'A Longa Marcha' faz adaptação chocante do primeiro romance de Stephen King
- Guilherme Cândido

- 16 de set.
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Antes de despontar com o cult Constantine (2005), Francis Lawrence fez carreira como diretor de videoclipes, tendo trabalhado com artistas dos mais diversos estilos, de Aerosmith a Britney Spears, passando por Green Day e Shakira. Poder comandar vídeos de hits como “Whenever, Wherever” e “I Don’t Wanna Miss a Thing” já dava sinais do prestígio que possuía junto a indústria, hoje em dia, porém, o cineasta austríaco é mais lembrado por ter dirigido os quatro últimos Jogos Vorazes, incluindo o bom spin-off A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (2023). Por isso, sua escolha para comandar a adaptação cinematográfica de A Longa Marcha torna-se ainda mais lógica.
Primeiro romance do ícone Stephen King, da época em que assinava sob o pseudônimo Richard Bachman, a história acompanha um grupo de jovens convocados para uma longa caminhada sem linha de chegada definida. Quem desistir, independentemente do motivo, recebe um “bilhete”, traduzido brutalmente por meio de um tiro de fuzil à queima roupa. O vencedor, não só garante uma quantia obscena de dinheiro como também tem direito a um desejo. O contexto, uma realidade distópica na qual os Estados Unidos ficam à mercê de um governo autoritário enquanto sofre com crises financeiras devido a uma guerra misteriosa, funcionava como uma alegoria pouco sutil à Guerra do Vietnã.

Já no longa dirigido por Lawrence e adaptado por JT Mollner (do ótimo Desconhecidos), os cem competidores são reduzidos pela metade, todos maiores de idade e liderados por Ray Garrety (Cooper Hoffman, de Licorice Pizza), cuja dolorosa despedida da mãe sugere uma motivação maior do que a recompensa anunciada. Ao lado dele, outros três personagens se destacam, como o falastrão Hank Olson (Ben Wang, de Karatê Kid: Lendas), o provocador Gary Barkovitch (Charlie Plummer) e o íntegro Pete (David Jonsson), com quem Ray rapidamente faz amizade.

Filho do saudoso Phillip Seymour Hoffman, Cooper é quem tem as melhores oportunidades dramáticas e não faz feio, merecendo elogios por transformar Ray numa figura carismática e gentil o bastante para merecer nossa torcida. Em contrapartida, assim como aconteceu em Rye Lane: Um Amor Inesperado (2023) e Alien: Romulus (2024), é Jonson quem toma o filme para si, fazendo de Pete o sujeito mais interessante da história. Leal e benevolente, fica fácil perceber por que se dá tão bem com Ray e a química entre os dois atores endossa essa união, o alicerce da narrativa. Em relação ao restante do elenco, Plummer (de O Retorno) talvez chame mais atenção por encarnar um tipo menos simpático do que de costume, embora seja hábil ao imprimir complexidade a Gary. Por fim, Wang é outro a surpreender quem acompanha sua carreira: bem diferente do aprendiz do Sr. Han que viveu há poucos meses, o jovem é bem-sucedido ao retratar as diferentes facetas exibidas por Hank, especialmente a mais frágil, que ganha espaço no final.

Apesar de jamais esclarecer completamente o que levou os Estados Unidos ao colapso social, as pequenas pistas soltas são suficientes para permitir que a chama da narrativa continue acesa. Insuficiente é o aproveitamento de Mark Hamill (A Vida de Chuck), numa pequena participação como o caricato Major, uma personificação subdesenvolvida do autoritarismo que tomou a “América” de assalto.

Dosando sequências onde a violência é fortemente gráfica com momentos de introspecção em que os personagens dividem preocupações com o futuro, A Longa Marcha não se esquiva do principal dilema enfrentado pelos competidores, que mal se dão conta de que apenas um deles sobreviverá para cumprir as promessas feitas. E esse é um fato constante não só entre eles, como também para o público, pois o design de som jamais deixa de lembrar a natureza implacável do que está acontecendo. Vale um alerta para os mais sensíveis, pois o realismo também é alcançado em detalhes pouco valorizados nesse tipo de produção (personagens também possuem necessidades fisiológicas, afinal).

O diretor Francis Lawrence, cujo ponto mais baixo da carreira é representado pelo meloso Água Para Elefantes (2011) e o mais alto pelo eletrizante Jogos Vorazes: A Esperança - Parte I (2014), consegue a proeza de transformar um filme sobre uma caminhada praticamente interminável (levando o estilo “walk and talk” a um extremo literal) numa experiência tensa, emotiva e ocasionalmente chocante.
NOTA 7,5









