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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Roteiro inteligente e Charlize Theron fazem de "Tully" uma grata surpresa

Logo nos primeiros frames de Tully, vemos Marlo, a protagonista, ostentar um suntuoso barrigão de gravidez, numa espécie de autorreferência onde o diretor Jason Reitman faz uma nostálgica viagem de volta a 2007, ao relembrar seu segundo (e mais famoso) longa-metragem, o festejado Juno, pelo qual Ellen Page, a gestante da vez, recebeu uma merecida indicação ao Oscar ao encarnar a personagem-título, uma jovem que nem de longe vislumbrava ser mãe.


Já em Tully, Marlo, além da gravidez, tem de lidar com a rotina exaustiva de uma mãe de dois filhos (sendo um com transtornos psicológicos) que mal consegue ter tempo para cuidar de si. O cansaço parece fazê-la flertar com os próprios limites físicos e psicológicos, brilhantemente ilustrados pela performance expressiva de Charlize Theron, que praticamente nos motiva a implorar por seu descanso.


Seu marido, Drew, é vivido por Ron Livingston como um pai de família amoroso e dedicado, mas cuja carreira demanda atenção absoluta, o que faz com que Marlo seja sobrecarregada com, absolutamente, todas as tarefas familiares. Entre todas as tentativas de encontrar um meio de recuperar sua vida, Marlo finalmente atende aos pedidos de seu irmão Craig, que se oferece para pagar uma babá noturna a fim de propiciar as tão necessárias horas de sono.


Ao contrário do que se espera, Craig não é o típico irmão pedante que só busca esfregar na cara das pessoas o fato de ser bem sucedido e ter uma Mercedes. Essa última até acontece (de modo sutil e bem humorado), mas a composição inteligente de Mark Duplass nos impede de enxergar Craig como a caricatura tão presente nos filmes do gênero e que é constantemente combatida pelo roteiro de Diablo Cody.


Também responsável pelo roteiro de Juno (pelo qual venceu o Oscar), Cody cria uma trama que parece servir como o veículo perfeito para Charlize Theron demonstrar seu talento. Sem abusar dos diálogos expositivos, a roteirista é hábil ao fornecer informações importantes sem soar artificial, pelo contrário, enriquecendo interações que só acabam falhando, pontualmente, quando Cody vislumbra a chance de incluir uma piada, estabelecendo o humor como o grande ponto fraco da produção.


Se o humor é irregular, o mesmo não deve ser dito do ritmo da narrativa, que é ágil e ganha fôlego com a entrada da personagem-título, interpretada com vivacidade pela carismática Mackenzie Davis, que converte as interações entre Marlo e Tully nos melhores momentos da produção. Exalando uma energia juvenil que é acompanhada por um altruísmo aparentemente ilimitado, Tully é a válvula de escape que Marlo sempre sonhou.


E é claro que seria impossível falar do filme sem analisar Charlize Theron, que oferece mais uma grande performance: magnífica ao investir numa atuação que nos faz temer por um colapso nervoso a cada cena, Theron também é bem sucedida ao afastar Marlo de uma possível (e falsa) impressão acerca de seu caráter, já que deixa claro, desde a primeira cena, que todo seu mau humor e eventuais atitudes mais extremas, são frutos de seu estado mental fragilizado.


O cineasta Jason Reitman, aliás, toma a decisão correta de não pesar a mão ao conduzir a história, optando por uma direção segura, mas ao mesmo tempo discreta, ao passo que o som acaba tendo grande importância ao ser utilizado para reforçar o estresse crescente da protagonista (repare na cena do carro), aproveitando até mesmo os efeitos sonoros de um forno elétrico. Nesse ponto, a montagem exerce papel fundamental, graças a sequências de cortes rápidos que ajudam a compor o quadro caótico em que a vida de Marlo eventualmente acaba se transformando.


Brindando o espectador com um final excepcional e que surpreende pela coesão narrativa, Tully é um drama que consegue ser denso e divertido na mesma proporção, nem sempre soando tão engraçado como julga ser, mas conquistando através de performances cativantes e um final que, perdoe a repetição, revela-se o ponto alto do longa-metragem, ao encerrar a história de Marlo com uma reviravolta que em nenhum momento agride a lógica ou a inteligência do espectador, enriquecendo um material já abrilhantado por uma Charlize Theron digna de prêmios.


NOTA 8

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