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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival Varilux 2023 | "Making Of" descortina bastidores do cinema, mas indeciso no tom


Segundo longa-metragem lançado por Cédric Kahn em 2023 (o outro, O Caso Goldman, foi exibido na Mostra de São Paulo mês passado) , Making Of é também o segundo filme francês do ano a abordar os bastidores de uma produção cinematográfica. Se no divertidíssimo Corta!, o cineasta vencedor do Oscar Michel Hazanavicius soube utilizar o humor para tecer críticas ao Cinema Contemporâneo, em Making Of, Kahn opta por uma abordagem menos escrachada e até mais dramática, inclusive.


O veterano onipresente Denis Podalydès encarna Simon, diretor que luta para terminar o que pode ser seu último longa-metragem. Com a carreira em declínio e sofrendo crises de ansiedade, ele precisa ter jogo de cintura para comandar o set de filmagens e administrar o caos que se instaurou nos bastidores, já que os produtores responsáveis pela maior parcela do orçamento ameaçam se retirar da produção caso o final não seja modificado. Trata-se de um relato nu e cru do que acontece por trás das câmeras e que vai muito além do processo criativo.

Após o moralista A Prece, o realizador francês se permite investir numa ironia que faz bem ao turbulento e cínico mundo do Cinema, no entanto, o roteiro escrito por ele ao lado de Fanny Burdino e Samuel Doux apenas flerta com o humor, o que impede a história de alçar vôos maiores. Em contrapartida, sempre que Podalydès entra em cena, o filme se ilumina, com o astro desfilando seu timing cômico impecável, especialmente ao ilustrar a impaciência de Simon (e que muitas vezes antecede explosões de raiva).


O maior problema de Making Of, entretanto, é ficar no meio do caminho entre o drama e a comédia, numa indecisão que prejudica a narrativa em ambas as frentes. Por mais que possua momentos divertidos, como aquele em que um produtor tenta fugir de Simon usando uma desculpa esfarrapada, a piada recorrente envolvendo a irritação do diretor com o jovem encarregado de filmar os bastidores ou a sequência em que alguém aparece no estúdio pedindo remédio para dor de cabeça e ouve um "desculpe, só tenho cocaína", isso não é o bastante para nos convencer de que estamos realmente assistindo a uma comédia.

Por outro lado, quando resolve falar sério (ainda que sem abrir mão do sarcasmo), o trio de roteiristas mostra-se mais à vontade, com destaque para as críticas ao modus operandi de Hollywood (“você não está nos Estados Unidos, aqui a palavra final é do diretor e não dos produtores!”, alguém chega a dizer). Há também alfinetadas nada sutis a nomes famosos do Cinema e sobra até para Michael Bay (Simon é “aconselhado” pela filha a fazer filmes de ação com “boazudas”). Mas o ponto alto é a eterna discussão entre o Cinema de Arte e o Cinema Comercial, com os produtores defendendo um final feliz e o diretor batalhando pela manutenção da tragédia. "Os espectadores querem se sentir felizes, esperançosos, ninguém quer ver um filme deprimente!", argumentam os patrocinadores, ao que Simon rebate: "Por quê um drama limitaria o público? As pessoas gostam de se identificar com o que está na tela, é catártico!". O que seria mais valioso numa obra cinematográfica: escapismo ou reflexão?

É uma pena que essas passagens acabam deslocadas numa trama convoluta que invariavelmente perde o foco. Além dos conflitos de Simon durante as filmagens, o longa-metragem ainda inclui uma relação descartável entre o idealista Joseph (Stefan Crepon, de Peter Von Kant) e a atriz Nadia (Souheila Yacoub); uma distante problemática sobre o distanciamento do protagonista com a esposa e, claro, o próprio filme (não Making Of, mas aquele que está sendo produzido pelos personagens).

Se o “filme dentro do filme” funcionou magnificamente em Corta!, aqui representa um dos pontos negativos da experiência, já que, embora fiquem claras as analogias entre o que está acontecendo com os operários fictícios e a própria equipe de filmagens liderada por Simon, jamais se torna interessante, o que representa um grande problema quando nos damos conta de que corresponde a grande parte da projeção.


Assim como o excepcional Artista do Desastre descortinou o processo fílmico, Making Of também vale pela curiosidade de conhecer um pouco melhor o “fazer cinematográfico”, mostrando de perto que a Sétima e mais apaixonante Arte demanda um esforço hercúleo que na maioria dos casos nem chega ao conhecimento do público.


NOTA 6

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