CRÍTICA | "Klara e o Sol"


Estamos testemunhando uma verdadeira onda de produções sobre o relacionamento entre humanos e a temida Inteligência Artificial, o que não deixa de ser compreensível quando nos lembramos da célebre frase do cineasta e crítico francês Éric Rohmer (1920-2010) “todo filme é um documento de sua época”. A ansiedade e o receio envolvendo a evolução desse tipo de tecnologia vêm dominando as Artes, especialmente o Cinema, onde até Tom Cruise resolveu debater o assunto em sua franquia Missão: Impossível. Quem ainda não havia explorado o tema é Taika Waititi, diretor e roteirista vencedor do Oscar por Jojo Rabbit (2019). O neozelandês construiu uma filmografia repleta de dramédias centradas no relacionamento entre jovens, principalmente adolescentes. Para desbravar a ficção científica sem abandonar suas raízes, Waititi resolveu adaptar o romance homônimo do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

Na trama, Klara (Jenna Ortega, estrela da série Wandinha) é um androide inteligente e movido a energia solar projetado para ser um "Amigo Artificial" (AA) e aliviar a solidão de crianças em um futuro distópico. Ela é comprada por Chrissy (Amy Adams, de Canina) para fazer companhia a sua filha, Josie (Mia Tharia, vista nesse Festival do Rio em A Educação de Jane Cumming), uma adolescente de 14 anos que sofre de uma grave doença causada por um processo de aprimoramento genético.

Eventualmente, as duas formam um laço marcado pela lealdade, mas o roteiro assinado pelo próprio Waititi jamais perde de vista o foco em Klara. Ao fincar os dois pés na perspectiva do robô, a narrativa ganha um tom fabulesco (pelo encantamento cândido da personagem) misturado a uma atmosfera excêntrica que deveria ser um espelho da personagem, mas todos sabemos se tratar do estilo indefectível do cineasta. Aliás, o ponto mais forte de Klara e o Sol é justamente usar essa estranheza para guiar o espectador. Para onde, são outros quinhentos.

Waititi deixa questões importantes de fora para se concentrar num humor bobo e em subtramas que pouco têm a acrescentar. Até mesmo princípios de conflitos são abandonados para que a comédia típica do realizador possa ter mais espaço. É o caso do suposto ciúme de Josie, passando pela vista grossa a outros elementos importantes. É imperdoável ver os dilemas éticos, filosóficos e sociais que se apresentam aos montes, certamente preocupações de Ishiguro, serem sumariamente ignorados pelo texto. Nem mesmo a ambientação recebe a devida atenção do neozelandês, que jamais se prontifica a esclarecer o ano em que a história se passa ou qual o motivo de os lugares estarem em perfeito estado se uma Guerra Mundial aconteceu (e que acabou com a internet, diga-se de passagem)? E o que dizer do personagem de Steve Buscemi, que surge implacavelmente já no final do filme apenas para permitir uma reviravolta?

Falando nisso, Waititi abandona a leveza dos dois atos anteriores para se entregar a eventos artificialmente sombrios no terceiro ato, apressando-se para alcançar um desfecho que ainda se dá ao trabalho de subestimar a inteligência do espectador, apelando para uma narração que amarra didaticamente o que acabou de acontecer. Isso, claro, consegue incomodar mais do que o sentimentalismo barato que marca os instantes finais, quando vemos uma atriz do calibre de Amy Adams se entregar a diálogos melosos feitos sob medida para tentar arrancar lágrimas do espectador.

Adams, por sua vez, precisa urgentemente buscar um novo empresário, alguém capaz de colocá-la novamente em contato com grandes projetos. Seis vezes indicada ao Oscar e presente em obras excepcionais como O Vencedor (2010), O Mestre (2012), Trapaça (2013), Ela (2013) e A Chegada (2016), Adams vem desperdiçando sua credibilidade em produções questionáveis nos últimos anos, do fraco Era Uma Vez Um Sonho (2020), passando pelo netflixiano A Mulher na Janela (2021) e culminando no execrável Querido Evan Hensen (2021), só para citar alguns. Chrissy está perdida no meio dos devaneios de Waititi, mas tem presença suficiente para manter a dignidade. Ao passo que Jenna Ortega investe numa caricatura monocórdica que a obriga a adotar uma expressão pateta quase ininterruptamente. O olhar deslumbrado, revelando por tabela um senso de maravilhamento que a acompanha o tempo inteiro, acaba agregando mais do que qualquer esforço puramente narrativo. Às vezes até demais, convertendo Ortega a uma fábrica de caretas.

Se elenco e roteiro fracassam de mãos dadas, tecnicamente o filme não faz feio, a começar pela fotografia de Mike Berlucchi (da série Nossa Bandeira é a Morte) que abusa dos planos abertos não só para revelar a magnitude da natureza e uma máquina específica, mas também para ilustrar o tamanho de Klara em relação ao que a cerca. Algumas tomadas chegam a ser tão pictóricas quanto emblemáticas, como aquela em que o robô é visto no centro de um enorme campo de trigo ou quando uma imensa colheitadeira surge espalhando fumaça. Inclusive, o subtexto ambiental é outro elemento negligenciado pelo roteiro.

Que no final das contas tem menos a dizer do que a sublinhar a assinatura de um autor conformado com a ideia de ser reduzido ao próprio estilo.
NOTA 5,5









