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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"O Mau Exemplo de Cameron Post" debate sexualidade e religião

Pode não parecer, mas estamos em 2018. Ainda vivemos numa época onde a religião exerce grande influência na sociedade, pregando dogmas e alimentando o retrocesso. Acredite, não estamos na Idade Média. Estamos num ponto de nossa História onde homossexuais mal tem liberdade para circularem nas ruas. Pior, a homossexualidade ainda é tratada como doença e a Bíblia segue mais influente do que nunca. Mas não se esqueça: estamos em 2018.


Se não vivêssemos nesse mundo, poderíamos facilmente acusar “O Mau Exemplo de Cameron Post” de inverossimilhança, ou de ser surreal demais para acreditarmos. Mas infelizmente nós vivemos e a história de Cameron, uma adolescente que é mandada para um retiro evangélico para curar sua "APMS" (Atração por Pessoas do Mesmo Sexo), é um retrato perfeito da atualidade.


Vivida por uma Chloë Grace Moretz de volta às boas performances, Cameron Post é uma típica estudante de ensino médio. Nem rebelde, nem recatada, Cam (como é conhecida) passaria o resto do ano letivo despercebida pelos corredores de sua escola. Tendo perdido os pais muito cedo, ela é obrigada a viver com tutores tão conservadores que mais parecem ter saído de uma Igreja Evangélica brasileira. Claro que a carolice deles é maior que a inteligência e, sem a menor compaixão, entregam-se à estupidez de tentar frear os impulsos lésbicos da moça, pega no flagra por um dos seus amigos.


Nesse ponto, a trama dá uma guinada e passamos a acompanhar o cotidiano de Cam no tal God’s Promise, que é comandado pela Dra. Lydia Marsh (Jennifer Ehle) e pelo reverendo Rick (John Gallagher Jr.) um ‘ex-gay’ cujo processo de ‘desgayzação’ se deu nessa mesma instituição. A partir daí, as gargalhadas se tornam inevitáveis, já que o discurso de Marsh e Rick são adaptações fiéis daquilo que se houve em programas evangélicos e cultos por aí. Ou seja, o filme mal precisa se esforçar para elaborar piadas, pois as pérolas disparadas pelos ‘doutores’ (doutores em quê mesmo?) já são suficientemente hilárias.


Mas para não descambar ao escárnio absoluto, as performances de Ehle e Gallagher Jr. são importantíssimas: ele, por exemplo, mantém a pose de ‘pastor da galera’, investindo numa composição que transmite sinceridade nos gestos de Rick. Teria ele submetido-se a uma lavagem cerebral? Isso é pouco relevante para alguém que parece realmente acreditar no que diz e pratica, ao passo que Ehle investe numa postura de autoridade que flerta o tempo todo com a caricatura, através de um figurino de cores fortes e cortes formais e um modo de falar pedagógico que contradiz sua disciplina quase militar.


Já Chloë Grace Moretz, a eterna Hit-Girl, mostra-se disposta a colocar sua carreira de volta nos trilhos. Depois de decepções como o patético A 5ª Onda e o desnecessário remake de Carrie: A Estranha (que ganha uma piada aqui), Moretz entrega-se a um papel desafiador, demonstrando uma segurança admirável mesmo diante de frases tão estapafúrdias (note sua expressão ao ouvir as bizarrices religiosas). Aliás, ela volta a exibir o carisma que a consagrou em Kick-Ass, além de lidar bem com as sequências mais densas (a conversa secreta ao telefone) e aquelas mais leves (o show ao som do rádio). Vale destacar também seu despudor nas cenas mais quentes.


Mesmo com ótimas atuações, o grande destaque de O Mau Exemplo de Cameron Post é, sem sombra de dúvida, o seu roteiro. Adaptado do livro de Emily M. Danforth pela própria diretora Desiree Akhavan ao lado de Cecilia Frugiuele, o script usa e abusa do deboche para alfinetar a postura dos fundamentalistas. “Você sabia que os canibais comem aqueles que admiram?” Dispara Marsh em certo instante para tentar substituir o amor pela inveja por uma qualidade faltante. As outras frases de efeito deixarei de comentar para não estragar as risadas.


O humor também é utilizado para ironizar certos dogmas clássicos (“o auto prazer é pecado”), porém certos diálogos provocam pouco mais do que asco, como aquele em que Marsh compara homossexuais a drogados (“você aceitaria que drogados fizessem uma parada?”. E o que dizer da ridícula iniciativa de só permitir músicas “de louvor ao Senhor”, que legitima a vigilância absoluta que ainda inclui revistas de bolsas? Pior do que isso, só a invasão de privacidade representada pelo autoritarismo da instituição em interceptar cartas antes de entregá-las aos jovens.


Sem deixar de ilustrar a tradicional hipocrisia desse tipo de pessoa, há dois ótimos momentos em que uma jovem carola interpela outra personagem por esta estar furtando uma fita cassete, (não com argumentos lógicos, mas sob a alegação de que ‘isso é pecado’), apenas para, mais tarde, entregar-se ao ‘pecado’ de dar um amasso em outra garota. Isso me faz lembrar de Nietzsche, que condenava o tal ‘pecado’: "as pessoas só não fazem coisas erradas por existirem leis e dogmas. Afinal, se uma pessoa precisa de um dogma para fazer o que é certo, boa coisa ela não deve ser".


Atribuindo a ignorância como o alicerce daquela instituição, O Mau Exemplo de Cameron Post, evita a tentação de demonizar aquelas pessoas que, aparentemente, estão (tentando) fazer a coisa certa (nesse contexto, “coisa certa” é aquilo de acordo com o que foi escrito há séculos atrás, é claro). Nem que para isso tenham que praticar abuso moral, cercear a liberdade ou violar a privacidade de jovens inocentes. A ignorância é mesmo uma bênção?


NOTA 8,5

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