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Festival do Rio 2025 | Dia 4

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 6 de out.
  • 8 min de leitura

Conselhos de um Serial Killer Aposentado

(Psycho Therapy: The Shallow Tale of a Writer Who Decided to Write About a Serial Killer, EUA)


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Steve Buscemi, John Magaro e Britt Lower, esse é o trio protagonista do filme com o maior título original desta edição do Festival do Rio, quiçá de todas. Buscemi, com vasta experiência cômica e um currículo diverso que inclui colaborações com os Irmãos Coen (os ótimos Fargo e O Grande Lebowski) e besteiras ao lado de Adam Sandler (Billy Madison: O Herdeiro Bobalhão e Gente Grande), há algum tempo reivindicou seu lugar também na ala dos atores dramáticos. Se alguém duvidar de seu talento, basta ver alguns episódios da espetacular série Boardwalk Empire: O Império do Contrabando (2010-2014), produzida por ninguém menos do que Martin Scorsese.


Conselhos de um Serial Killer Aposentado, exige ambos os predicados do ator, que fascina e diverte na mesma medida como Kollmick, o misterioso sujeito que aborda um escritor medíocre oferecendo a ideia de fazer um livro sobre um serial killer. Como se isso não fosse estranho o bastante, ele mesmo se apresenta como um, embora garantindo estar aposentado. Para Keane, o ébrio autor, tal acontecimento cai como uma luva, já que sua carreira encontra-se estagnada, o que desagrada imensamente a esposa, Suzie, infeliz num relacionamento em que ela é quem deve tomar todas as decisões. Até que numa noite, ela acaba descobrindo Kollmick, que para livrar a cara de Keane diz ser um conselheiro matrimonial contratado para ajudar o casal.


A produção com fortes traços absurdos, é escrita e dirigida pelo turco Tolga Karaçelik, que ainda tem a sagacidade de transformar o modus operandi do suposto homicida numa receita de sucesso para salvar o casamento de seus clientes de araque. Tais momentos, com um Steve Buscemi seríssimo a la Leslie Nielsen, são apenas algumas das cartas na manga de Karaçelik. O cineasta ainda é bem-sucedido em fomentar outras intrigas, especialmente aquela em que Suzie cisma que seu marido quer assassiná-la.


A boa química do elenco e piadas que tiram proveito do absurdo da narrativa (uma lhama chega a aparecer, por exemplo), contribuem para uma atmosfera que cumpre a promessa de arrancar altas gargalhadas justamente por não ter medo de abraçar a natureza estapafúrdia do material de origem. Pena que Karaçelik jamais desvenda os mistérios acerca de Kollmick. A dúvida sobre a veracidade de seu relato impede o espectador de se entregar de corpo e alma, deixando margem para uma reviravolta que, na verdade, nunca acontece (e nem deveria). Magaro (de Vidas Passadas) surpreende ao explorar o humor, unindo comédia física e autodepreciativa com inédita eficácia, ao passo que Lower, em alta com a excelente série Ruptura, aproveita o melhor arco do roteiro. Que por sua vez merece créditos por subverter convenções da Comédia Romântica, como no uso dos amigos do protagonista (a de Suzie não hesita em fortalecer a tese de que Keanie é um assassino).


Inteligente o bastante para concluir um arco dramático específico de forma surpreendente, Conselhos de um Serial Killer Aposentado é uma comédia de humor negro não palatável para todos os gostos, mas deliciosa para quem se arriscar a saboreá-lo.


NOTA 7

Um Poeta

(Un Poeta, Colômbia)


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Escolhido pela Colômbia para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Intermacional, algo que não acontece há dez anos, quando o bom O Abraço da Serpente perdeu para o excelente húngaro O Filho de Saul, Um Poeta é dirigido por Simón Mesa Soto de forma a provocar gargalhadas ininterruptas do público mesmo sem tratar de temas particularmente engraçados.


Selecionado para integrar a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio do Júri, a produção segue de perto Oscar Restrepo (Ubeimar Rios), um poeta que apesar de ter ganho prêmios na juventude por seu trabalhos, é um homem de meia-idade ainda sob o teto da mãe, que provém o sustento que ele é incapaz de garantir para si. Apesar de constantemente amargurado, ele ainda conta com a simpatia (ou pena) das pessoas, o que lhe garante uma oportunidade como professor de poesia numa turma de ensino médio. É lá que ele conhece Yulardy (Rebeca Andrade) uma poetisa em potencial que imediatamente é colocada sob suas asas, que enxerga na menina a chance de alcançar o reconhecimento que nunca teve.


Lidando com temas sérios como paternidade, as dificuldades de rentabilidade da Arte e até abuso sexual, o filme consegue a proeza de fazer o espectador rir sem fazer o menor esforço. Nesse caso, méritos para a montagem do estreante Ricardo Saraiva que ao adotar o corte seco como padrão, faz o final de cada cena soar como uma punchline. A sequência em que Oscar leva Yulardy embriagada para casa, inclusive, é forte candidata a entrar para a lista dos momentos mais hilários do Cinema em 2025. Oscar que, com o rico roteiro de Soto nas mãos de Ubeimar Rios se torna um personagem complexo e fascinante justamente graças ao fato de ser trágico por natureza (ou tragicômico).


Tecnicamente, o filme também não decepciona, destacando-se a estupenda trilha sonora da equipe de compositores, que usa instrumentos de sopro e o piano para guiarem a atmosfera idealizada pelo cineasta. Falando nisso, sua estratégia visual, com um trabalho de câmera semelhante ao visto na inesquecível série The Office (2005-2013), alcança um tom tão forte de gravidade, que o espaço para o humor abre-se de forma estranhamente natural, servindo ao mesmo tempo como um estudo de personagem e uma sátira social. É possível, inclusive, encontrar paralelos com todas as formas de Arte para além da Literatura, que aqui ganha menções divertidas e solenes a escritores como Paulo Coelho e o prata da casa Gabriel García Márquez.


Perdendo um pouco da credibilidade conquistada, com uma reviravolta atirada para apressar o desfecho do arco de Oscar, Um Poeta é mais uma grata surpresa vinda de um país cuja produção cinematográfica dificilmente decepciona. Resta saber se conseguirá chegar novamente ao Oscar. Caso contrário, ao menos temos um diretor promissor para acompanhar no futuro.


NOTA 8,5


Dossiê 137

(Dossier 137, França)


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Quem conhece a filmografia do cineasta alemão Dominik Moll, sabe de seu fascínio pelos meandros investigativos, o que, nesse aspecto, faz este Dossiê 137 parecer até uma continuação de A Noite do Dia 12 (2022), seu ótimo filme anterior. O que esses procedurais (isto é, histórias centradas em procedimentos, sejam policiais ou não) têm que outros tantos não, é um detalhamento minucioso de aspectos que normalmente ficam de fora das telas. Além dos tradicionais interrogatórios e das perseguições, os filmes de Moll costumam trazer policiais redigindo, de fato, a própria papelada. Relatórios, por exemplo, ocupam espaço privilegiado, sendo narrados até pelos protagonistas, no caso, Bastien Bouillon no filme de 2022 e Léa Drucker na produção que chega ao Festival do Rio após competir pela Palma de Ouro no início do ano.


Novamente responsável pelo roteiro ao lado de Gilles Marchand, a história baseada em fatos acompanha Stéphanie Bertrand (Drucker), inspetora do IGPN, departamento da polícia nacional focado em infrações cometidas por membros da própria corporação. O ano é 2018, época em que os manifestantes conhecidos por “coletes amarelos” se mobilizaram intensamente pelas ruas de Paris reivindicando melhorias sociais. Um deles, o jovem Guillaume Girard (Côme Péronnet), mesmo desarmado e batendo em retirada, é atingido na cabeça por uma bala de borracha e acaba internado em estado grave. Para descobrir quem efetuou o disparo e aplicar as devidas punições, Stéphanie inicia um longo processo.


Para começar, a escalação da experiente Léa Drucker (do excepcional Close) como a inspetora é um acerto crucial para a eficácia da trama, pois a francesa consegue transmitir os níveis exatos de segurança e credibilidade demandados pelo papel. Com isso, não temos a menor dúvida da capacidade da mulher, muito menos de sua ética profissional. Acostumada a interpretar figuras de autoridade, Drucker demonstra naturalidade ao conduzir os vários interrogatórios, merecendo elogios por compor Stéphanie como uma pessoa calma e ponderada mesmo perante depoentes claramente ardilosos.


Curiosamente, o timing da produção se revela uma maldição justamente por ser perfeito. Afinal, vivemos tempos inflamados, numa sociedade cada vez mais inquieta e a polícia passa longe de contar com o apoio da população. Aliás a péssima relação da força policial para com cidadãos é um fenômeno mundial, com relatos de repressão e manifestações pipocando em todas as partes do globo terrestre. Por isso, é frustrante perceber o distanciamento que o roteiro resolve tomar de questões potencialmente espinhosas, optando por focar nas especificidades do caso ao invés de expandir o escopo. O mesmo vale para o outro lado da história, pois Moll e Marchand jamais se aprofundam nas motivações das manifestações, atendo-se a justificativas genéricas.


Os roteiristas trocam o aprofundamento político por um desenvolvimento mais sólido da protagonista, cuja vida fora do trabalho é abordada com extremo interesse especialmente da direção. Além de vermos Stéphanie em momentos de descontração ao lado dos colegas, ficamos a par de seu relacionamento com o ex-marido e com o filho, que por tabela oferecem a oportunidade para Moll e Marchand tecerem comentários sobre a opinião pública em relação aos policiais.


Ainda mais promissor do que A Noite do Dia 12 ao fornecer um volume maior de matéria-prima para conflitos e questionamentos, Dossiê 137 acaba limitando seu próprio alcance, que não é baixo, mas fica aquém do seu potencial.


NOTA 7,5


Família de Aluguel

(Rental Family, Japão/EUA)


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Precisando de alguém para lhe encorajar durante uma apresentação importante? Ou quer ajudar um amigo enlutado a ter com quem conversar? Mais, precisa de alguém para se passar outra pessoa? Acredite se quiser, mas existe uma empresa capaz de suprir todas as demandas acima. Uma não, várias, pois no Japão esse tipo de serviço é extremamente popular desde o início da década de 90, como Werner Herzog mostrou em Uma História de Família (2019).


Em Família de Aluguel, parte da seleção oficial do Festival de Toronto, Brendan Fraser interpreta Phillip, um ator com dificuldades de conseguir papéis em Tóquio, onde decidiu recomeçar a vida sete anos atrás. Solitário, ele passa as noites observando pessoas através da janela do seu apartamento, como se desejasse compartilhar da felicidade testemunhada. Até que recebe o convite de uma empresa famosa por “alugar emoções”. À procura de alguém para interpretar um “americano triste”, Tada (da premiadíssima série Xógum: A Gloriosa História do Japão) convence Phillip a aceitar o serviço de comparecer a um funeral transmitindo pesar. É apenas o início de uma inesperada carreira que fará o sujeito repensar a própria vida.


Principalmente depois de viver Kevin, o pai que abandonou a filha pequena anos atrás. A mãe, no caso, precisa da presença de uma figura paterna para passar no processo seletivo de uma importante escola. Três semanas de atuação passam tão rapidamente que ele aceita encarnar também John, repórter que "entrevistará" um ator já idoso que vive triste por ter caído no ostracismo.


Trata-se de um conceito fascinante e com alto potencial para gerar um dramalhão destinado a fazer sucesso na Sessão da Tarde, principalmente graças à presença do sempre carismático Brendan Fraser. Três anos após vencer o Oscar pelo problemático A Baleia e abrir o caminho para projetos mais voltados para o drama, o eterno Rick O’Connel da trilogia A Múmia parece talhado para o papel de Phillip. Emprestando seu carisma habitual ao enxergar o protagonista como uma espécie de gigante gentil, o ator carrega o filme nas costas mesmo quando tudo parece descambar para uma injeção de sacarose.


A diretora Hikari, mais conhecida por ter criado a série Treta (2023) da Netflix, tenta fugir da dramédia clássica, adiando conflitos e complicando dilemas, mas todos os caminhos levam ao mesmo final aveludado e edificante. O clima ameno e as piadas leves mantém o drama controlado, ganhando contornos poéticos graças ao trabalho em conjunto de Hikari com o diretor de fotografia Takurô Ishizaka (de Todos Nós Desconhecidos), que rende uma sequência evocativa com Phillip observando o escurecido prédio da frente do seu apartamento como se este fosse uma imensa HQ, com as janelas iluminadas remetendo a quadrinhos com pessoas vivenciando suas próprias histórias.


Apesar de não ser tão profundo quanto parece, Família de Aluguel nos dá a felicidade de ver um Brendan Fraser bem não apenas no aspecto dramático, mas também fisicamente. Mais magro, com mais cabelo e com um aspecto infinitamente melhor, o astro parece muito perto de voltar à velha forma e torçamos para este simpático projeto ser o indicativo de uma nova boa fase de sua carreira.


NOTA 6,5

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