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CRÍTICA | "Pai Mãe Irmã Irmão"

  • Foto do escritor: Guilherme Cândido
    Guilherme Cândido
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Rebelde por excelência, o nova-iorquino Jim Jarmusch construiu uma carreira marcada por filmes que nunca pareceram interessados em ser mais do que realmente são. A opinião acerca do público de seus trabalhos acompanha a extravagância da persona, sempre mantendo-se indiferente. E a partir do momento em que não há uma preocupação em articular um discurso ou dialogar com a plateia, surge a sensação libertadora de pura e simplesmente fazer o que dá na telha. Ou, nas palavras do dito cujo, “seguir os próprios instintos”. Por isso, é com estranhamento zero que podemos constatar o fato de Pai Mãe Irmã Irmão passar muito longe do tipo de produção que normalmente desembarca nos multiplexes atualmente.


Jarmusch escreve o que poderiam ser três curtas independentes, não fossem os elementos em comum que costuram o conjunto e o transformam em uma antologia de três histórias, todas marcadas por algum tipo de reencontro entre pais e filhos adultos. Na primeira, Adam Driver e Mayim Bialik percorrem um longo caminho pelo nordeste estadunidense até a gélida cidadezinha onde vive o pai, vivido por Tom Waits. Na segunda, ambientada na capital irlandesa, Charlotte Rampling interpreta uma mãe prestes a receber a visita anual das filhas, Tim e Lilith. Na derradeira, um casal de irmãos gêmeos está em Paris para lidar com o antigo apartamento onde passaram a infância, uma vez que os pais morreram tragicamente num acidente de avião.

Se você achou a sinopse acima solta demais, é porque o diretor e roteirista simplesmente não faz muita questão de trazer uma contextualização ou investir em ações. Nosso conhecimento sobre os personagens é limitado ao que é dito em cena, o que dá à narrativa um curioso aspecto de Arte a ser contemplada e não compreendida. Uma vez tomada essa atitude de desprendimento, fica menos difícil embarcar nos dilemas prosaicos de figuras que só acabam atraindo fascínio mesmo graças a seus intérpretes.

Nesse aspecto, Waits é o destaque do primeiro segmento, ao alimentar uma aura de mistério que dialoga perfeitamente com a dinâmica estabelecida entre Driver e Bialik. A tensão palpável nas conversas em família abre espaço para um humor sutil, mas que traz gargalhadas explosivas justamente por aliviar o peso da situação, como na reação do pai ao ouvir a filha perguntando sobre os remédios que toma.

Na história seguinte, Rampling acaba relegada às mesmas demandas dramáticas que cumpre ao longo de décadas de carreira, trazendo o rigor e a astúcia como características proeminentes da mãe que interpreta. Este segundo ato desperta curiosidade pela escalação de Vicky Krieps e Cate Blanchett como irmãs. A primeira, vivendo um espírito livre sem qualquer compromisso com a honestidade (trazendo complexidade como efeito colateral), enquanto a segunda tem a oportunidade de encarnar um papel mais retraído. A disputa pela admiração da matriarca ganha contornos tão bem delineados que acabam expostos até pela construção cênica.

O vermelho, por exemplo, é compartilhado pelo trio, mas distribuído de formas a complementar o roteiro, como ao destacar o descolamento entre Tim e a mãe (a blusa não abotoada, a embalagem diferente do presente). Essa construção, de forma peculiar, estabelece uma conexão com o primeiro ato, quando os figurinos de Driver, Bialik e Waits apresentam o mesmo tom de roxo, mas em volumes distintos (até os personagens reconhecem o detalhe). Ainda sobre conexões, Jarmusch é mais esfíngico ao investir em tomadas com skatistas se movimentando em câmera lenta, algo que se repete nos três contos. Já um relógio Rolex pode ter significados completamente opostos quando mencionados.

A parte final, naturalmente, é a mais sólida no que diz respeito a sensações e sentimentos, pois lida diretamente com a nostalgia. Os irmãos vividos por Indya Moore e Luka Sabbat (presentes no fraco Os Mortos Não Morrem, longa-metragem anterior de Jarmusch) nutrem uma química diferenciada, calcada num conforto melancólico sem precisar recorrer a rompantes. Aliás, o mero gesto de examinar um álbum de fotografias já é mais simbólico do que qualquer linha de diálogo, por mais que o roteirista não resista a reflexões filosóficas (banais, como toda a narrativa).

Quem conhece a filmografia de Jim Jarmusch talvez não se espante com a ausência absoluta de pressa em priorizar momentos normalmente pulados por outros realizadores (os primeiros dez minutos se passam dentro de um carro). Pai Mãe Irmã Irmão - vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza -, no entanto, fica anos-luz atrás de esforços como o temático e tonalmente semelhante Flores Partidas (2005) e o desabafo cinematográfico Amantes Eternos (2013), que permanece o meu favorito entre as criações do cineasta. Pensando bem, ver Tilda Swinton e Tom Hiddleston como vampiros boêmios analisando a evolução da sociedade e da cultura, deveria ser obrigatório para qualquer entusiasta da sétima arte.


NOTA 7



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