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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Épico "Mudbound" impõe dura reflexão sobre o racismo

Situado nos Estados Unidos, mais precisamente na Memphis da década de 40, a história de Mudbound (título original) é narrada por vários personagens diferentes, gerando pontos de vista distintos e fragmentando a narrativa elegantemente entre vários núcleos que acompanham Negros e Brancos, em situações entrelaçadas por conflitos invariavelmente gerados pelo ódio cego.


Afinal, como justificar a atitude de algo (sim, pois “alguém” só vale para humanos) capaz de provocar dor em uma pessoa em virtude da cor da pele? Não só provocar a dor, como passar esse pensamento para os mais jovens, perpetuando uma selvageria por várias gerações. Esse é o cenário de Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi, filme dirigido pela cineasta Dee Rees (Pariah)


Presenteando o espectador, logo de cara, com planos de tirar o fôlego e que apresentam a beleza de uma região povoada por criaturas feias em função do caráter retrógrado que rege seus pensamentos monstruosos, o filme não demora a deixar claro para o espectador o contraste que se estabelecerá entre a linguagem técnica e a própria trama em si, o que é traduzido em palavras em certo momento, quando a personagem vivida por Carey Mulligan (do excelente ‘Drive’), Laura McAllan, afirma que sábado, quando toma-se banho, é o único dia da semana onde é possível sentir-se limpo, sem estar coberto pela sujeira daquele lugar. Ora, essa frase não poderia ser mais sintomática, já que com raras exceções, os habitantes de Memphis são seres racistas, misóginos e desumanos, capazes das maiores atrocidades com o próximo, o que transforma a lama que permeia o lugar numa metáfora difícil de ser ignorada.


E essa repugnância é personificada pela forte performance de Jonathan Banks (da série ‘Breaking Bad’), que assume o tom odioso sem qualquer hesitação, tendo habilidade para transformar seu personagem numa figura atroz, mas cuja fragilidade física (afinal, trata-se de um idoso) contribui para impedir uma provável caricatura. Já Jason Clarke (do fraco ‘O Exterminador do Futuro: Gênesis’), um ator que costuma sofrer com papéis estereotipados, tem a oportunidade de encarnar Henry McAllan como uma figura complexa, que equilibra-se bem entre sua misoginia evidente (e seu discurso a favor da submissão da mulher perante o homem reforça isso), sua devoção à família e, principalmente, sua relação, repleta de nuances com os vizinhos negros, já que mesmo que não assuma o radicalismo do pai e seja, até certo ponto, respeitoso, é incapaz de perceber que pequenos gestos podem ser tão prejudiciais quanto a postura racista do idoso (como ao não impedi-lo que exija que um negro saia pelos fundos de um estabelecimento).


Em contrapartida, se Carey Mulligan demonstra força como a esposa de Henry nos dois primeiros atos, acaba sendo sabotada pelo final artificial de sua jornada, o que dilui o impacto da conclusão do próprio filme, soando como o último capítulo de uma novela das oito. Por outro lado, Jason Mitchell (do bom ‘Kong – A Ilha da Caveira’), que vem ganhando cada vez mais espaço na Indústria, mostra talento e carisma como o jovem Ronsel Jackson, comovendo principalmente numa cena-chave, em que transmite ao público exatamente o que se espera de um momento chocante ao qual é submetido. Enquanto isso, o subestimado Garrett Hedlund (do igualmente subestimado ‘Tron – O Legado’) mais uma vez comprova sua competência, porém, assim como acontece com Carey Mulligan, é prejudicado por um epílogo que opta pelo caminho mais fácil. Mas o destaque da produção é mesmo a cantora estadunidense Mary J. Blige (do decepcionante Rock of Ages) que brilha como Florence Jackson. Blige não só ilustra com sensibilidade o peso da matriarca, como também comove devido ao padecimento de Florence.


O drama vivido pela família Jackson, diga-se de passagem é construído de forma crua, acompanhando o tom majoritário do filme. Sendo assim, a diretora Dee Rees não poupa o espectador dos fortes sentimentos que permeiam a projeção, o que se reflete até mesmo no design de som (repare no som de ossos se quebrando em dois momentos). Rees, aliás, triunfa de tal forma, que consegue unir uma estrutura elegante, entrecortada por narrações bem executadas – algumas em tom de sarcasmo, outras de lamento – sobre imagens bucólicas com a crueza de sua trama. ‘Mudbound’ é um filme belo de se ver, mas pesado de sentir.


Já o roteiro adaptado do romance de Hillary Jordan e assinado pela própria Dee Rees ao lado de Virgil Williams (de séries como 24 Horas e Criminal Minds) é um espetáculo de erudição: repleto de diálogos sofisticados e frases emblemáticas, é um deleite ouvir os narradores, assim como não deixa de ser admirável testemunhar Florence Jackson convencer o marido usando o argumento do mesmo. Ademais, a trama reflete o bom trabalho da montadora Mako Kamitsuna (‘Hacker’), sem problemas de ritmo e apresentando uma elogiável fluidez entre as várias subtramas, ao passo que a trilha grandiosa da estreante Tamar-Kali engrandece os acontecimentos da história.


Representando, ao lado do inesquecível ‘12 Anos de Escravidão’ mais um esforço incômodo, e necessário, de mostrar a realidade ainda atual dos negros, Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi choca, envolve e emociona, graças sobretudo à poderosa história que apresenta, porém, seu grande legado é a inquestionável reflexão que provocará, já que para construir um futuro, não se deve desprezar os erros do passado, e sim, aprender com eles. Mesmo que a lição chegue com uma carga dramática difícil de suportar.


NOTA 8,5

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