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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

"Gran Turismo" equilibra roteiro fraco com ótimas sequências de corrida


Depois de Tetris, Blackberry e Flamin’ Hot, está chegando ao público mais um filme sobre uma grande marca. Criada em 1997, Gran Turismo é uma série de games que já vendeu quase 100 milhões de unidades em todo o mundo. Mas seu criador, o japonês Kazunori Yamauchi, garante que Gran Turismo é muito mais que um exclusivo PlayStation, pois trata-se do melhor simulador de corridas já produzido.


O roteiro, escrito pela dupla indicada ao Oscar Jason Hall (Sniper Americano) e Zach Baylin (King Richard: Criando Campeãs), no entanto, não é uma mera adaptação dos jogos, e, sim, baseado na história real do galês Jann Mardenborough (Archie Madekwe, do fraco Agente Stone, lançado pela Netflix), jovem viciado em Gran Turismo que conseguiu realizar o sonho de se tornar automobilista profissional.

Isso só foi possível graças à iniciativa de Danny Moore (Orlando Bloom, o Will Turner da franquia Piratas do Caribe), diretor de marketing que resolveu promover um concurso entre os melhores jogadores de Gran Turismo no mundo. O prêmio seria o ingresso na recém-criada GT Academy, onde jovens vindos de todos os lugares disputariam uma vaga na principal equipe de automobilismo da Nissan.

Por se tratar de uma adaptação cinematográfica, era de se esperar que Hall e Baylin lançassem mão de modificações em relação aos acontecimentos, exercendo a famigerada licença poética para estabelecerem rivalidades, adicionarem obstáculos e manipularem a cronologia dos fatos (como um acidente que marcou a carreira de Jann). À dupla, porém, falta criatividade, que opta por atalhos na hora de conceber a trama principal de Gran Turismo, que se desenrola no mesmo desgastado modelo que serviu de base a tantas obras sobre pessoas comuns indo atrás dos seus sonhos.

Se você assistiu a meia dúzia delas, certamente notará a quantidade impressionante de clichês e convenções utilizadas para narrarem a trajetória de Jann, desde os pais que não enxergam futuro na ambição do filho, passando pela pressão de fracassar e voltar para casa, até chegar ao mentor atormentado por um trauma misterioso. Tudo isso dividindo espaço com aqueles manjados artifícios concebidos apenas para intensificarem o suspense (é claro que determinadas decisões só serão tomadas no último segundo e algumas corridas só serão definidas na última volta).

E a partir do momento em que o protagonista consegue entrar para a GT Academy, a situação fica ainda mais constrangedora, com os roteiristas mal disfarçando as “homenagens” feitas a outro filme sobre jovens intensos competindo numa prestigiada escola de pilotos: Top Gun. Porém, o filme que alçou Tom Cruise ao estrelato não foi o único (lembre-se que há um acidente a impactar a vida do herói), já que até a continuação, o estupendo Top Gun: Maverick, é contemplado com uma referência direta (para evitar um termo mais forte) a uma frase marcante (“Não pense, apenas faça!” virou “não pense, só reaja!”).

Para piorar, Archie Madekwe, jovem em ascensão no cenário mundial, com papéis em produções cada vez maiores, carece de carisma e energia ao interpretar Jann. O rosto jovial e de gente comum, os modos simples e, claro, o anonimato, até surgem como motivos compreensíveis para sua escolha como protagonista, mas Madekwe falha ao tornar Jann um sujeito minimamente interessante. O papel derivativo, mais um ponto negativo do roteiro, indubitavelmente dificulta o trabalho do ator, mas o mesmo aconteceu com Xolo Maridueña em Besouro Azul, e foi superado com relativa facilidade.

Sorte que a produção conta com o talentoso Neill Blomkamp na direção, que equilibra as fragilidades do roteiro com sequências de corrida absolutamente espetaculares. Indicado ao Oscar pelo ótimo Distrito 9, o cineasta sul-africano ameniza a falta de inspiração do script com estilo e esbanjando inventividade na condução dos percursos. O maior mérito de Blomkamp, no entanto, é encontrar uma forma orgânica de levar para o Cinema a mesma linguagem visual dos games. Para isso, ele se beneficia de ótimos efeitos visuais que são empregados para mostrarem como Jann enxerga não apenas as corridas, mas o mundo.

Assim, quando está em casa jogando, ele se vê como um piloto de verdade e Blomkamp ilustra isso com perfeição em momentos que transportam Jann diretamente para dentro do carro, e vice-versa, pois em um determinado momento que o protagonista está tentando se tranquilizar numa corrida real, imaginando estar dentro do próprio quarto, o diretor desmonta o veículo até sobrar apenas o cockpit, exatamente como no seu simulador.

Aliás, se a produção é bem-sucedida ao constantemente borrar as fronteiras entre jogo e realidade, algo que sempre foi o objetivo da franquia, isso se deve também a David Harbour, o xerife Hopper da série Stranger Things. Carismático e extremamente expressivo, Harbour sempre foi um ator interessante, merecendo elogios pela forma como transmite sinceridade apenas com o olhar. Infelizmente, ele vinha sendo pouco aproveitado em Hollywood e somente após o sucesso de sua participação na supracitada série da Netflix que viu sua carreira evoluir.

Aqui ele interpreta Jack Salter, fictício engenheiro-chefe da Nissan que eventualmente se torna o maior parceiro de Jann. A relação entre os dois é o mais perto que Gran Turismo chega de oferecer humanidade, representando os melhores momentos da projeção fora das corridas. Por outro lado, Jack não serve apenas como apoio emocional do protagonista, funcionando também para expor o tempo todo as diferenças entre o que acontece nos games e na realidade, arrancando boas gargalhadas com seus discursos intensos e nem sempre motivacionais.

E se elogiei os efeitos visuais, também é preciso reconhecer o excepcional trabalho do departamento de som, que vai ao encontro da obsessão dos produtores do game com o realismo. Além disso, o prolífico e subestimado compositor Lorne Balfe, que trabalhou nos três últimos filmes da franquia Missão: Impossível e usufrui da experiência adquirida com a minissérie Les Mans: Paixão Pelo Desafio, é inteligente ao investir em melodias discretas que evitam chamar atenção para si, mas sem abandonar os acordes épicos tão esperados numa produção como essa.

Ao final, se Gran Turismo - De Jogador a Corredor sofre com um roteiro formulaico e previsível ao apresentar sua versão de uma história extraordinária (e real), ao menos é capaz de oferecer uma experiência que tem tudo para agradar aos entusiastas de automobilismo, especialmente graças ao talento de seu diretor, responsável por sequências de corrida invariavelmente empolgantes e criativas.


NOTA 5,5


1 Comment


Guest
Aug 29, 2023

Parabéns pela crítica.


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