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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

'Pobres Criaturas' elabora discurso feminista com estilização surrealista


Acostumado a narrativas sombrias, o cineasta grego Yorgos Lanthimos sai de sua zona de conforto para contar uma história de amadurecimento que pode soar banal pela clareza com que expõe sua construção, mas cujo desenvolvimento e ambientação exalam criatividade. Pobres Criaturas recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, honraria máxima do evento cinematográfico mais antigo do mundo e os motivos ficam claros desde o primeiro minuto.


Lanthimos propõe uma releitura da história de Frankenstein, com Emma Stone interpretando um bebê no corpo de uma jovem mulher, que cometera suicídio logo nos primeiros segundos de projeção, mas foi trazida de volta à vida graças às habilidades ortodoxas do cientista Godwin Baxter, vivido por um Willem Dafoe carregado de uma maquiagem que o transforma num homem cuja aparência monstruosa quase esconde sua personalidade afável e curiosa. Como um homem da Ciência, Baxter vive de fazer experimentos e alguns perambulam tranquilamente por sua casa, como um cachorro no corpo de um galo e uma galinha com cabeça de porco. O fato de Godwin brincar de Deus ganha contornos mais literais quando percebemos que sua afronta mais recente à natureza o apelidou carinhosamente de “God”.

Atendendo pelo nome de Bella, a jovem protagonista exibe um apetite voraz pelo desconhecido. Acompanhamos todas as etapas de seu crescimento, desde as quinze palavras que aprende por dia, até suas descobertas. Uma delas, inclusive, muda completamente sua vida, pois quando resolve satisfazer-se com um pepino, um mundo de possibilidades se abre para a moça cuja vida se resume a uma rotina restrita dentro do casarão habitado por Godwin. A libido insaciável de Bella, por sua vez, é retratada pelo enredo com as mesmas tintas absurdas que envolvem todo o resto. O potencial choque das numerosas sequências de sexo é quebrado pela forma crua com que são encaradas pela própria personagem.

Nesse aspecto, Emma Stone, uma atriz cujo talento jamais foi questionado, é extremamente perspicaz ao compor Bella com uma inocência que elimina qualquer tipo de julgamento malicioso sobre sua personalidade. Sem filtros, a personagem confronta o mundo de guarda baixa, completamente aberta a novas experiências e quando encontra algo que alimente seu hedonismo recém-descoberto, abraça fortemente, recorrendo a repetições infantis que refletem sua mentalidade. Exibindo uma linguagem corporal disciplinada, Stone oferece a performance mais complexa de sua carreira, mas não em função apenas da construção de sua personagem, mas principalmente das possibilidades que ela oferece. A atriz vencedora do Oscar por La La Land – Cantando Estações expande o alcance de seu timing cômico enquanto se entrega à verborragia ácida do roteiro adaptado do livro de Alasdair Gray por Tony McNamara.

Indicado ao Oscar por A Favorita, sua parceria anterior com Yorgos Lanthimos, McNamara elabora um coming of age peculiar com doses feministas salpicadas com pouca sutileza, mas que acabam suavizadas diante da grandiosidade de tudo que cerca o longa, desde a interpretação meticulosa de Emma Stone até a ambientação surrealista assinada pela dupla de designers de produção Shona Heath e James Price (mais adiante). É como se Pobres Criaturas fosse o sonho molhado da Barbie de Greta Gerwig, outro manifesto feminista a fazer barulho em 2023, mas transformado em realidade sem o tom panfletário que encerrou o longa recordista de bilheteria. Aqui, as alegorias se sustentam até o final, com alfinetadas menos escrachadas ao machismo (graças ao personagem de Mark Ruffalo) e que valorizam o empoderamento feminino sem afetações. A sacada do texto é disfarçar o deboche com a inocência de Bella.

Ao invés do rosa, o que caracteriza o universo de Bella Baxter é uma combinação magnífica de veículos futuristas à arquitetura clássica, dando um tom burlesco ressaltado pela estilização dos cenários que reimaginam Lisboa, Paris e Alexandria com toques surreais. Já a fotografia de Robbie Ryan (outro indicado ao Oscar por A Favorita) começa num preto e branco que estreita os laços com Frankenstein, ganhando cores apenas quando Bella finalmente mergulha no mundo. Além disso, estão no filme todas as marcas registradas de Yorgos Lanthimos, como a movimentação reduzida da câmera e o uso de lentes olho de peixe, que arredondam as extremidades da tela.

O resultado é uma obra surrealista que fascina e diverte na mesma medida, uma obra gigante em praticamente todos os aspectos, exibindo criatividade não apenas em recontar um tipo de história presente no imaginário popular há séculos, mas ao fazê-lo sob uma perspectiva absolutamente moderna, com um discurso que vai ao encontro das demandas sociais contemporâneas sem soar artificial. Um filme que justifica o barulho que tem feito desde sua merecida aclamação no Festival de Veneza e que deve empilhar indicações ao próximo Oscar.


NOTA 8,5


*Crítica publicada durante o Festival do Rio 2023

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