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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Creed III" reutiliza elementos em história batida, mas satisfatória


Concebido por Sylvester Stallone como um tiro no escuro dado por um ator que tentava desesperadamente emplacar em Hollywood, rendendo duas indicações (Melhor Ator e Melhor Roteiro Original) ao Oscar e conquistando três estatuetas (entre elas a de Melhor Filme), Rocky acabou se tornando a mais famosa série cinematográfica sobre boxe da história do Cinema, alçando Sly ao estrelato pelo qual tanto batalhou e abrindo caminho para uma longeva franquia que já gerou oito filmes. O nono está chegando aos cinemas sob o título Creed III, encerrando a trilogia impulsionada pelo legado de Rocky como personagem, mas que pela primeira vez deixa de aparecer, relegando seu antigo astro ao papel de produtor.


A ausência de Stallone é sentida, mas plenamente justificada. Após seis participações como protagonista e duas como coadjuvante, o tempo de Rocky passou e sua turbulenta e emocionante trajetória já foi contada. Chegou a hora de Adonis Creed (Michael B. Jordan) trilhar seu próprio caminho e a sombra do velho Rocky, que de certa forma sempre o eclipsou, continuaria a impedir sua emancipação natural. Adonis já não é mais uma promessa do boxe, conquistando respeito e prestígio através de uma carreira vencedora e o prólogo faz questão de reforçar seu talento ao mostrar a luta que lhe rendeu o título de campeão mundial, seu maior sonho.

Contrastando com a vida humilde e instável que levou durante a infância e contada de forma sensível no excelente Creed: Nascido Para Lutar, Donnie é um personagem que definitivamente mudou ao longo da trilogia, deixando de lado a vaidade e a personalidade explosiva que tanto atrapalharam seu caminho rumo ao topo e dificultou o relacionamento com as pessoas com quem se importa. Morando numa luxuosa mansão ao lado da agora esposa Bianca (Tessa Thompson, a Valquíria da franquia Thor), Donnie possui uma outra mentalidade, voltada para a família e com uma latente preocupação com o legado que deixará. Pois além de um marido devotado, ele também se mostra um pai carinhoso e suas ações são filtradas pela imagem que quer passar à sua herdeira.

Em contrapartida, ao investir num arco envolvendo a aposentadoria de Adonis, estreitando (novamente) as ligações com sua franquia-mãe, especialmente Rocky IV, a produção força a barra ao pedir que o espectador aceite que o Creed interpretado por Michael B. Jordan no auge de sua forma física e cuja cara de menino esconde seus 35 anos de idade, está “velho e acabado”, como afirma um personagem pouco depois do protagonista conquistar o título mundial. Pior ainda é quando o roteiro tenta estabelecer Damian como um adversário mais velho, sendo que seu intérprete, Jonathan Majors (o Kang da Marvel) é ainda mais jovem que Jordan.

Controvérsias à parte, o roteiro de Keenan e Ryan Coogler (veteranos da trilogia) em parceria com o indicado ao Oscar Zach Baylin (King Richard: Criando Campeãs) trabalha bem os elementos típicos dos filmes de esporte (e da franquia Rocky), incluindo momentos clássicos como a montagem de cenas de treinamento e os problemas familiares, posicionando-os de forma adequada numa trama que, se não demonstra interesse por originalidade, ao menos é competente ao plantar chavões para colher resultados satisfatórios dentro das pretensões do projeto: empolgar e emocionar.

Nesse sentido, a tarefa é facilitada por personagens tão bons quanto os atores que lhe dão vida: Tessa Thompson, por exemplo, ganha um tempo maior de tela para desenvolver Bianca, que recebe um subtrama madura e reflexiva sobre adaptar sonhos num contexto adverso (lembremos que ela era cantora quando descobriu estar perdendo a audição), ao passo que Jonathan Majors justifica sua ascensão meteórica em Hollywood acumulando atuações cada vez melhores em blockbusters e produções menores, desde a minissérie Lovecraft Country, passando pelo bom Irmãos de Honra e culminando em sua promissora entrada no Universo Marvel, quando se destacou no fraco Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania. Majors, porém, é parcialmente sabotado pelo roteiro, que resolve eliminar a sutileza para obrigar seu personagem a assumir a vilania de forma absoluta. É um filme comercial, afinal de contas.

Enquanto isso, elogiar a performance do supracitado Michael B. Jordan, é chover no molhado: um dos atores mais talentosos e carismáticos de sua geração, tendo estreado com o pé direito no excelente Fruitvale Station: A Última Parada e brilhado intensamente no fenômeno Pantera Negra (ambos escritos e dirigidos por Ryan Coogler), Jordan é hábil ao ilustrar a transição pela qual Donnie está passando, de jovem impulsivo e imaturo para pai de família responsável. Um feito realmente notável quando nos damos conta de que ele está dirigindo sua própria performance, tomando a corajosa decisão de estrear como cineasta.

Inteligente, ele conduz a narrativa discretamente, permitindo-se deixar sua marca apenas nas sequências de ação, quando fica evidente o seu desejo de trazer alguma novidade para a narrativa, como no eletrizante prólogo que apresenta Creed em uma luta decisiva: utilizando a câmera lenta de forma parecida com a de Guy Ritchie em Sherlock Holmes, Jordan filma com estilo, priorizando a ação mais visceral ao manter a câmera sempre próxima dos lutadores, cortando com parcimônia e estabelecendo com eficácia a geografia das cenas. Por outro lado, essa volúpia na busca pelo frescor acaba por lhe induzir ao erro de exagerar na luta final, quando tenta interpretar os conflitos psicológicos dos personagens de forma literal ao transportá-los diretamente para o ringue, rendendo momentos ligeiramente embaraçosos como aquele em que Adonis se vê encurralado numa cela de prisão, substituindo as cordas. Um equívoco normal para diretores de primeira viagem, cometido com a melhor das intenções, diga-se de passagem.

Preparando terreno para vindouras continuações em que o papel de Creed pode seguir vários caminhos distintos, Creed III contém todos os ingredientes exaustivamente aproveitados por outros filmes esportivos, mas também tem a sorte de contar com um diretor que, apesar da inexperiência, prova que sabe utilizar seus atores e personagens como o tempero que faltava a essa receita manjada, mas irresistível.


NOTA 7



Confira também as críticas dos filmes anteriores: Creed - Nascido Para Lutar e Creed II

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