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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Conquistar, Amar e Viver Intensamente" reflete sobre a AIDS com leveza

Há uma certa tradição no Cinema Francês que é celebrada por uns e debochada por outros, que é a habilidade de construir histórias a respeito do amor transitando pela seara da intelectualidade sem perder o caráter romântico e, por vezes, lúdico. Encaixando-se nessa proposta, Conquistar, Amar e Viver Intensamente, novo filme do cineasta francês Christophe Honoré, busca abordar a AIDS de uma forma mais branda, abraçando sua natureza informativa sem perder de vista a leveza.


Com isso, o filme percorre um caminho radicalmente oposto ao de outra obra sobre a AIDS, o impactante 120 Batimentos Por Minuto, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e que não economizava na carga dramática para retratar a derrocada de um ativista na famigerada década de 80. A visceralidade de 120 BPM é substituída por um tom mais próximo da comédia, mas sem perder a seriedade de vista.


Assim, a história de Jacques (Pierre Deladonchamps), um escritor soropositivo de 35 anos e seu romance com o estudante Arthur (Vincent Lacoste) joga para escanteio o clássico enfoque no penoso tratamento contra a AIDS (implacável nos anos 80 e 90, época retratada aqui). Ao invés de corpos degradados e amigos destruídos psicologicamente, o longa prefere focar no lado b, aquele onde sabemos que a doença está progredindo, mas Jacques não altera sua rotina.


E quando o inevitável se aproxima, é aí que Conquistar, Amar e Viver Intensamente abraça sua natureza francesa, colocando seus personagens em longos diálogos filosóficos sobre sexo e sexualidade e divagações utópicas, mesmo que nesse ínterim o texto escorregue em pequenas frases de autoajuda sobre o amor, motor narrativo do projeto. Claro que a naturalidade com que aborda o homossexualismo é fruto do talento de Christoph Honoré, mas o descuido da burocrática montagem, que investe em longos planos e cortes secos, influencia o desenrolar da história, que perde ritmo e sofre com a morosidade.


Não fosse pela força da dupla formada por Vincent Lacoste (Hipócrates) e Pierre Delandonchamps (Um Estranho no Lago), talvez o projeto caísse por terra. Talentosos e carismáticos, Lacoste e Delandonchamps mostram-se em perfeita sintonia com o tom do projeto, exalando descontração durante toda a projeção, mantendo a pose até mesmo nas várias e pesadas cenas de sexo. Por falar em descontração, é preciso reconhecer a eficácia das piadas espalhadas ao redor da narrativa, que servem tanto para humanizarem seus personagens, como para aproveitarem o talento de Denis Podalydés (Caché), pouco aproveitado como o amigo de Jacques.


Se fosse meia hora mais curto, talvez fosse digno de ser encarado como uma mistura de 120 Batimentos Por Minuto com Me Chame Pelo Seu Nome.


NOTA 6


Crítica originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2018

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