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CRÍTICA | "Vicentina Pede Desculpas"

Foto do escritor: Guilherme Cândido
Guilherme Cândido
há 12 minutos
2 min de leitura

Vicentina, uma idosa com dificuldades de locomoção é surpreendida com a notícia de que o filho motorista de ônibus morreu enquanto trabalhava. Outras várias pessoas também perderam a vida. Como Vicentina resolve processar a tragédia? Procurando a família de cada vítima para pedir desculpas em nome do filho. Cada um lida com o luto da própria forma, mas no caso da protagonista do novo filme de Gabriel Martins, é um sentimento que vem intrinsecamente ligado à culpa. Martins, cineasta mineiro responsável pelo bom Marte Um, é extremamente respeitoso ao não apressar os processos de Vicentina, consequentemente construindo um filme de quase duas horas e meia que transmite ao espectador o peso da perda através do desgaste. O tempo passa, mas a dor permanece.

Rejane Faria, vista duplamente no ano passado, quando estrelou Cinco Tipos de Medo, o grande vencedor de Gramado e o decepcionante A Melhor Mãe do Mundo, oferece uma composição em que o desgaste está estampado no rosto rasurado pelo envelhecimento. Apesar de o corpo não refletir a perfeição de outrora, os princípios seguem intactos, motivando-a a trilha uma verdadeira via crucis em busca de paz de espírito, embora nem todos que aceitam o encontro pesaroso ajam de forma convidativa.

Embora traga diversidade na galeria de personagens e as respectivas reações, Vicentina Pede Desculpas apresenta uma dinâmica repetitiva que gera esgotamento num público inicialmente vendido às nobres intenções do realizador. O ponto dissonante é mesmo Faria, objeto de um estudo minucioso que se extende à cultura de exploração do luto perpetrada pela imprensa. Não por acaso, o cotidiano de Vicentina é sempre invadido por noticiários, sejam através dos tradicionais telejornais ou pelos abjetos programas apresentados por supostos jornalistas que só sabem gritar palavras de ordem em direção à câmera. Há espaço de sobra também para conversas sobre trauma, empatia pré-julgamentos.

A atmosfera deliberadamente sombria é entrecortada por momentos de humor que aliviam a pressão de forma orgânica, sem forçarem a barra. Reações genuínas de Vicentina ou comentários de pessoas próximas também injetam algum frescor em meio à estrutura espiralada. Nesse ponto, a capital mineira serve como palco perfeito, oferecendo ruas e casas populares que refletem o calor humano entre vizinhos, contrastando com a impessoalidade dos bairros nobres, principalmente aquele onde ocorre o embate mais tenso travado pela protagonista.

Selecionado para competir pela Concha de Ouro no Festival de San Sebastián, Vicentina Pede Desculpas brigou até o fim para representar o Brasil em mais uma disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional. A Academia Brasileira de Cinema acabou elegendo Feito Pipa, mas o Original Netflix quase se credenciou ao prêmio hollywoodiano através do Festival de Toronto, onde foi indicado ao Platform Award, que se tornou um atalho para o Oscar após mudanças feitas pelo prêmio máximo do Cinema. Longas imperfeitos, mas singelos e tremendamente diligentes com os temas que desenvolvem.


NOTA 7,5


*Crítica originalmente publicada durante a cobertura do Festival do Rio 2026

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