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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival do Rio 2022 | Dia 8

Holy Spider (Idem, 2022) | Irã


Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi) é uma jornalista que acaba de ser demitida por recusar as investidas sexuais de seu chefe. Agora trabalhando como freelance, ela investiga o caso de um serial killer conhecido como Spider Killer, que vem assassinando prostitutas na cidade sagrada de Mashhad. Ela eventualmente acaba se aliando a um repórter do jornal local, com quem o assassino tem se comunicado por telefone. Mas diante de uma sociedade tão sexista, será mesmo que alguém se interessa em ver o Spider Killer preso? Afinal de contas, estamos diante de um misógino que alega estar numa missão para “purificar” as ruas sacras das mulheres “imorais”.


Escrito e dirigido pelo iraniano Ali Abbasi (do peculiar Border), a produção chama a atenção logo de cara por exibir mulheres (em locais privados) sem os tradicionais hijabes, que cobrem parte do rosto e do cabelo, cujo desconforto é incorporado à história, quando o recepcionista de um hotel pede a Rahimi que cubra seu cabelo. Aliás, nessa mesma sequência, Holy Spider já retrata a mentalidade tacanha que domina a sociedade, colocando o mesmo recepcionista para negar um quarto à jornalista somente pelo fato de ela não estar acompanhada de um homem.


Mais do que um território hostil às mulheres, Mashhad é dominada pelo fundamentalismo religioso, que rege os costumes locais como se ainda estivéssemos na Idade Média. Nem a Mídia escapa, como fica claro na passagem em que Rahimi e seu colega solicitam acesso ao caso, mas ouvem de uma autoridade que “o trabalho do jornalista é informar, não espalhar o medo”, numa clara afronta à liberdade de imprensa.


Toda essa ambientação serve como diferencial num roteiro estruturado como um típico filme de serial killer, incluindo clichês (o colega do investigador, o envolvimento da polícia, o forasteiro desprezado pelos locais) que são utilizados para compor uma narrativa incomum no Cinema Iraniano, mas que é enriquecida por incorporar elementos da cultura local. Entretanto, embora se assuma como um exercício de gênero, a ideia do realizador Ali Abbasi de não explorar o mistério em relação à identidade do assassino, revelando-a logo nos primeiros minutos, lhe dá liberdade para se aprofundar em suas motivações, que são utilizadas como uma crítica frontal à visão dos radicais religiosos, possuindo alto potencial de choque (e revolta) em plateias ocidentais.


Investindo numa atmosfera crua acentuada pela fotografia granulada (referenciando as obras de Michael Mann) e a trilha pesada à base de sintetizadores, Holy Spider busca um grau de realismo que chega a impactar em certos momentos (a cena de sexo oral explícito, o encontro do vilão com uma prostituta determinada a reagir), ressaltando a coragem de um cineasta decidido a provocar o governo de seu país. Nesse ponto, a escalação de Zar Amir-Ebrahimi, atriz iraniana expatriada em função de um controverso escândalo sexual (hoje ela vive em Paris), já apontava para essa disposição ao confronto. Ebrahimi que, vale ressaltar, conquistou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, traz disciplina e firmeza a um papel que poderia descambar para a artificialidade e/ou o melodrama caso caísse em mãos menos hábeis.


Com um final tão revoltante quanto chocante ao mostrar como o caso real inspirou uma parcela considerável da população (masculina, é claro) a externar apoio ao assassino, Holy Spider é um filme de gênero pulsante e que merece aplausos pela coragem em agregar críticas necessárias a um país que ainda está muito longe de sair da Idade Média.


NOTA 8,5


 

A Babá (Nanny, 2022) | Estados Unidos


Em Nova York, Aisha (Anna Diop, a Estelar da série Titãs) é uma imigrante Senegalesa em Nova York buscando viver sua própria versão do sonho americano. Juntando dinheiro para trazer seu filho do Senegal, ela recebe uma proposta irrecusável: trabalhar como babá de uma adorável menininha, filha de um casal de ricaços. Amy (Michelle Monaghan, a ex-esposa de Ethan Hunt na franquia Missão: Impossível) oferece a ela toda a infraestrutura necessária para realizar um bom trabalho, incluindo um meticuloso fichário contendo informações das mais diversas esferas. O problema é que Aisha aos poucos percebe que o ambiente no qual se encontra, talvez não seja tão hospitaleiro como havia julgado.


Optando por investir na atmosfera, a diretora estreante Nikyatu Jusu assumiu um risco considerável de decepcionar os espectadores que estejam procurando por um terror convencional. Afinal, Nanny é produzido pela Blumhouse, produtora famosa por engrossar o gênero com obras baratas e de extremo sucesso. O que Jusu faz é aproveitar o ótimo design de produção para construir um clima de estranheza. Tudo parece feito sob medida para se opor a Aisha: enquanto seu apartamento surge apropriadamente pequeno, sob luzes quentes e com paredes pintadas de vermelho, sugerindo calor e intensidade, o luxuoso apartamento localizado no Upper East Side (área nobre da Big Apple) é espaçoso, repleto de janelas e tomado por cores frias. E se tem uma coisa que Jordan Peele ensinou com seus ótimos Corra! e Nós é sempre desconfiar quando uma família caucasiana resolve receber uma pessoa negra.


Com o cenário estabelecido, ficaria fácil para Jusu seguir o caminho mais simples, investindo numa narrativa mais clássica e aderente ao gênero, mas ela opta por concentrar sua atenção no choque de classes, especialmente através dos diálogos (“prefiro ser escrava aqui do que no Senegal, pois aqui pelo menos ganho dinheiro”, Aisha justifica ao perguntarem seu motivo para ter trocado de país). O roteiro, também de autoria de Jusu, abarca igualmente a tensão racial que vem se tornando cada vez mais frequente em obras do gênero (outra influência de Jordan Peele), aqui representada por uma sequência em que Aisha, conversando com outras babás durante um passeio no parque, ouve um deboche sobre seus patrões, com os brancos sendo chamados de “eles” numa interação que reforça as diferenças.


Ainda que seja relativamente satisfatório ao pintar seu drama social com tons de terror, a realizadora Jusu claramente se rende às necessidades comerciais do projeto (interferência do estúdio?) nos momentos em que se obriga a incluir jump scares completamente desconectados do restante da história, além de abusar das sequências de pesadelo. Aumentando a suspeita de interferência externa, Nanny também inclui uma cena final que parece ter sido concebida para driblar o encerramento abrupto originalmente proposto. No entanto, o efeito é basicamente o mesmo, com o agravante de soar mais forçado em virtude do que acontece em seus segundos finais.


Eficaz como drama, mas confuso ao tentar incluir elementos de Terror, Nanny se beneficia da excelente atuação de sua protagonista para conduzir o espectador por uma história mais interessada pelo subtexto do que por elementos mais escancarados, o que pode desagradar aos desavisados.


NOTA 7


 

Corsage (Idem, 2022) | Áustria


Assim como aconteceu com Lesley Manville esse ano em Sra. Harris Vai a Paris, Vicky Krieps, cinco anos após Trama Fantasma, está novamente envolvida com produtos da alta costura europeia. Desta vez, no entanto, a atriz luxemburguesa deixa de lado o papel de mera modelo, para encarnar a Imperatriz Elisabeth da Áustria, carinhosamente apelidada de Sissi. Corsage, por outro lado, constrói um retrato ficcional dos últimos anos de vida da monarca. Escrito e dirigido pela austríaca Marie Kreutz (O Chão Sob Meus Pés), o filme se desenvolve como uma mistura de Spencer e Maria Antonieta, ao apresentar uma figura grande demais para ser espremida na jaula de costumes da Realeza enquanto toma algumas liberdades artísticas através de pequenos anacronismos.


Encarnando Sissi como um espírito livre, Vicky Krieps (A Luta de Uma Vida) tem a primeira grande oportunidade de comprovar seu talento, já que vem de uma série de projetos que não exigiram muito de suas habilidades. Aqui, Krieps é hábil ao fazer de Elisabeth uma mulher inquieta, desconfortável com as limitações impostas pelo ambiente sisudo que habita. Carecendo do carisma de Kristen Stewart no supracitado filme sobre a Princesa Diana, e da simpatia de Kirsten Dunst como Maria Antonieta, a atriz descoberta por Paul Thomas Anderson se sai relativamente melhor ao retratar o lado acrático de sua personagem.


Com figurinos que prezam muito mais pela beleza estética do que por um eventual reflexo da personagem, a reconstituição de época impressiona pelos valores de produção, evidenciados pelos corredores dos suntuosos palácios retratados, mas também pelo cuidado com detalhes que acabam refletindo elementos da própria história, como no imenso retrato do Imperador Franz Joseph numa das salas onde se encontra Elisabeth e que ecoa não apenas seu narcisismo como também a onipresença na vida da mulher. Tão falsa quanto as costeletas que usa em suas aparições públicas, o relacionamento do Imperador com Elisabeth é utilizado como mais um dos catalisadores de uma postura marcada pela imprevisibilidade.


É curioso notar, entretanto, como a cineasta Marie Kreutz se permite trair a época que ambienta sua história (1878). Há a presença de um cinematógrafo, por exemplo, além de peças (de figurino e da arquitetura) que só viriam a aparecer anos mais tarde (e uma brincadeira hilária envolvendo o comentário sobre o desejo por um aparelho que viria a ser conhecido como ar-condicionado), num esforço anárquico que acaba indo ao encontro da mentalidade da protagonista. O tempo, aliás, torna-se um elemento central da narrativa. Afinal, estamos falando da história de uma protagonista que é dada como velha aos quarenta anos de idade.


Servindo como um estandarte do feminismo ao gozar de uma liberdade incomum para a época, Sissi permanece interessante até o final, com a postura irreverente já consolidada. Assim, aqueles que estiverem buscando por uma reconstituição fiel poderão sair desapontados, já que a realizadora Marie Kreutz está mais interessada no caráter ficcional de sua obra, o que não elimina seus méritos artísticos, especialmente alcançados através de uma direção de arte acurada e uma interpretação despojada de sua protagonista.


NOTA 6,5


 

Broker - Uma Nova Chance (Broker, 2022) | Coreia do Sul


O realizador japonês Hirokazu Kore-eda sempre mostrou um olhar apurado para as relações humanas, o que explica o sucesso de seus dramas familiares, como Depois da Tempestade e Assunto de Família vencedor da Palma de Ouro e exibido no Festival do Rio 2018. Entretanto, com quase 30 anos dedicados ao Cinema através de obras memoráveis, é estranho vê-lo tentar replicar o que deu certo em seu mais premiado filme, já que Broker – Uma Nova Chance é claramente influenciado por aquela obra. Se em Assunto de Família éramos apresentados a uma família disfuncional cujos laços se davam pela necessidade de sobrevivência e não de sangue, aqui o grupo heterogêneo é formado por figuras ligadas por aspirações diferentes, mais moralistas do que o esperado.


O roteiro desta vez é inspirado por elementos reais, mais precisamente as chamadas “baby boxes” de Seul (compartimentos criados em igrejas para receberem anonimamente bebês indesejados), popularizadas depois que o governo sul-coreano, diante do aumento do número de recém-nascidos abandonados (fruto de uma recente lei criada para proteger os direitos dos bebês), passou a incentivar a adoção doméstica, agilizando o processo de transferência da mãe biológica para os pais adotivos.


Surge então So-young (Ji-eun Lee), que após colocar seu filho na baby box de uma igreja, muda de ideia e resolve voltar para busca-lo, quando descobre que o mesmo foi levado por dois voluntários que implementam um engenhoso esquema na instituição. Primeiro, eles apagam o vídeo de vigilância, que comprovaria a entrega do bebê, para depois negociarem o recém-nascido no mercado negro de adoções, dividindo generosas quantias em dinheiro. Ameaçando denunciar a dupla para a polícia, ela exige acompanhar os criminosos numa viagem de van em busca de pais adotivos que lhe agradem.


Apesar de se tratarem de traficantes de bebês, os criminosos são retratados por Kore-eda longe de serem bandidos vis e escabrosos (como seria de se esperar), e sim como pessoas amáveis que acreditam piamente estarem prestando um serviço nobre (afinal, estão driblando a burocracia ao entregarem a criança com a conivência da própria mãe). Também ajuda o fato de um deles, o mais experiente, ser vivido por Song Kang-ho (o patriarca de Parasita), cujo carisma imediatamente o ajuda a ganhar o espectador e faz jus ao prêmio de Melhor Ator que recebeu em Cannes.


Porém, além da óbvia repetição da dinâmica entre os criminosos, a jovem rebelde e um adorável menino fã de futebol (e do jogador Son!) que entra escondido na van, Kore-eda jamais consegue se esquivar do melodrama, seja ao abordar o passado de Dong-soo (Dong-won Gang), o outro criminoso, ou as motivações de So-young. No entanto, o mais decepcionante é a forma como o realizador estrutura sua obra (um tradicional road movie), inchando a projeção com subtramas que não chegam a ser desenvolvidas a contento (especialmente a misteriosa mulher de preto que possui uma ligação com So-young e surge pela primeira vez com mais de uma hora de filme).


E se Kore-eda é eficiente ao mostrar como o grupo sabe aproveitar as pequenas coisas (um acerto tirado diretamente de Assunto de Família, vale ressaltar), é triste constatar como tecnicamente a produção também não demonstra regularidade. O som, por exemplo, até merece elogios por ilustrar os tormentos que permeiam a mente de So-young (o choro do bebê), mas o figurino é óbvio ao limitar-se à dicotomia “tons claros para mocinhos” e “roupas pretas para os vilões”. Para piorar, o cineasta comete o deslize de colocar seus personagens contando e explicando casos que ambos viveram (a sequência de Dong-soo no orfanato).


Esquemático e previsível a ponto de lembrar aquelas produções exibidas na Sessão da Tarde, Broker – Uma Nova Chance já seria suficientemente decepcionante por desperdiçar a oportunidade de agregar ao debate sobre o aborto e à desvalorização da mulher no oriente, mas tudo fica ainda pior quando nos damos conta de que o roteiro é assinado por um grande diretor/roteirista como Hirokazu Kore-eda, representando um raro tropeço em sua longeva carreira.


NOTA 5


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