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CRÍTICA | "Cavalo Selvagem Nove"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 4 minutos
3 min de leitura


Minha relação com o Cinema de Martin McDonagh foi de amor à primeira vista, mais precisamente desde In Bruges (2008), época em que as distribuidoras tentavam atrair o público das locadores através de traduções, no mínimo, questionáveis, como o Hot Fuzz de Edgar Wright se tornando Chumbo Grosso e o filme de estreia do cineasta britânico, traduzindo por aqui como Na Mira do Chefe. O misto de humor sombrio com melancolia me fisgou desde o primeiro diálogo e até hoje lembro com amigos daquelas tiradas irresistíveis. Com o tempo, McDonagh foi refinando seu estilo, atingindo o apogeu com a obra-prima Três Anúncios Para um Crime, cuja derrota no Oscar para A Forma da Água deveria de fato ser encarada como um crime. Os Banshees de Inisherin, seu projeto seguinte, pode não ter momentos tão memoráveis quanto a invasão do policial racista de Sam Rockwell a uma delegacia ou uma linguagem cinematográfica tão meticulosamente bem construída, mas novamente brindou o espectador com uma mistura irresistível de comédia e drama, dessa vez batendo forte na tecla da acidez. De forma semelhante, Cavalo Selvagem Nove volta a explorar a culpa entre dois homens isolados numa ilha, mas apesar de contar com o sempre excelente Sam Rockwell (vencedor do Oscar por Três Anúncios), o show é todo de John Malkovich.

Eles interpretam uma dupla de agentes da CIA que vão parar na Ilha de Páscoa em meio à tensão política que antecedeu o golpe militar responsável por tirar Salvador Allende do poder. Malkovich interpreta Chris, o tipo de senhor ranzinza que, por ser também um veterano de um segmento confidencial do governo, frequentemente coloca o parceiro Lee (Rockwell) em apuros com o chefe (Steve Buscemi). Graças a uma condição especial de saúde e já na reta final da carreira, Chris deixou de se importar com o que fala, dizendo o que bem entende a quem quiser ouvir. Incluindo desde teorias da conspiração envolvendo a morte do presidente Kennedy, passando por uma curiosa relação entre países supostamente gays e a produção de queijo, e até missões altamente secretas, o que motiva a CIA a ficar de olho na dupla.

John Malkovich está (literalmente) careca de interpretar tipos extravagantes e de língua afiada, mas a novidade da vez está numa composição mais serena, sem os tradicionais rompantes histriônicos do ator duas vezes indicado ao Oscar. Confesso que já nem lembrava que o ator também é capaz de oferecer uma performance contida, mas é justamente sua envergadura dramática que o levará a ser fortemente considerado na disputa pelo próximo Oscar. Por trás de pérolas absolutamente hilariantes, esconde-se um sujeito vulnerável, com o peso de décadas de serviços prestados e sangue derramado. Não é preciso inventar conversas expositivas, quando um intérprete talentoso consegue transmitir fragilidade só pelo olhar.

O humor típico de Martin McDonagh é perceptível em cada linha de diálogo e traz leveza a uma história com um teor político agudo. A política externa norte-americana ganha francas alfinetadas, assim como o eterno conflito entre esquerda e direita recebe um espaço generoso dado pelo diretor e roteirista. Os sincericídios de Chris acabam representando o que quase todos pensam dos Estados Unidos, mas não se sentem confortáveis para falar em voz alta.

Com um John Malkovich em estado de graça, é fácil prestar menos atenção em Sam Rockwell, um dos atores mais subestimados de sua geração, pelo menos até levar merecidamente o Oscar. A expressividade de Rockwell é tão impressionante, que é praticamente impossível para McDonagh desviar a câmera de seu rosto, talhado sob medida para provocar gargalhadas sem precisar proferir uma palavra sequer.

Se em seus filmes anteriores, o cineasta britânico nos encantou com o uso consciente das cores, agora ele constrói simbologismos usando animais (cavalos, especificamente) e até esculturas (as enormes cabeças da Ilha de Páscoa), desabafando sobre a finitude da vida, legado e arrependimentos. Tudo isso com aquela camaradagem forjada na base da crueldade.

A sessão lotada na qual estive me fez lembrar dos melhores momentos que vivi no Cinema, numa época em que as pessoas topavam se desligar do mundo exterior por duas horas. Sem mexer no celular ou conversar com quem está ao lado. O resultado foi uma experiência quase sacra em que as gargalhadas só foram interrompidas pelo som ensurdecedor dos aplausos espontâneos imediatamente após os créditos surgirem na tela.


O Cinema ainda vive.


NOTA 9


*Crítica originalmente publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2026


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