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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Natalie Portman e Jude Law brilham no irregular "Vox Lux"

O culto à celebridade não é nenhuma novidade, embora tenha alcançado níveis elevados na atualidade. Graças à necessidade cada vez maior da juventude por ídolos, vivemos uma época em que as câmeras deixaram de lado o papel de exclusividade em eternizar momentos para se tornarem instrumentos que colocam em xeque a privacidade das figuras públicas, que têm suas vidas expostas como em gôndolas de supermercados. Por outro lado, cabe um questionamento: Figuras públicas devem ter privacidade? A privacidade é uma utopia para aqueles que atingem o estrelato?


Lidando com isso, Vox Lux nos apresenta a Celeste (Natalie Portman), retratada como uma super estrela do calibre de uma Lady Gaga (ou Madonna, para os mais velhos), por exemplo. Sua vida, por outro lado, nem sempre foi de privilégios e sua carreira só decolou depois de uma tragédia, quando foi a única sobrevivente do massacre que ocorreu em sua escola de música. Depois de uma penosa recuperação, a garota, que sempre exibiu talento, utilizou sua exposição na mídia como escada, chamando a atenção de um consagrado produtor (Jude Law), que a transforma rapidamente numa artista campeã de vendas e extremamente midiática. Celeste é uma daquelas jovens que enriquecem rapidamente, tornando-se uma figura grande demais para ser controlada, o que passa a lhe render problemas recorrentes até a fase adulta.


Dividida em atos nomeados como referências bíblicas (gênesis, pré-gênesis), a história escrita por Brady Corbet (A Infância de um Líder) traça uma curiosa ligação que remete à própria mente de Celeste, já que é possível enxergar um comentário sobre o culto à celebridade, mas também à visão da artista sobre sua imagem perante o público, afinal ela não admite ser tratada de uma forma inferior, assumindo uma postura quase divina. Cá entre nós, ela não é diferente de muitas artistas da atualidade.


Interpretada por Raffey Cassidy enquanto jovem, Celeste possui um carisma cintilante, mas é seu talento como cantora que acaba revelando uma faceta midiática irresistível aos tabloides. O problema é que sua relação de altos e baixos com a irmã acaba moldando seu caráter e lhe deixando vulnerável à exposição. Cassidy faz um trabalho acima do aceitável, sendo hábil ao transmitir a força de sua personagem sempre de forma convincente e segura, brilhando igualmente nas sequências musicais.


Por outro lado, Vox Lux sobe de patamar quando Natalie Portman entra em cena para interpretar Celeste em sua versão adulta. Dona de uma presença inebriante, Portman domina todas as cenas e ofusca todos ao seu redor. Investindo numa composição rica que inclui uma dicção anasalada e uma linguagem corporal estilizada, a atriz vencedora do Oscar faz de Celeste uma personagem avassaladora. Absolutamente eficaz ao retratar os dramas da personagem, Portman faz de Celeste uma mulher visivelmente atormentada por fantasmas do passado, o que lhe confere um ar frágil e vulnerável escondido por trás da máscara de ícone pop sempre sobre um pedestal. Essa composição transforma a “Celeste Adulta” numa figura gigantesca e fascinante, e Natalie Portman é um show à parte.


Além de roteirista, Brady Corbet (ator em Violência Gratuita) assume a direção do projeto com mão pesada, determinado a uma abordagem diferente que confere um estilo singular a Vox Lux, a começar pela curiosa disposição dos créditos que iniciam e encerram a projeção. Além disso, Corbet investe numa estética quase psicodélica que, embora soe pontualmente como algo pretensioso, funciona em sua intenção de buscar o diferente, refletindo a personalidade de Celeste. Para isso, Corbet conta com um design de produção inspirado, que corrobora a pretensão de construir uma obra que subverte o subgênero biográfico (mesmo que ficcional).


Por outro lado, o excesso de saltos temporais prejudica o desenvolvimento da trama, numa estratégia onde cria-se imensa lacunas a serem preenchidas aos poucos. Só que nem todas as respostas são fornecidas e acontecimentos importantes para a história e, principalmente para a trajetória dos personagens, são apenas mencionados em conversas, como o nascimento da filha de Celeste (jamais conhecemos o pai da criança) e um acidente com vítimas, por exemplo.


Já as canções, todas compostas pela cantora Sia, funcionam e ganham personalidade na voz estridente de Natalie Portman, que assume com gosto a persona de cantora pop. Vale ressaltar, porém, que no quesito musical, Vox Lux acaba ficando atrás de Nasce Uma Estrela, por exemplo, uma obra semelhante e que apresentou composições muito superiores. Mesmo não sendo marcantes, as obras de Celeste não comprometem o resultado final.


Encarnando o agente de Celeste, Jude Law (Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald), um ator talentoso e sempre interessante, é eclipsado pela performance arrebatadora de Natalie Portman, mas ganha tempo de tela suficiente para construir um homem de modos contidos e investir numa voz grossa e pesada que surgem como um belo contraste à extravagância de Portman.


Voltando à questão inicial, Vox Lux faz questão de frisar seu discurso sobre o endeusamento das figuras públicas do meio artístico, através de diálogos expositivos como o que coloca Celeste comparando seu trabalho ao Novo Testamento, ou nas perguntas da imprensa. Mas o fato é que nem todo mundo está preparado para a vida sob os holofotes da fama e Celeste mostra através de seu comportamento mimado e arrogante que o número de fãs é inversamente proporcional ao seu despreparo.


Reservando um show apoteótico ao clímax da narrativa, Vox Lux termina assinando, metaforicamente, uma carta de recomendação de Natalie Portman ao Oscar de Melhor Atriz, jogando luz sobre uma performance tão eletrizante quanto aquela vista em Cisne Negro. Aqui, a israelita parece estar possuída durante o número musical final, quando Celeste mostra seus movimentos e sua presença de palco.


Esteticamente vibrante em seu desenvolvimento e beneficiado por uma atuação absurdamente espetacular de sua protagonista, Vox Lux escorrega nos anseios vorazes de seu inexperiente diretor/roteirista, mas entrega uma experiência exótica e de impacto, comentando sobre um assunto milenar e que nunca sai de moda.


NOTA 6,5

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