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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Zona de Interesse impacta ao extrair força de seus contrastes



Já foram feitos tantos filmes sobre o Holocausto, que não acredito ser um erro afirmar que se trata de um subgênero por si só. Algumas dessas obras se escoram na guerra, outras preferem um recorte mais íntimo, debruçando-se nas relações humanas. É um tema espinhoso que poderia perfeitamente render histórias monocórdicas, mas a verdade é que rende até hoje preciosidades que não poderiam ser mais distintas entre si, como ao comparar os clássicos A Lista de Schindler (1993) e A Vida é Bela (1997). Zona de Interesse, todavia, se encaixa confortavelmente nesse nicho, mas talvez seja o mais discrepante entre seus pares temáticos.


Isso porque o britânico Jonathan Glazer, além de um cineasta fortemente autoral, é também um bastião da originalidade, característica que ostenta durante sua longa carreira. Aliás, apesar do tempo de estrada, Glazer, que começou dirigindo videoclipes, não chegou a assinar tantos filmes assim. The Zone of Interest, por exemplo, é apenas seu quarto longa-metragem. Nos longos hiatos entre suas produções, das quais ainda prefiro Sexy Beast (2000), sua estreia, ele não abandonou suas origens, dirigindo vídeos de bandas que refletem a aura eclética que orbita, como Radiohead, Jamiroquai e Blur.

Em Zona de Interesse, Jonathan Glazer adaptou o romance homônimo escrito pelo conterrâneo Martin Amis, falecido em Maio do ano passado, mas aproveita apenas um fiapo de sua história, fazendo jus à fama autoral. Na trama, escolheu mudar o protagonista, antes Boll, agora Rudolf Höss, peça importante da engrenagem construída pelo Terceiro Reich. Höss, interpretado por Christian Friedel (de A Fita Branca, duas vezes derrotado no Oscar 2010), de fato existiu e foi casado com Hedwig, por sua vez, vivida pela grande Sandra Hüller (indicada ao Oscar de Melhor Atriz esse ano por Anatomia de Uma Queda), com quem teve cinco filhos e viveu por três anos às margens de Birkenau, campo de concentração que ficou famoso não apenas pelo tamanho (foi o maior de todos), mas principalmente por sua localização: Auschwitz. O fato de Höss ser o líder administrativo do local onde ocorreu o maior genocídio de que se tem notícia é um detalhe no enredo ajambrado por Glazer, mas que não passa batido.

Rudolf Höss foi condenado em 2 de Abril de 1947 e enforcado no dia 16 do mesmo mês, afirmando ser o responsável pela morte de cerca de 3 milhões de pessoas, sendo 2.5 milhões através de execução imediata (por gás, veneno ou fuzilamento) e meio milhão de forma indireta (por fome ou doença). Esses dados não são fornecidos em momento algum durante os 100 minutos de projeção, mas são sentidos através de um apego ao subtexto que chega a lembrar Close (2022). Também não o vemos cometendo, ao menos diretamente, nenhum dos atos pelos quais ainda é lembrado e jamais será esquecido. Glazer é cuidadoso ao evitar, quase na totalidade, mostrar as vítimas do carrasco alemão. Por um breve momento, é possível ver alguns homens trajando os infames pijamas listrados enquanto passam por um matagal, mas se trata de uma daquelas aparições tão rápidas que o espectador fica a uma piscada de perder.

O maior conflito que se apresenta a Höss foi uma dificuldade real que se apresentou aos nazistas, quando as prisões locais ficaram pequenas demais para o volume de judeus que chegavam. O alemão, que esteve a frente da “Solução Final” (um eufemismo para o extermínio projetado por Hitler), recebeu altos oficiais para debater alternativas, uma delas, inclusive, ganha as telas durante o primeiro ato, com uma máquina que revolucionou as câmaras de gás (notadas apenas pela fumaça que suja o horizonte) por reaproveitar chamas adormecidas. Tudo isso, obviamente, discutido como se uma reunião de trabalho fosse. Isso tudo torna compreensível a decisão de não permitir um close sequer, como se nem mesmo o diretor fosse capaz de chegar tão perto.

Jonathan Glazer, assim, se desafia a evocar o terror sem colocá-lo diante do espectador. Não por acaso, é apenas graças ao irretocável trabalho sonoro que tomamos conhecimento do que acontece atrás dos longos muros farpados que se avizinham. Gritos, tiros e sirenes compõem uma paisagem sonora que não nos deixa baixar a guarda, por mais prosaicas que sejam as atividades que estejamos acompanhando. Afinal de contas, o filme acompanha o cotidiano da família Höss, que tenta levar uma vida tranquila apesar de tudo. Uma vida de luxo, vale ressaltar, mas mundana. Assim que Rudolf vai trabalhar, Hedwig passa a lidar com tarefas típicas de uma dona de casa, e suas ajudantes evidenciam os privilégios gozados pela esposa de um comandante da SS.

Filhos brincam pelo jardim e o cachorro da família (que rouba a cena), são apenas parte de uma engenharia meticulosamente criada por Glazer, um contador de histórias que opera a partir das faíscas que surgem dos contrastes. Pois, não se engane, a maior força de Zona de Interesse reside em suas contradições: é um filme sobre o Holocausto, mas também sobre nada disso; é um filme poderoso, mas aparentemente simples; ardilosamente penetrante, ainda que sutil; trata de um monstro, que vive como um ser normal. Prosaico, mas horripilante. É um trabalho técnico acima de tudo, o que provavelmente afastará boa parte do público (especialmente aquele que enxerga o Cinema como mero entretenimento, ao invés da Arte que o é). São pessoas normais executando tarefas normais, diga-se de passagem, embora o cenário não possua absolutamente nada de normal.

A trilha sonora de Mica Levi, indicada ao Oscar por Jackie em 2017, mas escandalosamente esnobada esse ano, adota acordes dignos de filmes de terror, em especial nos raros momentos em que Jonathan Glazer se permite algum floreio estético: simulando uma câmera de visão noturna, o cineasta cria uma imagem que mais parece um negativo em movimento e os sons guturais concebidos por Levi escancaram o desconforto do espectador. Curiosamente, essas cenas protagonizadas por uma garotinha e seu diligente trabalho com maçãs - fortes candidatas a receberem um tratamento musical mais auspicioso nas mãos de outro profissional – são as que ganham a tal roupagem sinistra, em mais uma antítese arquitetada por Glazer.

As sequências na casa dos Höss, por exemplo, são captadas pelo polonês Lukasz Zal (indicado ao Oscar também por Guerra Fria, de 2018) com um véu acinzentado que produz um efeito de iluminação propositalmente estranho. É como se aquela família se esforçasse demais para manter uma imagem ilibada, daí a luz quase estourada, especialmente em virtude de alguns figurinos, cuidadosamente desenhados por Malgorzata Karpiuk: repare, por exemplo, como as roupas civis de Rudolf são quase sempre brancas (com destaque para um terno que destoa durante uma festa), ao passo que as vestimentas da tal menina das maçãs ganha tons mais escuros. O próprio design de produção corrobora essa realidade artificial, basta comparar a construção impecável do lar habitado pelos protagonistas com aquele que abriga a criança supracitada. Como é possível perceber, nada escapa do azimute narrativo, nem mesmo o cão de estimação da família Höss (o nome “Slava” é uma homenagem à história de uma cadelinha que ficou famosa na Ucrânia por latidos de alerta durante a Guerra contra a Rússia).



No entanto, por mais que Hedwig tente manter seus familiares alheios ao que os rodeia, ignorar torna-se impossível, como seus próprios filhos deixam claro. Em mais de um momento, é possível ver o caçula fazer a saudação "Heil Hitler!" sem ter ideia do que esta representa. Ele também escuta um judeu ser capturado por pegar uma maçã e ainda reage de forma igualmente assustadora, pouco antes de ouví-lo ser fuzilado ("nunca mais faça isso!"). Já o mais velho, consciente daquilo com o qual está em contato, é visto prendendo o irmão numa estufa, pouco tempo depois de levar para casa dentes humanos (alguns banhados a ouro). Por outro lado, a mãe de Hedwig encurta sua visita justamente por não suportar o que vê, numa das cenas mais emblemáticas da projeção, quando uma imensa explosão lança uma luz vermelha em seu aposento (e o reflexo das chamas é visto no rosto da idosa através do vidro da janela). É o Mal que contagia, mesmo em sua forma mais vulgar, mas não menos perigosa ou, pior, perniciosa. E ele pode estar presente até no mais idílico dos lares...

Culminando num final igualmente arrebatador (repleto de significados) e que merece elogios por manter-se fiel à ojeriza de Jonathan Glazer ao sensacionalismo, Zona de Interesse ainda faz questão de mostrar que a História deve, sim, ser lembrada. Mais do que isso, é fundamental não esquecê-la, principalmente dos nossos erros, para evitar que se repitam. Uma lição que talvez devêssemos aprender com os alemães para impedir que o passado se torne presente.


NOTA 9


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