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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Sem Ar" é apenas mais um thriller de sobrevivência a chegar aos cinemas


Os thrillers de sobrevivência estão na moda. Além dos bons, como 127 Horas e Até o Fim, há aqueles menos afortunados em termos de valores de produção, como os vários “filmes de tubarão” que têm inundado os streamings, mas também há aqueles com orçamentos praticáveis, mas carentes de um roteiro decente. É o caso, por exemplo, de A Queda, que estreou no ano passado prometendo tomadas vertiginosas de duas jovens presas no alto de uma imensa torre de TV abandonada, mas só conseguiu comprovar que realmente não há limites para a estupidez humana. Sem Ar não chega a irritar o espectador com personagens tomando decisões questionáveis, mas tampouco consegue ir além do que temos visto ao longo dos últimos anos.

Na trama, duas irmãs se reúnem para a tradicional sessão de mergulho que fazem anualmente. Mas já durante a viagem de carro até uma baía remotíssima, ficamos sabendo que o relacionamento entre as duas não vai muito bem. Enquanto Drew (Sophie Lowe, de Medieval), a mais nova, soa como se quisesse desesperadamente agradar, com um entusiasmo excessivo que acaba sendo contraproducente em suas intenções, a mais velha, May (Louisa Krause, de O Preço da Verdade), está obviamente escondendo algo, exalando um mal humor que transforma o percurso numa improvisada e desconfortável sessão de terapia.

Diferente de Presos na Floresta, ainda em cartaz nos cinemas (para você ver como esse subgênero está mesmo na moda), The Dive (no original) não usa esses momentos para atirar no espectador todas as informações possíveis sobre as personagens, contentando-se em esclarecer apenas o básico, como o motivo da viagem, o contraste entre as personalidades das moças e, claro, soltar pistas sobre o que pode ter acontecido no passado.

A produção é eficiente ao mostrar que May e Drew estão numa viagem rumo a lugar nenhum, pois bastam alguns planos aéreos e mais abertos para percebermos que o local escolhido para sediar o tal mergulho terapêutico fica no meio do nada, com uma única estrada de terra entrecortando a paisagem praticamente intocada. A única edificação fica a bons minutos de caminhada, mas também não aparenta estar habitada. Assim como aconteceu em 127 Horas, está formado o cenário perfeito para o desastre, que acontece na forma de um deslizamento de pedras, prendendo a perna de May a 28 metros de profundidade. Cabe a inexperiente Drew encontrar alguma forma de libertar a irmã antes que o oxigênio chegue ao fim.

O roteiro, adaptado por Maximilian Erlenwein (Stereo) do original norueguês Além das Profundezas, não entrega muito mais do que se espera, limitando-se aos vaivéns da irmã mais nova enquanto quebra a cabeça para superar os obstáculos que se apresentam ao tentar salvar a irmã mais velha. Para tornar a história um pouco mais dramática, o cineasta alemão não hesita em apelar para o artifício da contagem regressiva, utilizando a limitação do tempo para injetar alguma tensão à narrativa, mas esquece de conceber uma jornada interessante para Drew, que é até bem interpretada por Lowe, surgindo cheia de energia e caprichando nas expressões de desespero. Da mesma forma, Krause é competente ao exaltar a personalidade irritadiça de May, não encontrando problemas para transmitir a experiência da moça (em todos os sentidos).

Mas Erlenwein tem uma dificuldade tremenda em preencher o segundo ato e, acredite, há um longo caminho a percorrer até o esperado final. A principal alternativa encontrada pelo diretor é, novamente, a mais trivial possível, adicionando breves flashbacks que até mantém a trama em movimento, variando sensivelmente o ambiente e a fotografia, mas que tampouco aprofundam o relacionamento entre as irmãs. Aliás, me recuso a aceitar a ideia de que o realizador realmente acreditou que tais cenas serviriam para estreitar os laços entre as irmãs e o público.

Beneficiando-se das belas paisagens de Malta, país europeu que serve de locação e empresta suas águas cristalinas para o diretor de fotografia Frank Griebe (25 km/h) se esbaldar, oferecendo um ótimo trabalho não apenas na captação das imagens subaquáticas, mas também ao reforçar o caráter remoto das locações escolhidas. Já a trilha sonora, do recém-vencedor do Oscar Volker Bertelmann (pelo ótimo Nada de Novo no Front) merece tantos elogios quanto o departamento sonoro, ambos determinados a intensificarem o suspense (e bem-sucedidos na empreitada).

Contando com uma parcela de diálogos sofríveis (“você deixou um buraco quando partiu”), o mais perto que Sem Ar consegue de extrair alguma sensação mais forte do espectador é quando faz com que Drew demore a perceber o que já estava na cara desde a metade da projeção, provocando imensa ansiedade enquanto aguardamos que tal elemento finalmente seja descoberto. Uma solução que o roteiro não consegue disfarçar se tratar de algo óbvio e extremamente previsível, como praticamente toda a história.


NOTA 4,5


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