Passadas tinha tudo para se tornar mais um daqueles filmes indies que se destacam em Sundance, mas caem no esquecimento logo depois. Por outro lado, a habilidade de Celine Song em extrair verdade de uma narrativa simples, mas calorosamente humana, é o que transforma a produção numa experiência universal, quase nos fazendo esquecer de que se trata do primeiro trabalho de sua diretora à frente de um longa-metragem. O final guarda alguns momentos descartáveis que tentam amarrar as pontas, mas que soam redundantes, como parte dos cinco minutos finais. Um pecadilho cometido por uma diretora que merece ser observada de perto a partir de agora.



NOTA 8,5


*Crítica originalmente publicada durante o Festival do Rio 2023

bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0