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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Premiado em Cannes, "As Oito Montanhas", mostra o poder da amizade


Nos últimos anos temos sido presenteados com algumas obras realmente notáveis sobre fortes amizades, como Luca, Armageddon Time e, claro, Close. Embora tenha dificuldade em acreditar no surgimento de algo comparável a este último, o (ao mesmo tempo) sutil e poderosíssimo longa do belga Lukas Dhont (premiado em Cannes e indicado ao Oscar), As Oito Montanhas percorre seu próprio caminho rumo ao panteão dos filmes modernos sobre grandes amigos. Ao afastar qualquer traço de homoerotismo, o novo filme do também belga Felix Van Groeningen (do ótimo Querido Menino) ilustra com eloquência a relação entre Pietro e Bruno, crianças de realidades e ambientes distintos, mas que acabam se encontrando num verão em Grana, vilarejo nos alpes italianos. Pequena, a comuna chegou a ter 183 habitantes, mas viu esse número despencar para 14 após a inauguração de uma estrada estimular o êxodo rural, contrariando o propósito inicial da construção.

Pietro é de uma família financeiramente estável, graças principalmente a seu pai, cujo emprego como engenheiro acaba lhe tirando um tempo precioso que poderia ser gasto em casa. Vivendo em Turim, Pietro e sua família deixam o cotidiano movimentado e barulhento da cidade para curtir sazonalmente as belezas naturais dos alpes, alugando uma casa ao pé de uma das numerosas montanhas. Já Bruno é menos abastado, pois vive praticamente sozinho com a mãe naquele lugar de ambições limitadas. Seu pai, um pedreiro, é ausente, algo que nem Bruno é capaz de explicar ao demonstrar incerteza sobre seu paradeiro.

Nesse aspecto, a fotografia de Rubens Impens (Titane) faz um ótimo trabalho ao escancarar as diferenças entre as locações, banhando Turim com cores frias, enquanto Grana parece sempre ensolarada. Aliás, os planos abertos que valorizam as belíssimas paisagens do interior contrastam com as sequências quase claustrofóbicas que mostram a cidade sempre com tempo nublado ou chuvoso e acompanhada do caos inerente aos grandes centros populacionais, algo ressaltado também pelo design de som. A escolha por uma razão de aspecto quadrada (1.33 : 1) traz um caráter mais intimista à obra corroborando a atmosfera já melancólica.

Ampliando a escala da narrativa ao focar a amizade dos rapazes ao longo dos anos, As Oito Montanhas inevitavelmente tem de se sujeitar a elipses, começando em 1984 e saltando entre fases específicas. Essas transições, vale dizer, são construídas com imenso cuidado, num exercício meticuloso da montagem de Nico Leunen em conjunto com a figurinista Francesca Brunori. Repare, por exemplo, como na primeira cena do adolescente Pietro, o vemos com uma peça de roupa da mesma cor (vermelha) da camisa que usou na sequência anterior, quando ainda era uma criança. Inclusive, o vermelho passa a marcar seu figurino até o fim da projeção, assim como o marrom jamais abandona a caracterização de Bruno.

Com imagens absolutamente deslumbrantes, a fotografia inevitavelmente rouba a cena, com planos pictóricos que constantemente levam o espectador a querer emoldurar o que está vendo (como não admirar o amanhecer captado em tempo real?). A câmera também exerce papel fundamental nesse sentido: sempre bem-posicionada, além de engrandecer a geografia local e revelar os desafios representados por determinadas trilhas, perceba como o travelling circular é utilizado em momentos-chave (destaque para aquele em que a versão adulta de Pietro precisa mudar constantemente de lugar para conversar por celular).

Vivido com intensidade pelo sempre carismático Luca Marinelli (do excepcional Martin Eden), Pietro se torna a figura mais fascinante da história quando finalmente é interpretado pelo astro italiano. Hábil ao transmitir as indefinições de Pietro, mas sem recair na confusão, Marinelli também exibe boa química com Alessandro Borghi (Mundo Cão), que faz de Bruno um sujeito de poucas palavras, mas que jamais deixa de demonstrar (do seu próprio modo) o afeto que sente pelo amigo, com quem se importa tanto a ponto de perguntar sobre um eventual interesse numa amiga. A conexão entre os dois é tão magnética, que mesmo em passagens silenciosas é possível sentir o calor fraternal que emana dos dois, em tomadas externas (a construção do telhado) e internas (as conversas ao pé da lareira). Falando nisso, é nítido como a chama da amizade jamais enfraquece mesmo depois de tanto tempo separados, o que é justificado por Pietro de forma cirúrgica (“como se nossa amizade não precisasse de cuidados”).

Não bastassem todos esses predicados, As Oito Montanhas ainda se beneficia de um roteiro concebido com esmero a partir do romance de Paolo Cognetti. Incluindo uma narração em off que jamais soa gratuita (pelo contrário, agrega), o script é recheado de diálogos que transmitem muito, com pouco. Repare, por exemplo, como a educação definiu os dois homens. Se por um lado, foi o estopim para separar os amigos por quinze anos, por outro, serviu de guia para que cada um compreendesse seu lugar no mundo e a frase “fico feliz que tenha encontrado suas palavras”, é extremamente significativa nesse sentido. Da mesma forma, o roteiro de Groeningen em parceria com Charlotte Vandermeersch, sua esposa, adiciona algumas analogias pouco sutis, mas eficazes (“essa planta é estranha... forte ao crescer onde nasceu, mas fraca se colocada em outro lugar”). É admirável notar também, como alguns gestos e ações se repetem em contextos emblemáticos, mas que o diretor jamais sucumbe à tentação de incluir flashbacks (o retorno de Pietro ao cume que visitou com o pai).

Levemente enfraquecido por passar de forma apressada pela adolescência dos amigos, numa fase caracterizada apenas pela rebeldia inerente à idade, As Oito Montanhas também sofre com o desaparecimento repentino de uma figura feminina, que ganha uma ou outra menção até ressurgir apenas ao final, que por sua vez fecha com chave de ouro seu discurso sobre as memórias e a eventual melancolia ao revisitá-las.


Pois “em certas vidas há montanhas para as quais não é possível voltar”.


NOTA 8


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