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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Festival Varilux 2023 | "Culpa e Desejo", o thriller que promete mais do que pode cumprir


Apesar de quase meio século de carreira e um prestígio internacional chancelado pela presença nos festivais mais importantes do mundo, a francesa Catherine Breillat ainda não conquistou um prêmio importante, o que certamente a mudaria de patamar no cenário europeu, mas não tira seus méritos artísticos. Prolífica até meados de 2010, quando era tida como “controversa”, Breillat encerra um hiato de dez anos desde que lançou Uma Relação Delicada, seu último longa-metragem e cujo título resume bem seu objeto de interesse. Se fosse um disco, Culpa e Desejo, que rendeu sua segunda indicação à Palma de Ouro, seria o chamado “Greatest Hits” da cineasta, trazendo a experiente Léa Drucker no papel de uma advogada bem-sucedida que acaba se envolvendo com o enteado adolescente.

Vale ressaltar que o roteiro assinado por Breillat faz questão de frisar que Anne não é pedófila, muito pelo contrário. Além de confessar ao marido uma predileção por homens mais velhos, seu trabalho consiste em defender menores de idade e sua cliente mais recente acaba de se livrar de uma relação abusiva. Não bastassem todos esses atenuantes, a mulher ainda possui duas filhas adotivas, com quem nutre uma relação tão amorosa quanto aquela que tem com Pierre, seu parceiro de longa data.

Já Théo (Samuel Kircher) possui quase todos os agravantes possíveis: típico garoto-problema, se mudou forçadamente da Suíça para a França, pois sua mãe já não o aguentava mais. Embora seu pai agarre com afinco a oportunidade de estar mais presente, Théo é maldoso e não tem interesse em manter um clima amistoso, adotando uma postura agressiva. Para piorar, ainda se mostra capaz de roubar a própria casa, mas sua artimanha acaba descoberta por Anne e servindo como subterfúgio para os dois se aproximarem.

É interessante notar as contradições que compõem Anne como personagem: apesar de trabalhar com a Lei, despreza uma vida excessivamente regrada (acusa o marido de ser um “normopata”); aparenta sensatez, quando o próprio carro conversível e o estilo musical favorito indicam uma personalidade rebelde; não hesita em aniquilar abusadores, quando ela própria se mostra incapaz de resistir aos encantos do filho de seu marido. São idiossincrasias que convidam o espectador a esperar pelo inesperado. Agir de acordo com a expectativa não é algo do feitio da protagonista. Théo tampouco prefere mulheres mais maduras (ele é visto com garotas de sua idade).

Enquanto Léa Drucker, que interpretou uma mãe bem mais tradicional no inesquecível Close, mostra-se versátil ao encarar as nuances de sua complexa personagem, o jovem Samuel Kircher, irmão da estrela Paul Kircher (que quase foi escalado em seu lugar), não escapa das armadilhas reservadas aos marinheiros de primeira viagem. O estreante, infelizmente, segue a cartilha Megan Fox de “atuação” ao apresentar o mesmo hábito irritante de surgir com a boca entreaberta (ao menos não morde o lábio). Ele também investe num inclinar de cabeça que ao invés de parecer sedutor, só o faz parecer um cachorro querendo chamar atenção.

No entanto, Catherine Breillat é inteligente ao driblar essas imperfeições investindo em closes e planos-detalhe que valorizam, por exemplo, a intensidade do seu olhar. Repare também nos instantes em que Kircher é visto sem camisa ao fundo de uma cena, espionando a madrasta enquanto esta conversa como seu pai. Esse tipo de mise-en-scène é recorrente e bem utilizado pela cineasta, especialmente na sequência em que Anne se posiciona atrás do marido durante uma conversa, como se fosse incapaz de encará-lo após a consumação da traição. E as tórridas cenas de sexo são filmadas sem qualquer sensualidade, salientando o caráter proibido da relação entre Théo e a Madrasta. Aliás, mesmo que a narrativa desbrave as águas do thriller erótico, é fascinante notar que o desconforto jamais deixa de predominar. E note como a ausência completa de trilha sonora potencializa esse sentimento durante o sexo.

É decepcionante, no entanto que Catherine Breillat revele tanta languidez ao desenvolver a história, recorrendo a atalhos narrativos que tornam a segunda metade previsível. Ela parece acomodada com a simples possibilidade de manter o espectador na expectativa de que algo aconteça, como ao mostrar um canivete numa cena-chave ou ao lançar possíveis elementos que poderiam complicar a trama, mas que jamais são utilizados. A mera iminência do conflito é o bastante para Breillat (o suspense da conversa que só pode acontecer após as crianças dormirem; o plano final), revelando uma realizadora sem muitas ideias e conformada com um exercício de gênero substancialmente vazio.


Remake de Rainha de Copas, produção dinamarquesa que se entregou ao sensacionalismo e ao melodrama sem reservas, Culpa e Desejo não chega a ser estúpido como Águas Profundas, thriller erótico lançado no ano passado, mas tampouco faz jus aos inúmeros exemplares que inundaram as salas de cinema no século passado. Esses dez anos parecem ter tirado o apetite da outrora “controversa” Catherine Breillat pela ousadia.


NOTA 6

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