Em 'Os Malditos', a guerra representa a falência humana como espécie
- Guilherme Cândido

- 20 de set.
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O cineasta Roberto Minervini pode ser italiano de nascença, mas vive há tempo suficiente nos Estados Unidos para ter uma boa noção do que levou o país em que reside há vinte e cinco anos a ter sua sociedade tão dividida, especialmente em tempos de polarização política. Não é por acaso que o realizador tenha escolhido Os Malditos como seu mais novo projeto, pois trata-se de uma história ambientada em 1862, no auge da Guerra Civil norte-americana.
Escrita e dirigida pelo próprio Minervini, a narrativa foge da grandiosidade de obras como 1917 e O Patriota, buscando um olhar mais intimista, tanto que troca sequências de ação por longas tomadas em que os soldados de um pelotão da União conversam sobre temas existencialistas, como se os campos gelados do estado norte-americano de Montana representassem um grande divã para aqueles homens que mal sabem explicar o motivo de estarem ali. Não há espaço para brados de patriotismo ou urros de bravura, apenas lágrimas de quem deixou um lar para trás, ou a indiferença de quem, sem uma família para o qual voltar, só está ali por dinheiro. O confronto armado não é um meio, é um fim. Na verdade, é O fim. Da humanidade, do homem.

A acuidade histórica e a atenção minuciosa ao realismo podem afastar espectadores que fazem vista grossa para ataques à suspensão da descrença, acostumados ao espetáculo hollywoodiano. Minervini não é o tipo de criador interessado em glamourizar a violência. Num campo de batalha, ele só consegue enxergar tristeza, e transmite essa sensação para o público com a contundência de uma lâmina bem afiada. O orçamento modesto também o impede de amplificar seu registro, condensado no mero objetivo de sobrevivência por seus desafortunados personagens.

Apesar de ser mais silencioso e menos dinâmico, Os Malditos possui um tiroteio que segue a mesma diretriz naturalista e verossímil de todo o restante da narrativa, com uma extensa batalha travada através de rifles e com efeitos colaterais desgastantes, quando não fatais. Tudo captado pelas lentes requintadas do diretor de fotografia mexicano Carlos Alfonso Corral, cujo olhar nos remete aos trabalhos de Terrence Malick. Há uma preocupação perene com a beleza estética, mas que não contradiz o viés realista da abordagem de Minervini. Dessa forma, uma caminhada por colinas cobertas de neve é filmada com a câmera sempre próxima dos atores, como se o espectador fizesse parte daquele grupo.

Sem se concentrar em personagens específicos, o roteiro joga os holofotes sobre o texto, que converte os soldados em almas perdidas, ou condenadas como sugere o título. Em meio a divagações acerca da Fé ou do apego à família, vemos homens com definições distintas sobre os motivos que o levaram a vestir aquela farda. Até porque, jamais descobrimos quem exatamente está por trás dos ataques sofridos pelo grupo. “São americanos como nós”, alguém lamenta em certo momento.

E essa talvez essa seja a maior reflexão provocada por Roberto Minervini, um italiano que pode até vislumbrar a vocação dos estadunidenses para o conflito, mas faz questão de apontar que, uma vez em guerra, estamos todos condenados.
NOTA 7,5









