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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Nanni Moretti faz de "O Melhor Está Por Vir" desabafo sobre sua vida e o Cinema


Diretor que fez fama com esquetes inofensivas, mas que o alçaram ao panteão dos comediantes italianos, Nanni Moretti já provou sua versatilidade ao dirigir o excepcional e psicologicamente desgastante O Quarto do Filho, drama que conquistou a Palma de Ouro em 2001. Depois disso, experimentou certa irregularidade ao transitar por projetos cada vez mais pessoais.


Dessa forma, não é preciso muito para perceber que, com o tempo, Moretti fez de seu Cinema uma forma de lidar com os próprios problemas. Não por acaso, em Mia Madre ("Minha Mãe" em italiano), tratou da perda da mãe, ao passo que em outras produções resvalou em questões psicológicas, especialmente a depressão, cuja luta é notória. E se surgir qualquer dúvida a respeito disso, basta lembrar que ele atua em praticamente todos os seus filmes e, na maioria deles, seu personagem se chama... Giovanni.

Dois anos após o mediano Tre Piani, Moretti se permite analisar o momento no qual vive o Cinema, sem perder a oportunidade de se colocar no divã e lidar com algumas de suas preocupações. Em Il Sol dell'Avvenire (no original), o cineasta de 69 anos assume uma persona que o aproxima de Woody Allen, fazendo com que o Giovanni da vez desperte gargalhadas e reflexões com a mesma facilidade, sempre graças a um humor volátil e ao apego a manias. O roteiro, também assinado por ele, adota o estilo “filme dentro do filme”, acompanhando a rotina de um diretor que se equilibra entre um caótico set de filmagens e seu casamento, que sequer sabe correr sério risco, já que sua esposa Paola (mais uma vez Margherita Buy, de Tre Piani e Mia Madre), já não aguenta mais suas neuroses.

Essa forma autorreferencial de fazer Cinema não chega a ser uma novidade, muito menos a ideia de incorporar o fazer fílmico dentro da narrativa (só esse ano já tivemos Corta! e Making Of indo pelo mesmo caminho), mas funciona como o modelo perfeito para Moretti desabafar, ora pelas vias do exagero cômico (a aversão de Giovanni por sapatos de salto alto), ora por críticas contundentes ao Cinema Contemporâneo. Sobram comentários sobre a normalização da violência nos filmes, algo que se tornou tão banal que mal questionamos seu real propósito. Também há divagações sobre o fracasso do comunismo na Itália, outro elemento recorrente na filmografia do diretor, mas o ponto alto da narrativa, reflexo direto da percepção de um realizador veterano, é a magnífica sequência que debocha da Netflix e seu modus operandi.

A essa altura da vida, o italiano não precisa seguir formatações consagradas, dando-se ao luxo de incluir pequenos interlúdios que soam deslocados à primeira vista, como se fosse um momento de diversão no set mantido no corte final apenas por rebeldia. Aliás, o próprio final bebe da fonte dos musicais para amarrar o universo pensado por Moretti (ou o pensamento de Moretti sobre o universo?). Excessos à parte, o cineasta merece créditos pela alegoria que elabora, com a chegada de um circo húngaro trazendo paralelos políticos.

Pois, no geral, O Melhor Está Por Vir é uma forma encontrada por Nanni Moretti de canalizar suas inquietações, fazendo uma bem-vinda autocrítica, ao mesmo tempo que analisa com fartas doses de acidez o momento do Cinema. Assim como Spielberg e Scorsese foram atacados por “preverem” a queda dos filmes de super-heróis (que já começa a acontecer), talvez Moretti possa ser interpretado como rabugento ou até egocêntrico por sua visão, mas jamais por ser conservador, algo combatido pelos minutos finais.


NOTA 7,5


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