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Festival do Rio 2025 | Dia 3

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 5 de out.
  • 11 min de leitura

O Acidente do Piano (L'Accident de Piano, França)

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Sátiras sobre o culto à personalidade são feitas aos montes, principalmente hoje em dia, em que há matéria-prima de sobra. Afinal, nunca foi tão fácil ficar famoso. Aliás, é exatamente isso que acontece com Magali, jovem que após viralizar na internet fazendo vídeos no estilo Jackass, ganhou dinheiro suficiente para comprar uma ilha e continuar rica. A trupe de idiotas (é a tradução de "Jackass") conquistou o mundo produzindo um programa em que seus integrantes machucavam uns aos outros. Se a dor é tolerável quando provocada em troca de milhões, o que dizer de alguém incapaz de sentí-la?

 

Sim, Magaluche (como se apresenta nos vídeos) é portadora de uma doença que a impossibilita de sentir dor, não apenas aquela infligida a si, como também nos outros, já que não demora muito até descobrirmos que a moça não faz muita questão de ter empatia, assumindo uma persona antipática com absolutamente todos à sua volta.

 

Escrito e dirigido pelo francês Quentin Dupieux, O Acidente do Piano começa com Magali e seu assistente Patrick (Jérôme Commandeur) chegando a um luxuoso chalé, fugindo de algo aparentemente terrível. A imagem de um piano pendurado a vários metros de altura paira sobre a narrativa (até a trilha sonora de Martin Caraux vai na onda), numa via de mão dupla em que além da maldição sobre a protagonista, serve como um lembrete contínuo de que algo ainda pior pode estar por vir.

 

Dupieux, um autor confortável em trabalhar com o absurdo, como visto no hilariante Daaaaaalí! (2023), Provoca risadas e desconforto com facilidade, mas nem sempre de forma equilibrada. A personalidade desagradável de Magali (e é preciso muita habilidade para transformar a adorável Adèle Exarchopoulos numa megera insuportável), mais irrita do que diverte na maior parte do tempo.

 

Exarchopoulos desaparece completamente num tipo de papel diametralmente oposto ao que estava acostumada a interpretar. De cabelos curtos e com movimentos limitados por uma tipoia e um colar cervical (lembremos do ganha-pão de sua personagem), a atriz adota uma fala entre dentes que só não é mais irritante do que a risada cuidadosamente criada para fazer o espectador desejar uma morte brutal a Magali.

 

E realizador francês aproveita essa caracterização extrema para criar uma galeria paradoxal de personagens. Não por acaso, a mais simpática, aprazível e educada figura a aparecer na tela, revela-se uma chantagista. Segundo o roteiro, todos acabam se vendendo em algum momento, seja por fama, dinheiro ou respostas.

 

Dupieux, por outro lado, também faz um comentário dilacerante sobre a facilidade com que alguém pode conquistar esses três objetivos (ou ao menos os dois primeiros), fazendo de O Acidente do Piano um conto de advertência, como se alertasse ao público “cuidado com quem você alça à fama”. Em tempos de TikTok, rolagem infinita de vídeos curtos e dependência de endorfina, qualquer um pode viralizar sem fazer o menor esforço.

 

Abandonando qualquer esperanca de redenção no ato final, Quentin Dupieux não economiza no pessimismo ao retratar sua visão do que se tornou o ambiente digital e a relação entre quem produz e quem consome seus conteúdos, rendendo, por tabela, um filme que totalmente aberto aos efeitos da comédia de humor negro (para o bem e para o mal).


NOTA 7



Love Kills (Idem, Brasil)

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Não só de grandes filmes vive a Première Brasil, mostra do Festival do Rio dedicada exclusivamente a produções nacionais (não por acaso, é considerada a maior vitrine do nosso Cinema), como comprova Love Kills, infelizmente. Escrevo “infelizmente”, pois fazer Cinema no Brasil passa muito longe de ser uma tarefa fácil e no cenário independente, o esforço é triplicado. Ainda mais se tratando de um filme de gênero. Então é sempre muito triste quando o resultado visto nas tela não reflete o esforço hercúleo de uma numerosa equipe de artistas apaixonados pelo que fazem.


Tal paixão é sentida, por exemplo, na iluminação e na fotografia, estilizadas no ponto certo para construírem imagens não apenas harmoniosas, com forte apelo estético (a cena da escadaria em contraluz, a luta sob um véu vermelho), mas também que agregam à narrativa, como na combinação entre verde e vermelho que corrobora a dualidade dos personagens. A direção de Luiza Shelling Tubaldini (Perdida) também representa um ponto positivo, seja pela boa condução das sequências de ação ou pelo posicionamento sempre elegante da câmera.


Em contrapartida, o roteiro, também assinado por Tubaldini, fica muito aquém dos citados predicados técnicos, sabotando qualquer possibilidade de a produção ser levada a sério. Não que Love Kills demande seriedade absoluta, pois o flerte com o camp não é feito à revelia, mas o desenvolvimento da trama, bem como de seus personagens, é prejudicado por uma falta de cuidado que, creio, virá com o tempo para Tubaldini.


Adaptada dos quadrinhos de Danilo Beyruth, a narrativa é uma verdadeira colcha de retalhos que absorve vários elementos exaustivamente explorados pela Indústria hollywoodiana, colocando Marcus (Gabriel Stauffer, de O Livro dos Prazeres), um jovem de passado problemático tentando ganhar a vida em São Paulo, no caminho de um grupo de vampiros. Que por sua vez está atrás de outra chupadora de sangue, Helena (Thais Lago, a Elisa da série 3%), por quem o protagonista tem uma leve queda. Claro que em algum momento a casca grossa da mulher irá ceder aos impulsos românticos do inocente Marcus, tornando o inevitável confronto vampírico ainda mais dramático.


Assumindo um visual claramente inspirado na Niobe de Matrix, Helena é uma derivação do arquétipo durão que costuma aparecer em fantasias como essa. Thais Lago se esforça, mas é sabotada por diálogos engessados e irregulares, ao passo que Stauffer, num papel normalmente oferecido a Jay Baruchel em Hollywood, se sai melhor ao captar os conflitos psicológicos de Marcus. Bom ator que é, merecia um arco menos previsível, ainda mais para compensar a presença num dos momentos mais constrangedores da produção, quando seu personagem, testemunhando o poder de cura de Helena pela primeira vez, solta um risível “isso não é humano!”.


O humor involuntário se faz presente mais vezes, seja pela precariedade dos diálogos ou por furos narrativos. Ora expositivos, ora formais demais para uma conversa comum, ora simplesmente ridículos, ora tudo isso ao mesmo tempo, Love Kills perde força quase sempre que um personagem resolve abrir a boca (exceto para morder um pescoço). E poucas vezes nesse Festival do Rio vi uma plateia rir tanto como na cena em que alguém saúda Helena com um infame “olá, cadela!”. Também é difícil de defender um longa-metragem onde alguém é chamado para comer um hambúrguer, mas antes da terceira mordida, larga tudo e parte para outra (sem pagar a conta, diga-se de passagem).


Já São Paulo, uma cidade multifacetada por natureza, tem seu potencial cosmopolita desperdiçado, sendo utilizada apenas para transições repetitivas e algumas sequências com personagens caminhando. Exibindo sacos de lixo por toda a parte, uma alegoria sobre a possível decadência dessa metrópole (abarrotada de pessoas em situação de rua) cai por terra quando baladas semelhantes às vistas em Blade e Constantine tomam a tela de assalto. Da mesma forma, o figurino segue um padrão já desgastado dos filmes do gênero, trazendo personagens trajados de couro e com acessórios pontiagudos.


Inacreditavelmente interrompendo a grande luta climática para uma rapidinha entre o pombinhos protagonistas, Love Kills é uma produção com inegável potencial e comandado por uma diretora promissora o bastante para receber outras oportunidades no futuro, pena que sucumbe tão dramaticamente a um roteiro tão limitado.


NOTA 2



Made in Europe (Made in EU, Bulgária)

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Um marco na história de nossa civilização, o período pandêmico já rendeu obras das mais variadas mídias e continuará rendendo por muitos anos mais. Quis o destino que o mais completo retrato dessa época sombria fosse produzido fora da indústria hollywoodiana, mais especificamente na Bulgária, país da região oriental da Europa.


Repleto de gatilhos, vale alertar, a trama acompanha Iva (Gergana Pletnyova) mulher de meia-idade que trabalha mais de doze horas diárias numa fábrica têxtil do interior búlgaro. Apesar da rotina quase escravagista, ela não pode faltar um dia sequer, sob pena de perder um bônus, isto é, a outra metade do salário. Quando ela se sente mal, sua saída é ir ao médico em busca de um atestado, a fim de escapar da punição, mas é surpreendida pela decisão do médico de declará-la apta para o serviço. A essa altura, a COVID está concentrada apenas na capital Sofia, até Iva finalmente sucumbir ao cansaço e descobrir ter contraído a temida doença.


Não bastasse conviver com o risco de morte em função da até então misteriosa condição, ela acaba culpada por toda a cidade por ter trazido a pandemia, sendo nomeada “paciente zero”. Ora, mas como pode uma mulher que há anos só faz trabalhar, sem férias e jamais tendo deixado seu país, ficar exposta ao vírus? Enquanto é achincalhada publicamente, sendo impedida até de entrar em mercados, Iva aos poucos percebe ter sido escolhida como bode expiatório de um esquema sujo envolvendo vários níveis da sociedade.


Rodado num realismo quase documental, Made in Europe resgata toda a atmosfera de incertezas e paranoia que pairava em 2020, sem medo de pegar pesado na hora de ilustrar as consequências da disseminação de fake news. Aliás, o roteiro escrito por Simeon Ventsislavov em parceria com o diretor Stephan Komandarev costura uma trama complexa a partir de um efeito cascata desenvolvido com paciência e profundidade. O senso de urgência alcançado por Komandarev é outra virtude a ser celebrada.


Entre pessoas que furam a quarentena com medo de perderem o próprio sustento e empresários preocupados apenas com o lucro, faltou apenas incluir os famigerados negacionistas, parcela barulhenta presente em praticamente todos os países. Também é sentida a ausência de uma cobertura maior das pesquisas, que incluíam cientistas do mundo todo tateando no escuro em busca de uma cura. Em meio ao caos instaurado, Komandarev ainda encontra espaço para destrinchar o relacionamento de Iva com o filho, que sofre os efeitos colaterais de ser considerado o principal culpado pela chegada do vírus.


Implacável ao criticar a participação da Mídia e pesado ao lidar com perdas, Made in Europe é uma produção potente, bem realizada e que se dá ao luxo de encerrar a projeção de forma impecável, chocando o espectador com uma utilização mais do que eficaz do foreshadowing.


NOTA 8



Desperta-me (Turn Me On, EUA)

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Você Está Contente?


A frase (uma espécie de cumprimento travestido de preocupação) mais ouvida em Turn me On, no original, sintetiza com perfeição uma narrativa que busca brincar com as noções de satisfação e felicidade, conceitos frequentemente confundidos ou misturados.  Na trama escrita por Angela Bourassa (Black Bags), uma empresa desconhecida financia um experimento que busca eliminar sentimentos que costumam minar o bem-estar alheio. Num protótipo de comunidade idílica, pessoas aceitam tomar diariamente comprimidos que inibem sensações como medo, ansiedade, vergonha e até luto. Ou seja, tudo aquilo também responsável por nos tornar humanos. Nesse lugar, os indivíduos são divididos em casais e ocupam casas meticulosamente decoradas e cuidadosamente equipadas para oferecerem o grau exato de felicidade que seus habitantes necessitam. Ou seria satisfação?


Entram em cena Will (Nick Robinson, de Com Amor, Simon) e Joy (de White Boy Rick), supostamente os primeiros a deixarem de tomar as tais vitaminas. Tal decisão os deixa vulneráveis psicologicamente, mas também lhes apresenta ao amor e ao sexo (não necessariamente nessa ordem).


Apresentando-se inicialmente como uma ficção científica dura e com visual esterilizado, aos poucos o humor vai tomando conta. O desconforto, antes uma tônica, se transforma em punchline e oferece oportunidades para o elenco adotar composições estóicas. Robinson, ex-queridinho dos filmes adolescentes, exibe o mesmo olhar sincero e ingênuo de sempre, mas não agrega nuances a Will, que acaba se tornando uma criação reacionária nas mãos do ator. Powley se sai relativamente melhor, uma vez que Joy é a primeira a se submeter a experiências mais intensas.


As conversas encaradas como agradáveis, são contraproducentes justamente porque não permitem discordâncias. Ora, se todos possuem a mesma opinião e o diferente é repreensível, o debate morre. Talvez seja uma solução extrema para a toxicidade das redes sociais, que representam o exato oposto da comunidade vista aqui. O contraditório é essencial, claro, mas o equilíbrio é saudável. Afinal, viver é assumir riscos. O medo é mais do que um instinto de sobrevivência, é também um atestado de vivência. É normal ter sensações desconfortáveis. Aliás quem pode definir o que é ou não normal?


Indo na linha de Quando Te Conheci (2015) e da série Ruptura, Desperta-me parte de uma distopia para esmiuçar o que nos torna humanos, imaginando situações em que a ausência de humanidade nos transforma em máquinas perfeitas. E Mais cedo ou mais tarde seus personagens acabam descobrindo que uma vida sem o contraponto dos sentimentos negativos, é uma vida incompleta. Uma lição valiosa em tempos onde a sociedade está mais vulnerável do que nunca a a problemas de ordem psicológica.


Talvez falte ao diretor Michael Tyburski o mesmo ímpeto exploratório de seus personagens, limitando-se a um escopo milimetricamente desenhado para impedir que a narrativa fuja de controle. Pode não ser o mais criativo ou espirituoso projeto a destrinchar esses tópicos, mas é eloquente o bastante para merecer ser ouvido.


NOTA 6



A Meia-Irmã Feia (Den Stygge Stesøsteren, 2025)

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Reimaginar contos de fada a partir do ponto de vista de seus vilões não é algo necessariamente recente. Angelina Jolie, por exemplo, protagonizou duas distintas abordagens de A Bela Adormecida. Aliás, Hollywood tem demonstrado certo fascínio por seus mais clássicos antagonistas. Ainda no campo das histórias infantis, tivemos Cruella (2021) mostrando as origens da estilista de 101 Dálmatas (1961). Contudo, nenhuma produção foi tão longe como este norueguês A Meia-Irmã Feia ao mostrar o outro lado do clássico Cinderela.


Ao invés de adotar a perspectiva da Gata Borralheira, o filme escrito e dirigido por Emilie Blichfeldt dá voz a Elvira (Lia Myron) uma de suas irmãs desprezíveis, mas que possui seus motivos para agir da forma como todos conhecemos. Sim, ela é invejosa e muitas vezes maldosa, mas também é tremendamente insegura por se considerar feia e gorda, uma impressão que só piora quando ela passa a conviver com uma das mais famosas (e bonitas) princesas da Disney.


Que só acontece porque sua mãe decide se casar com um homem supostamente rico, mas cuja morte repentina - pouco tempo depois da cerimônia nupcial -, revela estar em seríssimos apuros financeiros. Sem dinheiro, Elvira torna-se sua maior esperança para fisgar um jovem aristocrata capaz de tirá-las de vez da lona. Para isso, no entanto, a moça que tanto gosta de comer (especialmente doces), é obrigada a se submeter a procedimentos estéticos que denunciam a precariedade de recursos técnicos da época.


Por mais que o roteiro funcione ao estabelecer um paralelo entre as transformações físicas de Elvira e sua obsessão por aceitação (algo possível apenas através de um alto preço), é a mudança de foco em relação ao material de origem que acaba se tornando seu ponto mais forte. Afinal, antes de competência, é preciso ter coragem para pegar uma história patriarcal sobre uma jovem sendo salva pela beleza, para construir uma alegoria sobre padrões estéticos e seus efeitos na autoestima das mulheres.


Sem contar as oportunidades para jogar luz sobre pontos normalmente obscuros do clássico literário: Já que a ideia é priorizar a perspectiva das personagens secundárias, Blichfeldt aproveita para mostrar, por exemplo, a luta da madrasta de Cinderela para garantir a sobrevivência da família, considerando a tragédia que invadiu sua vida de supetão. Além disso, defende a tese de que a futura princesa não era exatamente uma santa, comprovando o peso de intervenções mágicas a seu favor. Intervenções estas que foram tremendamente injustas quando consideramos todo o esforço de Elvira e o contexto desfavorável no qual estava inserida.


Quando fracassar não é uma opção, mesmo que tudo conspire para tal, é preciso recorrer a atitudes extremas e a diretora não economiza nos detalhes para mostrar até onde Elvira está disposta a ir para atingir seus objetivos. Nesses momentos, A Meia-Irmã Feia deixa a aura fabulesca de lado para abraçar o grotesco, investindo em sequências incômodas, seja pelo uso ostensivo do gore ou até mesmo através do design de som, que transmite com perfeição não apenas a fome da moça, mas a presença do verme que ela mesma ingeriu com o intuito de emagrecer (atitudes extremas, não disse?). Membros masculinos eretos, fluidos corporais, cadáveres em decomposição, mutilações e cirurgias graficamente detalhadas fazem parte do pacote que justifica a presença do filme na mostra Midnight Movies do Festival do Rio 2025.


Dando-se ao luxo de salpicar referências sutis a elementos consagrados de Cinderela (a abóbora, o ratinho e até a fada madrinha pipocam na tela em algum momento), Den Stygge Stesøsteren compensa a falta de originalidade conceitual com um discurso relevante, atual e referendado pela abordagem arrojada de uma jovem e promissora cineasta.


NOTA 7,5


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