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Festival do Rio 2025 | Dia 7

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • 9 de out.
  • 8 min de leitura

A Festa de Aniversário

(The Birthday Party, Grécia/Espanha/Reino Unido)

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O novo filme do cineasta espanhol Miguel Ángel Ramirez que nada a tem a ver com o homônimo estrelado por Robert Shaw em 1968, assim como O Menu (2022), O Triângulo da Tristeza (2022) e tantos outros, é mais um daqueles projetos ávidos por ridicularizarem aquela minoria obscenamente endinheirada que acredita ter poder suficiente para fazer o mundo girar em sua própria órbita.


O grego Marcos Timoleon é uma dessas pessoas, organizando uma festança para comemorar o vigésimo quinto aniversário de sua filha. A atmosfera do evento, que em circunstâncias normais tenderia a ultrapassar os limites da extravagância e do bom senso, ganha contornos apreensivos pois é o primeiro organizado pelo empresário após a morte de Daniel, filho preferido e sucessor ao trono em seus negócios obscuros. Entre os convidados, uma fauna de criaturas tão podres de rica que já perderam qualquer noção de estilo, ao lado de paparazzis, puxas-saco e parasitas em geral. Porém, o protagonista, interpretado por Willem Dafoe com uma clara inspiração no magnata Aristóteles Onassis (1906-1975), seja pelo figurino ou por seu ramo de trabalho, tem planos obscuros envolvendo não só uma negociação difícil, mas também a própria filha, que supostamente está guardando um segredo.


Rodado pela diretora de fotografia Gris Jordana (As Garotas de Cristal) como um sonho febril de verão, aproveitando o clima ensolarado e as paisagens paradisíacas da Grécia para prestar um tributo aos filmes italianos das décadas de 60 e 70, A Festa de Aniversário utiliza o primeiro ato para fazer provocações instigantes, mas ao pulverizar seu foco em outras tramas e personagens, perde-se completamente.


Enquanto o filme desmorona, Dafoe brilha intensamente ao adotar uma composição autônoma, quase anárquica, absorvendo os traços excêntricos criados sob medida à Timoleon para gerar expectativa acerca de sua imprevisibilidade. Por piores que as coisas estejam, o veterano está lá para monopolizar o nosso olhar, gerando fascínio e provocando eventuais gargalhadas. Outra veterana, a espanhola Emma Suárez (do almodovariano Julieta), começa a produção como um mero joguete do protagonista, mas sua função logo muda, satisfazendo as necessidades do roteiro. Sofia, a tal filha, existe para contestar a influência de Timoleon, cujo poder dobra a todos, menos a própria cria.


O design de produção e os planos fechados contribuem para o estabelecimento de um clima claustrofóbico que aos poucos vai se tornando um Frankenstein à medida que o texto tenta desenvolver outras preocupações importantes, mas sem sucesso.


Culminando num desfecho ainda mais exótico do que quase tudo o que o Festival apresentou até então, A Festa de Aniversário é um filme emocionalmente inerte e tematicamente desgovernado que se mantém interessante em função da performance curiosa de Willem Dafoe.


NOTA 4,5



Balada de Um Jogador

(The Ballad of a Small Player, Reino Unido/Alemanha)

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Antes de dirigir Nada de Novo no Front (2022) para a Netflix, o alemão Edward Berger era um diretor pouco expressivo até mesmo na Alemanha, seu país de origem. Mesmo assim chegou em Hollywood, sem medo de ser o tipo de mão de obra contratada pelo qual executivos de grandes estúdios salivam. Comandou episódios de séries de televisão como Patrick Melrose, The Terror e Your Honor, mas aí veio o Oscar 2022 e o resto é história. Hoje, Berger é um diretor de primeira prateleira, vindo de outro grande filme vencedor do Oscar (Conclave). Sua carreira evoluiu a ponto de finalmente se tornar o tipo de diretor que é cogitado para praticamente toda grande produção, de 007 a Bourne. Talvez por isso ele se sinta confortável para comandar um projeto tão arriscado como esse A Balada de Um Jogador.


Diferente de tudo o que já dirigiu, a adaptação do romance de Lawrence Osborne é exagerada, chamativa, obtusa e, em última instância, magnética, impossível de deixar de acompanhar, como uma dose entorpecente cujo efeito dura cerca de uma hora e quarenta minutos.


Berger despe-se do formalismo pomposo de seu filme anterior e entrega-se a movimentos de câmera arrojados, ângulos holandeses, mudanças de foco e toda a sorte de ferramentas gráficas para transformar o primeiro ato numa espécie de purgatório inebriante, de certa forma espelhando o momento vivido pelo protagonista autointitulado “Lorde” Doyle.


O projeto jamais daria certo caso o ator principal não estivesse em sintonia com o tom narrativo e Colin Farrell abraça o over de modo a se tornar o cúmplice perfeito para os delírios estéticos de Berger. O sotaque falso, os movimentos oculares frenéticos, os diálogos intensos proferidos em direção ao nada. Tudo o que o irlandês indicado ao Oscar por Os Banshees de Inisherin faz está um grau acima do normal e como A Balada de um Jogador é tudo, menos normal, sua composição não é menos do que adequada.


Rowan Joffe, que diferente de Edward Berger ainda não se desvencilhou dos projetos inexpressivos, faz uma adaptação com fortes ecos do Inferno de Dante, do qual Doyle só escapará após se redimir, assumindo seus erros e suas fraquezas. O apostador viciado em segundas chances terá de suspender sua fuga do passado para superar uma maré de azar metaforicamente espiritual.


O fato de Macau ser retratada como um oásis multicolorido, uma Las Vegas oriental pronta para receber jogadores renegados, ajuda a confundir nosso anti-herói, que não percebe ou não quer aceitar a realidade dura e ao mesmo tempo alucinógena na qual se encontra. Para ele, o inferno verdadeiro é aquele que se apresenta no segundo ato, quando a fotografia de James Friend, responsável por um dos quatro Oscars de Nada de Novo no Front, drena todas as cores supersaturadas e adota uma paleta fria e monótona. Até a direção se obriga a desacelerar, substituindo o frenesi por uma calmaria enervante.


No romance original, talvez as reviravoltas sejam surpreendentes e/ou catárticas, mas aqui são telegrafadas com uma elipse de distância. Surpresa mesmo, só a participação pequena, mas crucial de uma Tilda Swinton camaleônica como de hábito, personificando o passado que Doyle deverá confrontar para de fato se tornar digno de uma redenção, esta por sua vez refletida na presença fantasmagórica de Fala Chen como o objetivo amoroso do protagonista.


Quando a trilha sonora absurdamente ostensiva de Volker Bertelmann enfim dá uma trégua a nossos ouvidos, é sinal de que o desfecho se aproxima. Um que faz jus à figura trágica tão diligentemente interpretada por Farrell, mas que chega após dois potenciais finais desperdiçados. Edward Berger perde dois match points, mas ganha o jogo. Para quem começava a se acostumar com sua performance arrasadora, surpreende que tenha suado desta vez, mas arriscar-se também é saudável, especialmente como estratégia preventiva ante um duro oponente como a zona de conforto.


NOTA 7



A Cronologia da Água

(The Cronology of Water, EUA)

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Para aqueles limitados ao Cinema hollywoodiano, Kristen Stewart dificilmente conseguirá deixar para trás seus embaraçosos tempos como a Bella Swan de Crepúsculo (2008). Um tropeço como intérprete, mas não financeiramente, claro. O fracasso é apenas um ponto de vista quando analisamos a carreira de uma artista como Stewart, destemida a ponto de ignorar o escruínio público. Podemos questionar suas escolhas artísticas, mas não sua coragem para arriscar, algo que tem feito desde que foi aceita no clube de Hollywood, cuja areia movediça, sugando para a zona de conforto do dinheiro e do glamour, a atriz sempre foi hábil em tangenciar.


Por isso, é natural que um projeto tão desafiador como este A Cronologia da Água tenha atraído sua atenção. E como se não bastasse retratar os traumas vividos por uma adolescente aspirante a nadadora profissional, Stewart decide fazê-lo como diretora dessa vez.


Estreando na função, ela inicialmente demonstra o mesmo deslumbre típico de novatos, empregando praticamente todos os recursos visuais disponíveis, mesmo que nem sempre agregando à narrativa. E é justamente quando acerta, que o filme se torna mais fascinante, com nuances sugeridas por escolhas que envolvem desde a fotografia até os cortes da montagem.


Mas se, por um lado, é especialmente eficaz ao retratar os tumultos internos da protagonista vivida com entrega absoluta pela jovem Imogen Poots (Viveiro), que Stewart resgata de Hollywood, por outro, se distrai com as possibilidades oferecidas pelo roteiro que escreveu ao lado de Andy Mingo a partir das memórias de Lidia Yuknavitch, que encontrou na escrita uma forma de superar seu passado conturbado. Embora este que vos escreve se considere um defensor das cenas de sexo no audiovisual, não é agradável constatar uma certa fetichização por parte da produção, que em determinados momentos mais parece interessada por sua vocação erótica do que pelo seu potencial dramático.


Kristen Stewart dirige interpretações superlativas também do elenco secundário, que inclui atores experientes como Thora Birch (a eterna Jane de Beleza Americana) e James Belushi numa rara e memorável participação especial como Ken Kesey, célebre autor de Um Estranho no Ninho.


O destaque, por outro lado, não poderia ser outro senão Poots, uma intérprete habilidosa e sempre esforçada, atinge o ápice de sua carreira num papel cujas dificuldades jamais enfrentou. Ela protagoniza sequências com forte teor sexual, mas é o drama no qual sua personagem está imersa, que deveriam causar mais impacto. Em alguns momentos, A Cronologia da Água é o veículo perfeito para levar uma artista segura e talentosa a um novo patamar pronto para ser desbravado. Em outros, um exercício estilístico que limita o potencial de sua narrativa. Não deixa de ser um debute forte, com personalidade e técnica, um espelho de Kristen Stewart, portanto.


NOTA 6



Honey, Não!

(Honey Don’t!, EUA)

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Quando casais famosos se separam, há muita comoção especialmente da parte dos fãs. Foi assim com Edson Celulari e Cláudia Raia, Fátima Bernardes e William Bonner, Angelina Jolie e Brad Pitt, e muitos outros. No entanto, ao menos em termos profissionais, poucos términos de relacionamento foram tão impactantes quanto o dos irmãos Coen. Donos de um currículo invejável que inclui preciosidades como Ajuste Final (1990), Fargo (1996) e O Grande Lebowski (1998), os vencedores do Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) decidiram em 2021 seguir caminhos separados, encerrando mais de 30 anos de parceria. E enquanto Joel manteve o alto nível com A Tragédia de Macbeth (2021), o caçula Ethan caiu feio com o tenebroso Garotas em Fuga (2024).


Assim como ocorreu em sua estreia solo, o roteiro foi escrito por Ethan ao lado da esposa, Tricia Cooke, cada vez mais longe do brilhantismo do cunhado. E o mais estarrecedor de Honey, Não! nem é o senso de humor digno daquele tio que faz a piada do pavê (os jovens devem chamar de "cringe"), muito menos a insistência de tentar desconstruir a imagem de Chris Evans como queridinho dos filmes familiares, mas sim sua total incapacidade de convencer como um filme noir. Pior, é embaraçoso para Ethan Coen, um vencedor do Oscar, constatar que Seth Rogen demonstrou muito mais conhecimento no assunto em apenas um episódio de sua genial série O Estúdio do que Honey, Don't (no original) em seus sofríveis 89 minutos.


Margareth Qualley (A Substância) é Honey Donoghue, uma investigadora particular que assume o caso de um misterioso acidente de carro que terminou em morte. Em meio a cantadas de um inconveniente policial local, a jovem desfila pelos ensolarados cantos do Novo México à procura de pistas até finalmente se dar conta de estar no meio de um esquema muito maior do que pensava. Aubrey Plaza (Emily, a Criminosa), como uma burocrata de delegacia, faz as vezes de femme fatale, protagonizando sequências de sexo pouco imagéticas com Qualley. Apesar da falta de química, ambas encarnam bem seus papéis e mostram ter feito o dever de casa, ao contrário de seu diretor.


Ethan Coen já inicia a projeção com créditos que se misturam a fachadas e placas, alcançando um resultado mais confuso do que estiloso (e tenho certeza de que ele se julga descoladíssimo). O desencadeamento de eventos é frouxo e ocasionalmente arbitrário (especialmente quando Evans entra em cena), mas representa uma evolução para Coen, se considerarmos o caos de seu longa anterior. Um retrocesso, no entanto, é constatado no momento em que Honey cola um adesivo com a frase “eu tenho vagina e voto” sobre um emblema MAGA, demonstrando uma falta de timing desconcertante (além de soar panfletário).


Chris Evans, tão adorável no recente Amores Materialistas, surge repulsivo na pele de um mercador da fé ninfomaníaco. É refrescante vê-lo tentar se distanciar das produções açucaradas pelas quais ficou famoso, mas o eterno Capitão América não tem bala na agulha e nem idade suficiente para sustentar esse tipo de papel. E adicionar palavrões aos gestos expansivos de sempre e a fala acelerada não muda isso. No entanto, o impacto de seu personagem é positivo para corroborar o discurso do roteiro escrito certo por linhas tortas (até um relógio quebrado acerta a hora duas vezes).


Em seu auge, Honey, Não! soa tediosamente derivativo; nos seus piores momentos, é constrangedoramente panfletário, escapando do desastre absoluto graças ao talento de suas duas personagens femininas mais fortes.


Para o bem de Ethan, que os Irmãos Coen voltem a trabalhar juntos o quanto antes.


NOTA 3

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