top of page

Festival do Rio 2025 | Dia 8

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 2 horas
9 min de leitura

100 Dias

(Idem, Brasil)

Mais conhecido como diretor de animações de sucesso internacional tais como A Era do Gelo (2002), Robôs (2005), Rio (2011) e O Touro Ferdinando (2017), o brasileiro Carlos Saldanha já havia dirigido seu primeiro longa-metragem live-action em 2024 (Harold e o Lápis Mágico) e parece decidido a continuar explorando esse território. Falando em explorador, sua segunda empreitada dirigindo atores de carne e osso é 100 Dias, filme que retrata a histórica façanha do navegador Amyr Klink, que atravessou o Atlântico Sul a remo pelo período exposto pelo título. O roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares é uma adaptação do livro autobiográfico assinado pelo próprio Klink. Apesar de jamais cravar a época na qual se passa, a narrativa se desenvolve na década de 80, quando o navegador, então um jovem remador, resolve mandar pelos ares o emprego como burocrata para se entregar ao sonho de desbravar os mares, começando pela desafiadora travessia que começou no litoral da Namíbia e terminou na Bahia.

O primeiro ato da história parece feito às pressas, com diálogos expositivos e um ritmo corrido para abarcar parte da infância do biografado, passando pelas suas inspirações até ser tomado pela fatídica ideia de rodar o mundo de barco. Intercalando a viagem com flashbacks pouco oportunos, a narrativa se desenvolve através de um vaivém que se revela irregular: enquanto o foco está no mar, 100 Dias se apresenta como uma aventura marítima envolvente, mas quando se dedica ao passado do protagonista, é superficial. Os conflitos familiares que surgem no horizonte jamais são trabalhados satisfatoriamente pelo roteiro, mas o maior pecado é justamente não explorar os conflitos psicológicos de Klink. Os desafios impostos pela solidão, o medo do desconhecido e até pequenos incidentes passam batido em prol de uma atmosfera mais aventuresca.

Nessa parte, Saldanha se sai bem, mantendo o ritmo bem controlando e acertadamente apostando no carisma de Filipe Bragança, cuja entrega ao papel fica evidente no físico modificado, por exemplo. O ator goiano leva o filme nas costas sem se intimidar pelo peso de encarnar a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico à remo. A composição leve e bem-humorada facilita a conexão com o público e Bragança nunca deixa de se soar convincente. Assim como os efeitos visuais usados para dar vida à jornada de Klink, incluindo o peixe dourado Alcebíades, que acompanha o explorador tal qual o Wilson de Náufrago.

Exagerando nas sequências de sonhos, 100 Dias não hesita em incluir clichês para encorpar a trama enxuta, aproveitando a presença de Felipe Camargo para dar alguma substância, mas esbarra na tal da superficialidade. A produção é claramente voltada para o espetáculo, mas ao menos encontrou o profissional certo para comandá-lo. Saldanha ainda não chegou ao nível que ostenta no âmbito da animação, mas demonstra progresso nessa nova fase da carreira.


NOTA 6,5



A Grande Estreia

(The Debut, EUA)

Mais de duas décadas e uma indicação ao Oscar depois, Jesse Eisenberg vem se repetindo como ator e raramente consegue fugir do papel que o colocou na primeira fila de Hollywood, o de jovem brilhante que fala rápido demais e tem dificuldades para fazer amigos. Quando o fez, o resultado foi o infame Lex Luthor de Batman v Superman: A Origem da Justiça (2016) e Liga da Justiça (2017). Já como diretor, começou sorrateiro com o irregular Quando Você Terminar de Salvar o Mundo (2022) e tirou a sorte grande com o ótimo A Verdadeira Dor (2024), que além de ter rendido uma nomeação ao Oscar de Melhor Roteiro Original, premiou a performance magistral de Kieran Culkin. Se já havia mostrado habilidade suficiente para merecer nossa atenção, A Grande Estreia comprova que seu futuro pode mesmo estar atrás das câmeras. E que ele não demore muito a perceber isso...

A trama, também assinada por ele, acompanha Mona Friedman (Julianne Moore) uma dona de casa presa à rotina. Aparentemente sem amigos e negligenciada pela família, ela recebe por acaso um panfleto divulgando as audições para uma peça musical comunitária dirigida pelo rigoroso e prestigiado Jerry (Paul Giamatti) e resolve ver o bicho que dá. Logo após a apresentação matadora de uma atriz veterana dos palcos novaiorquinos (num flerte metalinguístico ao escalar Bernadette Peters, sete vezes indicada ao Tony, o Oscar do teatro), Mona entra em cena e oferece a pior apresentação possível, tanto que Jerry sequer lhe permite chegar ao refrão. Voltando para casa com a ingênua esperança de receber uma ligação da produção, ela aguarda por dias, até decidir voltar e tirar satisfações com o temido diretor. E quando finalmente cai na real, o destino joga em seu colo a chance de assumir o papel, após a atriz escolhida esnobá-lo por ser “pequeno demais”.

Assim como aconteceu no bacana Luz Fantasma (2024), a protagonista descobre na Arte, mais precisamente no Teatro, uma forma de trazer um pouco de cor ao cotidiano sem vida ao qual estagnou com o decorrer dos anos. Mas o trunfo que nenhum filme desta temporada ou mesmo do gênero tem é Julianne Moore, que não bastasse o talento já reconhecido pela Academia, ainda surge absolutamente arrebatadora em cena, pronta para disputar mais uma temporada de premiações.

Trata-se de uma performance multifacetada, da qual Moore é extremamente hábil em dissecar todas as camadas possíveis. No âmbito dramático, transmite a infelicidade contida de Mona, ao mesmo tempo em que oferece um traço de ingenuidade que desmonta qualquer julgamento por parte do espectador. Afinal, nossa heroína é a pessoa mais adorável possível, até quando se enche de confiança e tenta tomar as rédeas da situação, o que permite à atriz desbravar o território da comédia com o nível de eficiência que esperamos de uma veterana. As gargalhadas são inevitáveis quando Moore resolve apresentar seu conjunto de habilidades, que vai da metalinguagem, passando pelo timing impecável dos diálogos e até uma surpreendente vocação para o humor físico (a sequência de Mona dançando a pedido do músico da peça é simplesmente impagável). Não esquecendo que estamos de uma atriz de primeiro escalão interpretando com perfeição uma atriz amadora, com direito a todas as variantes possíveis (espere até vê-la após uma sessão particular com o diretor).

Paul Giamatti, por sua vez, não deve em nada à sua parceira de cena. Na verdade, Eisenberg é generoso ao oferecer material e espaço para o experiente intérprete explorar as complexidades de Jerry, sempre no limite entre o rigor que o trabalho demanda e a gentileza inerente aos seus modos. O fato de Giamatti ser quase eclipsado por Moore, diz muito mais sobre a proeza artística da atriz do que particularmente de sua performance.

O ator, recentemente indicado ao Oscar pelo excelente Os Rejeitados (2023), é importante ao estabelecer a ponte entre Mona e o Teatro, estreitando os laços da trama com a metalinguagem, ao mesmo tempo em que presta uma bela homenagem às Artes Dramáticas sem perder o bom humor de vista. Beneficiando-se igualmente de uma trilha sonora ao mesmo tempo elegante e inteligente ao evitar pontuar as nuances dramáticas da narrativa, a produção ainda acerta no design de produção, com destaque para os cenários do teatro comunitário e o interior do apartamento de Jerry, que dizem muito sobre o personagem sem a necessidade de verbalizar através do script.

O que mais uma vez nos leva a Jesse Eisenberg, cuja assinatura autoral agora é cristalina e revela a habilidade de um realizador em conciliar peso dramático e timing cômico sem canibalizá-los. Além disso, não é sempre que vemos um alguém trocar de função e ser generoso com os antigos pares (Eisenberg faz uma ponta divertida como um integrante do elenco e ainda é responsável pelas composições originais). A Grande Estreia traz o amadurecimento de um artista que, apesar de já alçar voos ambiciosos, dá indícios de que o auge ainda está por vir.


NOTA 9



London

(Idem, Brasil)

Já comentei diversas vezes por aqui sobre as dificuldades de se fazer Cinema no Brasil, especialmente de forma independente. Portanto, quando uma produção como London é exibida num festival amplo e prestigiado como o do Rio de Janeiro, a celebração é quase institiva. Até porque, estamos falando de um longa-metragem escrito, dirigido e protagonizado por um jovem com deficiência, aumentando exponencialmente as tais dificuldades. Victor Di Marco, presente na exibição feita no Cine Odeon, cinema histórico da capital fluminense, supera com bravura um verdadeiro tour de force em triplo expediente.


A trama que o coloca na pele do personagem-título, busca conscientizar o espectador sobre pessoas com deficiência e todos os tabus e desafios encontrados por elas, mas esbarra num didatismo excessivo que por vezes fere não apenas o impacto do discurso, como desmonta a seriedade de determinados momentos, como a infame piada "então quer dizer que o London está perdido em London?". Aliás, não faltam momentos comprometedores, com as mensagens, todas pertinentes, bom dizer, sendo prejudicadas pela artificialidade dos diálogos, convertendo a narrativa numa espécie de filme institucional com uma parcela perigosa de floreios artísticos.


A gratuidade de uma sequência rodada com aspecto de negativo, por exemplo, salta aos olhos, mas todas as ótimas intenções por trás do projeto são expostas pela fragilidade do script, que subestima a inteligência do espectador ao julgar necessário gritar cada momento importante da história. Como diretor, Di Marco mostra um olhar estiloso principalmente quando resolve se concentrar no cotidiano de London numa casa de fetiches (se é que podemos chamar assim).


O roteiro, por outro lado, deixa lacunas importantes na trama do rapaz, mas enquanto o filme é engolido pela própria falta de confiança no material, é precisamente a forte presença de sequências de sexo que ironicamente acaba dirimindo o script de parte dos seus tropeços. Trata-se do único momento em que London pode enfim tomar as rédeas do próprio corpo e, de quebra, provocar satisfação no próximo. Se levarmos em conta o puritanismo que contaminou as gerações mais jovens, o filme corre sério risco de não chegar aos cinemas, mas de novo ironicamente, esses momentos ilustram a liberdade do protagonista.


Que recebe o diagnóstico de deficiência, mas reluta em buscar ajuda. O jovem divide os dias entre as visitas da mãe, a presença na famigerada casa de fetiches e encontros esparsos com uma senhora mais velha. A união de pautas (queer e portadores de deficiência) é conveniente para agregar valor ao texto, mas merecia mais cuidado no desenvolvimento.


A mão pesada do diretor e roteirista, bem como a obviedade da montagem (e de alguns simbolismos, como a cortina que demora a ser instalada com eficácia) e a trilha sonora que busca alimentar um suspense infrutífero, limitam o potencial de London que chega ao Festival do Rio com um Queer Lion na bagagem, mas vai ter que comer muito arroz com feijão para derrotar seus adversários na mostra competitiva, especificamente Oceânico e A Margem do Rio.


NOTA 3



Vertigem

(Le Vertige, França)

O cineasta francês Quentin Dupieux sempre se encantou por histórias estapafúrdias protagonizadas por personagens pouco inteligentes ou simplesmente amalucados. E inspiração não tem sido um problema para ele, um criador prolífico que está lançando seu sexto filme em menos de quatro anos. Vertigem é, ao lado de Yannick, a mais curta das criações de Dupieux, embora eleve à décima potência a estranheza tão característica de seu Cinema e que invariavelmente serve de matéria-prima para o humor.


Escrito e dirigido por ele, La Vertige, no original, é a prova de que ele pode até permanecer fiel a elementos narrativos, mas está sempre explorando linguagens novas. Desta vez, ele adota um estilo antiquado de animação que remete a games clássicos como os títulos do Nintendo 64 e a primeira geração da bem-sucedida série The Sims. Mas a ideia não é pura e simplesmente conquistar o público pela nostalgia (como se Dupieux em algum momento já tivesse manifestado preocupação com os próprios espectadores) e sim usar a tecnologia como subterfúgio para abordar a paranoia de seus personagens.


Afinal, a trama apresenta Jacky (vivido pelo ator e roteirista Alain Chabat) um homem que tem perdido o sono após fazer uma impactante descoberta. A urgência o faz procurar Bruno (Jonathan Cohen, de Cinema É Uma Droga Pesada) no meio da noite para finalmente revelar que todos nós vivemos numa simulação e nada mais importa. Inicialmente, claro, há um desacerto entre os dois, que ultrapassa os limites do absurdo para se encontrar com o talento de Dupieux para construir diálogos que não saem do lugar (como a obsessão da esposa de Bruno por assuntos envolvendo dinheiro). Absurdo tende a ser um adjetivo recorrente na filmografia do diretor, chegando ao ápice em Daaaaaali!, a hilária comédia surrealista que o reuniu pela primeira vez com Cohen.


As provocações são sempre instigantes quando partem de conexões, seja com Matrix ou com a já citada linguagem dos games. A busca por bugs leva a gargalhadas fáceis, assim como a relação dos melhores amigos com o ambiente. O problema é que a trama, embora extremamente enxuta, substitui profundidade pelo humor à base do absurdismo, perdendo o fôlego lá pela metade da projeção e terminando sem tração. Nos instantes finais, fica evidente que a ideia de experimentar acaba tendo um fim em si mesma e parece ter sido uma prioridade em detrimento da narrativa, que possui bons momentos suficientes para entreter o espectador por pouco mais de uma hora, mas empalidece diante de obras anteriores do diretor, principalmente O Acidente do Piano, exibido no Festival do Rio 2025.


NOTA 7















bottom of page
google.com, pub-9093057257140216, DIRECT, f08c47fec0942fa0