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  • Foto do escritorGuilherme Cândido

Em ano difícil para os super-heróis, 'Aquaman 2' dá o tiro de misericórdia no DCEU


Muita coisa mudou desde que Jason Momoa topou a intrincada missão de redefinir Aquaman, um dos super-heróis mais tradicionais dos quadrinhos e, também, o mais ridicularizado. No texto que fiz sobre sua boa primeira aventura solo para as telonas (que pode ser lido aqui), lembrei das participações questionáveis do personagem no famigerado desenho Super Amigos e que causou danos aparentemente irreversíveis à imagem do Rei de Atlântida. A emissora que transmitia Super Amigos, inclusive, pegou carona nessa reputação negativa e o empurrou para o fundo do poço, tirando sarro, principalmente, de suas habilidades (falar com os peixes nunca foi uma dádiva cobiçada por seus admiradores, cá entre nós). Porém, verdade seja dita, não foi apenas a série animada que contribuiu para a queda vertiginosa de popularidade de Aquaman, que foi um prato cheio também para a comédia televisiva The Big Bang Theory.

Divagações a parte, quando Momoa assumiu o herói, o chamado Universo Expandido DC (ou DCEU, no original), ainda era uma pauta forte dentro da Warner, tanto que investiu rios de dinheiro para bater de frente com a poderosa Marvel, que reinava absoluta na época. O projeto pode não ter dado certo (Liga da Justiça marcou o início da queda), mas a estreia de Aquaman nos cinemas rendeu o primeiro bilhão da DC e é, até hoje, seu maior sucesso de bilheteria. Mas cinco anos se passaram e o DCEU se tornou um inconveniente para a Warner, enfileirando fracassos comerciais. O desespero levou o estúdio a aproveitar a oportunidade de cooptar James Gunn, o maior talento da concorrência, dando-lhe carta branca para salvar o futuro da DC. O nome por trás da amada trilogia Guardiões da Galáxia (a melhor da Marvel, diga-se de passagem), por outro lado, decidiu começar do zero, decretando o fim do antes promissor DCEU e programando um novo universo a partir de 2025, com o lançamento de mais um Superman, mas dessa vez com um elenco mais jovem.

O problema é que quando Gunn foi contratado, a Warner já tinha cinco projetos prontos para as telonas (Adão Negro, Shazam 2, Besouro Azul, The Flash e este Aquaman 2) e a notícia do reboot total da franquia (junto da incerteza da manutenção de astros como Henry Cavill e Gal Gadot) ganhou manchetes mundo afora, afastando de vez os que ainda prestigiavam os filmes da DC. Ora, se em 2025 tudo mudará, por que os espectadores deveriam continuar acompanhado esse moribundo Universo Compartilhado? A resposta? Mais quatro fracassos para a lista da Warner/DC, com um quinto prestes a se confirmar, pois a julgar pela qualidade apresentada, Aquaman 2 – O Reino Perdido não possui a menor condição de mudar o pensamento do público. Se antes os poucos entusiastas do DCEU alimentavam alguma esperança de ver a franquia ganhar uma nova chance, esta será sepultada assim que os créditos finais surgirem na tela.

Contando com o retorno do cineasta James Wan, o nome por trás da trilogia Invocação do Mal e seus bem-sucedidos derivados, Aquaman 2 até começa de forma promissora, dando indícios de que dará continuidade à irreverência demonstrada no filme anterior, apresentando o herói num contexto em que ataca aqueles que ousaram debochar de suas habilidades no passado, surgindo gloriosamente na garupa de um cavalo-marinho pouco antes de dizimar dezenas de inimigos. Velhas piadas caem por terra quando vemos o carismático Jason Momoa vestir as chamativas cores do atlante e quem teria coragem de encará-lo? O que se segue, porém, é uma bagunça narrativa que transforma a produção num engodo que custou 205 milhões de dólares para ser feito.

Se a forçada retrospectiva dos eventos do filme de 2018 e os diálogos pobres e expositivos fossem os únicos obstáculos encontrados, Aquaman 2 estaria no lucro, mas o cerne do problema é muito mais profundo. Estamos falando de uma obra que perdeu o rumo em pleno processo de criação, submetendo-se a refilmagens que, na tentativa de corrigirem os rumos, bagunçaram mais do que esclareceram e isso fica evidente em vários momentos. Para quem está de fora, é difícil determinar o que exatamente foi modificado, mas o que se vê na tela é uma aventura vazia na qual o roteirista David Leslie Johnson-McGoldrick parece ter batalhado para se desprender de qualquer conexão com os demais filmes da DC. E mesmo que haja uma parcela inevitável de referências à aventura antecessora, a história é acometida por um receio pungente de tudo aquilo que possa gerar desdobramentos, como se a real tarefa de Johnson-McGoldrick fosse amarrar a trajetória dos personagens sem deixar qualquer ponta solta que pudesse ser explorada no futuro.

Isso talvez explique, por exemplo, a ideia de colocar Arthur e o ex-vilão, agora parceiro, Orm (Patrick Wilson) numa inconsequente e aleatória jornada por uma selva enquanto escapam de um exército de grilos gigantes. E se você está com dificuldade para encontrar lógica nessa decisão, saiba que o sentimento de desconexão que surge a partir desse momento permeia até o final da história. As alterações feitas, demandadas pela chacoalhada promovida por James Gunn nos bastidores, também corroboram essa costura mal-feita do roteiro, apressado em mover seus personagens e ligar situações. Se o script pode até deixar um fiapo de dúvida quanto a desordem narrativa, a montagem de Kirk M. Morri (colaborador habitual de James Wan) se mostra profundamente caótica.

Além da já citada troca incessante e injustificada de localizações, Morri sofre para acompanhar o desenvolvimento turbulento da história, e o cientista Shin (Randall Park) é peça fundamental desse desacerto. Em dado momento, o personagem, que já vinha enfrentando um dilema moral, decide trair o vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II) sendo explodido pelo próprio alguns segundos depois. Não demora até que Aquaman e Orm entrem em cena para deter o sujeito, que após um breve, mas intenso confronto, consegue escapar ao pegar carona num submarino comandado por... Shin, que ainda por cima tem o nome gritado pelo Arraia em desespero. Para completar a confusão da montagem, o mesmo cientista sai de cena no ponto A e surge implacavelmente no ponto C (pulando o B), numa incongruência que acomete igualmente outros personagens, como Mera (Amber Heard), esposa do protagonista.

Assim como a Atlanna de Nicole Kidman e o pai de Aquaman (Temuera Morrison), a antiga princesa de Atlântida tem participação reduzidíssima na história, sob a desculpa esfarrapada de uma internação. Isso não a impede de salvar a pele do marido em duas oportunidades no terceiro ato, por mais estapafúrdias que sejam as situações (Mera Ex Machina?). Mas se os coadjuvantes acabam escanteados, ao menos a dupla principal se sai bem. Jason Momoa opta por jogar seguro, mantendo-se firme e forte na ideia de fazer de Arthur Curry um sujeito leve e descolado, ao passo que Patrick Wilson é quem definitivamente surpreende ao se empenhar para transformar Orm numa figura interessante e carismática. Dono de uma classe shakespeariana, ele preza por valores supostamente arcaicos como honra e comprometimento, servindo como ótimo contraponto à postura infantil de Arthur. Além disso, Wilson é hesitoso nas sequências de ação.

Para fechar o campo dos elogios, é preciso reconhecer, mais uma vez, o ótimo trabalho dos designers de produção Bill Brzeski e Sahby Mehalla, inteligentes ao conceberem a sociedade subaquática como um reflexo da vida marinha fora das telas. Dessa forma, naves e construções são inspiradas em baleias e tubarões-martelo, por exemplo, mas isso é um mérito que apenas deriva da produção de 2018, com Brzeski e Mehalla limitando-se a repetir a estratégia. Não deixa de ser curioso, todavia, ver um povo pescador habitando os arredores de Atlântida, com criaturas semelhantes a peixes e tubarões fisgando peixes menores.

Mas falar de Aquaman 2 – O Reino Perdido sem abordar os problemas de roteiro é impossível. Para começar, passam-se quase noventa minutos até o tal Reino Perdido finalmente surgir na tela e por pouco tempo, visto que não possui a menor relevância para o restante da história (o que se mostra mais estranho ainda), refletindo o que acontece a um importante vilão que comemora seu retorno, após séculos aprisionado, apenas para ser assassinado facilmente segundos depois. Igualmente constrangedores são os diálogos concebidos pelo roteirista David Leslie Johnson-McGoldrick que quando não está explicando os simplórios planos do protagonista e do vilão como se os espectadores fossem idiotas, investe em pérolas do tipo “Esse cara apontou a arma para a cabeça do mundo e atirou sem fazer qualquer exigência”. E não é só isso. A própria estrutura do texto é problemática. Perceba como cidades importantes são reveladas a todo o momento e como, à beira do terceiro ato, Johnson-McGoldrick resolve apresentar um importantíssimo macguffin (a substância chamada Oricalco), entregando-se a mais uma saraivada de diálogos artificiais.

Aliás, o tal Oricalco é apenas um embaraçoso instrumento encontrado pelo roteirista para embasar o argumento de que o Arraia Negra está por trás da aceleração do aquecimento global. Sim, Aquaman 2 tenta, tolamente, falar sério, escorando-se num problema contemporâneo para se banhar de alguma credibilidade, mas a concepção é tão rasa que mais parece ter sido elaborada por uma criança de 9 anos de idade. Espécie de mineral que produz grande quantidade de energia, mas emite uma quantidade alarmante de gazes do efeito estufa, o Oricalco (ou Richalcum, no original) é uma desculpa esfarrapada para a produção montar um frágil discurso alertando sobre os perigos do aquecimento global. E que cai por terra nos atrozes minutos finais, com um monólogo que também dá o tiro de misericórdia na dignidade do DCEU.

Igualmente descalibrado nas piadas (excessivas, bobas e fora de hora na maior parte do tempo) e no melodrama (ou sentimentalismo barato, graças ao arco meloso protagonizado pela(s) família(s) do protagonista), Aquaman 2 – O Reino Perdido é um remendo que só se parece com um filme graças à direção de James Wan que, se exagera na câmera lenta (não aquela usada pelo colega Zack Snyder, mas o efeito analógico dos anos 90), ao menos é hábil ao conduzir o filme sem perder o ritmo de vista, conferindo dinamismo a uma aventura descartável, mas aprazível. Pouco para quem orquestrou a criativa e arrojada sequência de ação na Itália, presente no filme anterior, mas o suficiente para impedir a produção de alcançar o título de pior filme de super-herói do ano.

Num ano que tivemos os fracos Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania e As Marvels, além do razoável Flash, ser considerado um dos melhores também não quer dizer muito. A não ser para o ótimo Guardiões da Galáxia Vol. 3 e o extraordinário Homem-Aranha Através do Aranhaverso, esses sim lembretes do que o subgênero já foi capaz de oferecer, mas que segue imerso numa crise de grandes proporções. James Gunn terá muito trabalho pela frente...


E como desgraça pouca é bobagem, há uma cena pós-créditos.


NOTA 4


1 Comment


Jnei Cândido
Jnei Cândido
Dec 22, 2023

Parabéns pela crítica.

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