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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival do Rio 2022 | Dia 3

Transition - Presença Invisível (Transition, 2022) | México


Assim como comentei na crítica que fiz de Império da Luz, o lockdown durante a pandemia de Covid-19 forçou o ser humano a se adaptar, obrigando-o a encontrar formas de utilizar o tempo livre. No caso de artistas como Sam Mendes, nascia a oportunidade de se dedicar a projetos mais pessoais, dando vazão à criatividade numa época repleta de incertezas.


Assim nasceu o filme que abriu o Festival do Rio 2022 e foi pouco depois dessa época que surgiu este Transition – Presença Invisível, gravado sob rigorosos protocolos sanitários pouco após a flexibilização do lockdown sul-africano. Dessa forma, assim que o filme começou e deixou claro que incorporaria a pandemia como elemento narrativo, não pude parar de pensar que esse período pode vir a se tornar um palco definitivo para realizadores que quiserem contar histórias específicas, como se uma nova janela se abrisse possibilitando o surgimento de um novo subgênero.


Na trama, após o governo sul-africano decretar o lockdown e fechar os aeroportos, a francesa Marie (Marie Boutonnet) acaba impedida de voltar ao seu país, sendo obrigada a permanecer na África do Sul enquanto espera por um novo voo. Sem ter para onde ir, ela aceita a ajuda de um amigo, que lhe oferece seu barco para abrigá-la durante a quarentena. Equipado com luz, água e um estoque satisfatório de mantimentos, o barco, atracado numa marina esvaziada em virtude do toque de recolher, serve de lar para Marie, que procura se manter ocupada. Numa bela noite, porém, sons estranhos vindo do convés lhe tiram o sono.


Diante dessa sinopse, é fácil imaginar Transition como um filme de gênero, utilizando do sobrenatural como pano de fundo para debater sobre os efeitos psicológicos da solidão durante a quarentena. O problema é que o roteiro parece não oferecer material suficiente para justificar um longa-metragem, o que explica a opção do diretor (o estreante Alejandro Torres Kennedy) de gastar um tempo precioso acompanhando a rotina nada interessante de Marie. Ao invés de se preocupar com o desenvolvimento de sua trama, Kennedy mostra a mulher realizando atividades banais e repare quantas vezes ela aparece limpando o convés com uma escova de dente. Com isso, o roteiro passa a impressão de que contará um drama e não um suspense, focando em Marie e suas atribulações, até que surge o primeiro som estranho.


Confuso em seu design, o som é suficiente para tirar o sono de Marie, mas não para assustar o público ou gerar expectativa, pois a direção não parece muito interessada em explorar o artifício como forma de provocar reações no público. Demorando demais até voltar a utilizar o famigerado som para atormentar Marie, a produção retoma o ritmo moroso e insípido que dominou o primeiro ato, fazendo com que o espectador questione as intenções por trás de Torres Kennedy.


Quando finalmente engrena, porém, dando prosseguimento ao flerte com o sobrenatural, Transition já está se encaminhando para o desfecho e mesmo que as explicações sobre o som sejam satisfatórias, elas chegam sem qualquer impacto, representando mais uma tarefa na lista cotidiana de Marie. Assim, o filme abandona a atmosfera fastidiosa da primeira metade para se tornar apenas agradável (note minha hesitação em escrever “interessante”), pois a revelação por trás da perturbação já foi tema de obras superiores e que souberam desenvolvê-la com mais energia.


A atriz Marie Boutonnet, estreando no Cinema, faz um trabalho apenas correto, mas se passa longe de comprometer, empalidece diante de encarnações semelhantes, como em Uma Canção de Amor, que vi ontem no Festival. Trivial demais, ela falha ao trabalhar o dom de sua personagem, que acaba dependente de diálogos expositivos para chegar ao espectador. Enquanto isso, a produção opta pela fotografia monocromática apenas para permitir uma mudança mais próxima do final, ilustrando o arco dramático da protagonista.


Demorando demais para engrenar, Transition – Presença Invisível gera mais curiosidade pelo contexto no qual está inserido do que por sua história em si, já que seu realizador parecia indeciso a respeito de que tipo de filme gostaria de fazer. O Festival do Rio parece ter sido o destino de boa parte dos filmes que surgiram na Pandemia, será uma tendência?


NOTA 5,5


 

Good Night Oppy (Idem, 2022) | Estados Unidos


Em 2003, a NASA enviou para Marte não apenas um, mas dois robôs exploradores (ou rovers) encarregados de estudarem o solo marciano. Batizados de Spirit e Opportunity, os rovers funcionariam por cerca de 90 dias, estimativa baseada numa espécie de “garantia” dada por engenheiros, mas acabaram passando (e muito) desse prazo, coletando dados que permitiram à agência espacial norte-americana fazer uma série de descobertas que nos ajudaram a entender melhor o Planeta Vermelho.


Apesar de obviamente influenciada por Wall*E, o simpático robô da animação Disney e vencedora do Oscar, e contar com uma linguagem menos rebuscada do que o esperado, a produção é capaz de se aproximar das crianças sem afastar o público mais velho. Sem conseguir se esquivar da notória aura propagandista que envolve este tipo de obra, Good Night Oppy é bem-sucedido não apenas como divulgação da NASA, mas também por mirar e acertar em cheio nos mais jovens, visando, quem sabe, futuros astronautas, engenheiros e cientistas.


Acompanhando desde o longo processo de planejamento da missão até os últimos sinais de comunicação dos robôs, o filme é hábil ao transmitir ao espectador todas as dificuldades enfrentadas pela equipe da agência norte-americana, mesmo que aqui e ali hiperbolize os efeitos de eventuais fracassos (em determinado momento, é dito que falhar durante uma etapa pode decretar o fim da NASA!), adotando a tradicional estratégia do prazo apertado para facilitar o engajamento do público. A energia maníaca de um entrevistado em específico (um engenheiro de robótica) também gera estranheza por destoar do comportamento sóbrio dos demais colaboradores.


Além disso, a atmosfera leve da história, corroborada por famosas canções dançantes e pela paixão contagiante de alguns entrevistados, contribui para uma experiência que atinge o equilíbrio perfeito entre informação e entretenimento, mesmo que para isso tenha que apelar para uma estrutura mais conservadora. No entanto, o grande trunfo do projeto é ser capaz de forjar um vínculo emocional entre o público e os robôs, uma proeza considerável, vale ressaltar. Inclusive, Good Night Oppy seria ainda melhor se optasse por focar seus esforços nas relações que se construíram a partir da criação do programa, quando várias pessoas de diferentes países e formas distintas de pensar, se reuniram para fazer dar certo uma ideia humanamente impensável há algumas décadas.


Ao invés disso, porém, o diretor Ryan White (Prop 8: O Casamento Gay em Julgamento) força algumas conexões que simplesmente não funcionam, estabelecendo o passado de figuras entrevistadas que não geram o vínculo imaginado, contribuindo apenas para aumentar a duração da projeção. Em contrapartida, por mais interessante que seja aprender sobre questões envolvendo a troca de informações com os robôs, os detalhes dos planejamentos e a forma como a missão é conduzida, é o lado humano que acaba sendo mais atraente, quando o filme nos mostra que por trás dos cálculos complexos está uma pessoa com sentimentos, muitos deles relacionados a um objeto de metal.


Celebrando a habilidade dos cientistas e engenheiros de solucionarem problemas, Good Night Oppy assume uma dinâmica previsível: assim que uma situação é apresentada, possibilitando ao filme expandir os bastidores, surge um obstáculo para complicar o trabalho dos funcionários da NASA e que é explorado até as últimas consequências pelo roteiro (lembre-se do exagero que mencionei alguns parágrafos atrás), quando finalmente chega a uma solução, obrigando a produção a recomeçar na etapa seguinte, sempre relembrando ao espectador do prazo inicial. Vale destacar também a trilha sonora do ótimo Blake Neely (Greyhound – Na Mira do Inimigo), que ajuda a estabelecer o tom da narrativa, provocando sensações distintas com melodias suaves.


Contando com imagens de arquivo poderosas aliadas a ótimas simulações em CGI, Good Night Oppy é extremamente eficaz ao construir um retrato simpático da NASA e seus inúmeros trabalhadores, proporcionando uma experiência agradável, didática e até mesmo emocionante em seus minutos finais, quando pegará o espectador desprevenido.


NOTA 7


 

Nostalgia (Idem, 2022) | Itália


Indo na contramão do cinema comercial, cujos blockbusters trouxeram a nostalgia à moda para explorá-la como chamariz comercial, em sofisticadas chantagens emocionais muitas vezes bilionárias, o cineasta italiano Mario Martone opta por jogar luz no aspecto agridoce desse sentimento majoritariamente recebido com doçura pelo público. Aqueles que esperam por uma obra de sensações complexas, mas positivas em última análise, são exatamente os que tomarão de Nostalgia o soco no estômago pretendido por seu realizador.


Não é por acaso que o protagonista se chame Felice (“Feliz” em italiano), numa ironia mordaz chancelada pela performance de Pierfrancesco Favino, que compõe o sujeito como uma mistura de contradições: Embora possua um casamento amoroso e seja bem-sucedido profissionalmente, Felice resolve voltar para Nápoles, sua cidade natal, após mais de 40 anos vivendo no Egito, o que explica sua ligação com o Islã e o sotaque carregado que adquiriu, mas não explica a expressão rígida que jamais sai de seu rosto, ou a postura discreta, quase culposa que adota ao caminhar pelas ruas e becos do bairro onde viveu até os 15 anos. O que será que o manteve longe por tanto tempo? Qual o motivo que o levou a partir?


Inicialmente, as perguntas que surgem são colocadas em suspensão quando o vemos reencontrar a mãe, já envelhecida e que demora a reconhecê-lo. Em momentos de genuína ternura, o filme se beneficia do zelo de Felice, que dedica seu tempo a cuidar daquela senhorinha debilitada, mas que não esconde a felicidade de ter o filho único por perto. É ele quem a coloca para dormir e dela ouve perguntas aparentemente profundas, mas que são tratadas com trivialidade, em momentos tocantes que só são superados pela sequência envolvendo um banho, filmada com sensibilidade por Martone.


Mas quando a relação dos dois chega ao inevitável fim e Felice insiste em permanecer no local, tornamos a questionar suas motivações. É quando descobrimos que Felice busca exorcizar seus demônios mais íntimos, todos presentes em memórias que surgem em função de estímulos externos, sejam através de uma rua emblemática por ter servido de palco para uma briga ou por ladeiras percorridas na garupa de uma moto, pilotada por um grande amigo que hoje não passa de uma lembrança. Qual o papel que esse amigo misterioso desempenhou em sua adolescência?


Ao descortinar os mistérios que envolvem o passado de Felice e atormentam seu presente, Nostalgia deixa de lado a pungência dramática que dominara o primeiro ato, para se entregar a uma jornada de busca que promete mais do que acaba entregando de fato. Martone planta o suspense, mas a personalidade de Felice jamais lhe permite fazê-lo florescer além do banal. Pierfrancesco Favino (que já havia lidado com a máfia napolitana em O Traidor), tão brilhante ao retratar o tumulto interno de Felice durante a primeira metade, se perde no meio do caminho, quando até a direção de Martone reforça a sensação de desconexão, desmembrando Nostalgia em duas fases distintas em tom e estilo.


Os flashbacks que se misturam às imagens contemporâneas dão o ar de confusão pretendido pelo diretor/roteirista, oferecendo ao espectador a possibilidade de mergulhar na psique de um homem que teima em se fechar e é respeitado pelo filme. Até demais. O que corrobora a tese de que como personagem, Felice jamais forja um vínculo mais profundo com o público, anestesiando-o ao invés de provocar catarse, embora sirva como um guia adequado em meio ao clima de suspensa que permeia o terceiro ato.


Abusando das sombras para transformar o lugar num ambiente repleto de mistérios e que não deixa clara a sua vocação (seria uma alegoria para a redenção ou para a condenação de Felice?), Nostalgia desfere no público um golpe ainda mais poderoso nos minutos finais de sua projeção, assumindo-se como um conto de advertência que, em suma, ressoa muito menos do que se espera, equivocando-se ao se afastar do drama para abraçar um thriller pouco atraente.


NOTA 6,5

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