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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Abigail" diverte e aterroriza na mesma medida, apesar de falta de consistência


Às vezes, como já aconselhou Christopher Nolan, recém premiado com o Oscar de Melhor Diretor por Oppenheimer, é melhor ir ao cinema sabendo o mínimo possível sobre um filme, pois as surpresas tendem a ser recompensadoras. Sigo essa estratégia desde a adolescência (quando vi a entrevista em que o britânico deu a declaração acima) e afirmo que realmente vale a pena. Caso ainda não tenha feito o mesmo, experimente com este novo Abigail e vai entender o que Nolan quis dizer. Como fui à cabine de imprensa sabendo nada além da ficha técnica, confesso que não saberei dizer o que entrou ou não nos materiais de divulgação. Portanto, alguns detalhes expostos no primeiro ato tendem a aparecer nos próximos parágrafos desse texto, esteja avisado.

A trama escrita por Stephen Shields e retrabalhada por Guy Busick tem início com uma jovem bailarina se apresentando num teatro vazio, enquanto um grupo heterogêneo de criminosos espreita do lado de fora, aguardando o momento perfeito para sequestrá-la. O ponto de encontro é um casarão do tipo que costuma ser mal-assombrado, fazendo a alegria dos filmes de terror. A ideia é aguardar no local até serem completadas as 24 horas necessárias para que um pedido de resgate ao misterioso e endinheirado pai da menina possa ser feito. O problema é que eles estão, na verdade, trancados e prestes a enfrentarem uma ameaça que não se apresenta exatamente na forma de um espírito. A verdade é que a aparentemente inofensiva e angelical “mini bailarina” (como é chamada pelo rádio) se revela uma vampira implacável e sedenta por sangue, transformando a noite dos criminosos num inferno.

Assim como aconteceu com o regular Drácula: A Última Viagem do Demeter, a produção poderia se desenvolver como um terror de confinamento se beneficiando da mitologia (e dos clichês) consagrados por um século de filmes vampíricos, mas o diferencial de Abigail é contar com Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett na direção e quem já assistiu a Casamento Sangrento e os dois últimos exemplares da franquia Pânico, obras anteriores da dupla, sabe exatamente o que isso quer dizer. Os cineastas norte-americanos desenvolveram um estilo que combina elementos cômicos e aterrorizantes com uma sintonia que chega ao ápice em sua mais nova criação. Não são grandes entusiastas da atmosfera como instrumento de inquietude, mas sabem provocar um susto com eficiência e oferecem um verdadeiro banquete para os fãs de gore, com direito a decapitações e litros de sangue explodindo na tela. Literalmente.

Quando trabalha em função desses elementos, o filme tende a ser escandalosamente divertido, especialmente por conta do talentoso elenco, escolhido a dedo para dar vazão à visão criativa dos diretores. Melissa Barrera, ex-estrela de Pânico (sua terceira participação dentro da cinessérie foi cancelada por conta de comentários públicos em defesa da Palestina) veste confortavelmente o manto de final girl, enquanto Dan Stevens (que em 2024 já apareceu em Godzilla e Kong: O Novo Império) brilha como o enigmático líder da gangue. E se a carismática Kathryn Newton (Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania) prova mais uma vez que merece um lugar ao Sol em Hollywood, é o veterano Kevin Durand (da série Locke & Key) quem rouba a cena como um brutamontes de intelecto limitado.

Mas apesar de provocar fortes gargalhadas com as observações sempre óbvias do personagem, Durand (cujo rosto estranhamente se assemelha ao do empresário Elon Musk) acaba sendo utilizado pelos roteiristas como um subterfúgio para explicar praticamente todas as referências que são feitas, demonstrando falta de confiança no espectador e, consequentemente, tirando parte da graça. Infelizmente, o texto também presume que a trama precisa ser mastigada a todo instante, oferecendo justificativas sempre que uma reviravolta se avizinha.

E esse é o calcanhar de Aquiles do longa, que não consegue aliar bom entretenimento a um material narrativo consistente, resultando numa salada de frutas temática (filme de câmara, de vampiro, slasher, whodunit...) pouco azeitada. Para começar, a dupla de roteiristas não encontra uma forma sutil de apresentar seus personagens, obrigando a protagonista a literalmente traçar o perfil de cada um dos comparsas. E por falar nela, o laço construído com Rickles é repentino demais para soar verossímil e fragiliza uma sequência específica que é concebida para extrair uma reação do público. Por outro lado, Shields e Busick se saem melhor ao manusearem os tropos vampíricos, mesmo que desajeitadamente.

Quando vemos os bandidos abordarem fraquezas famosas como crucifixos e alhos, é impossível não lembrar de Pânico e parte dessa “homenagem” resulta na experiência de Guy Busick, parceiro habitual dos diretores, como roteirista da franquia. Entretanto, se o estereótipo funciona, é graças ao conhecimento prévio do espectador, pois o texto é frágil ao fornecer uma base para os argumentos apresentados. Ironicamente, ao discutir tão superficialmente os clichês de filmes de vampiro, cria-se uma expectativa sobre o que vai ou não ser legitimado (alho não funciona, mas e quanto a estacas? Vampiros não se transformam em morcegos, mas será que voam?). Há um componente de gratuidade que atrapalha, especialmente no momento em que alguém, uma hacker, do mais absoluto e obscuro nada, tem uma ideia brilhante para resolver um problema (um reset no sistema de segurança, algo que deveria ser considerado logo de cara, convenhamos).

As limitações do texto acabam atrapalhando até mesmo o excepcional trabalho de Alisha Weir, verdadeira estrela da companhia. Depois de despontar no remake musical de Matilda, a irlandesa se diverte como Abigail, explorando a inteligência e a crueldade da vampira, mesmo que o texto escancare suas intenções manipuladoras logo no início (como é fácil se abrir com uma sequestradora desconhecida). Já o desconcertante grito que solta em determinados momentos, deve ser creditado ao ótimo trabalho sonoro da produção.

É possível apontar outras fragilidades, como a confusa passagem do tempo e o suspense em torno da real vilania, que se mostra bobo não apenas em função das pistas (fortes demais) dadas na primeira metade, mas também porque o ponto forte de Abigail é justamente a forma com que os bandidos lidam com a situação espetacularmente adversa. Por isso, o ritmo demora a engrenar, já que se perde um tempo considerável com a preparação para uma revelação natimorta.

E por falar em revelação, o terceiro ato envolve tantas reviravoltas (algumas previsíveis), que nem todas acabam funcionando, mas demandam alguns contorcionismos narrativos que tornam impossível não abrir ao menos um sorriso, algo frequente durante a projeção e que justifica, por si só, todos os esforços envolvidos.


NOTA 6,5


1 commentaire


Jnei Cândido
Jnei Cândido
18 avr.

Parabéns pela crítica.

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